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A convenção de Warren Buffett sem Buffett: 10 pontos para entender Omaha

A convenção de Warren Buffett sem Buffett: 10 pontos para entender Omaha

Cheguei ao CHI Health Center, em Omaha, às seis da manhã. Nos últimos anos, a essa hora, a fila dobrava o quarteirão e a competição era pelos melhores assentos para ver, de perto, o homem que reinventou o conceito de “investir para o longo prazo”. Neste sábado, 2 de maio, a fila simplesmente não estava lá.
Caminhei pela feira de exposições das empresas investidas: Brooks Running, See’s Candies, Dairy Queen, Geico, BNSF, NetJets. Logo percebi um silêncio invulgar. Não havia disputa por souvenirs, nem aquela energia quase religiosa de Woodstock dos Capitalistas que a imprensa mundial canonizou ao longo de seis décadas. Quando subi para a parte mais alta da arena, a vista revelou a cena mais simbólica do dia: cadeiras vazias. Muitas. A arena, que já recebeu mais de 40 mil acionistas, estava pouco mais de metade cheia.
Foi a primeira assembleia da Berkshire Hathaway sem Warren Buffett no comando. E o vazio dizia mais sobre o momento do mercado do que qualquer linha do balanço.
A seguir, os dez pontos que considero indispensáveis para qualquer investidor, seja brasileiro ou global, que precisa entender o que mudou (e o que não mudou) na holding mais observada do planeta.

A era Greg Abel começou – e ela é técnica, não folclórica

Buffett cedeu o cargo de CEO em janeiro, mas permaneceu como chairman e fez comentários da plateia. No palco, quem conduziu foi Greg Abel, acompanhado de Ajit Jain (seguros), Katie Farmer (BNSF) e Adam Johnson (NetJets e retalho). A piada folclórica, a tirada de Munger, o improviso filosófico, tudo isso saiu de cena. Entrou um discurso operacional, detalhado, quase pragmático demais para os padrões emocionais do evento. É um sinal: o evento da Berkshire deixou de ser teatro e voltou a ser empresa.

397 mil milhões de dólares em caixa

Abel abriu o Q&A respondendo a uma pergunta sobre por que razão manter a ação da Berkshire no longo prazo. A resposta foi direta: 397 mil milhões de dólares em dinheiro e Treasuries garante “liberdade de movimento” e a postura de “não estar refém de ninguém”.
Em seguida, reforçou: “Não estamos ansiosos por investir capital em oportunidades subpar.” Para o investidor que vê apenas uma parte da fotografia, leia-se o retorno trimestral, e não o todo – é uma aula de paciência institucional.

“Mercados são uma igreja com um casino ao lado”

A frase do dia veio de Buffett, em entrevista a Becky Quick, da CNBC. Ele comparou o mercado a uma igreja com um casino ao lado, distinguindo o investimento de valor da febre por opções de curtíssimo prazo e mercados de futuros.
A sentença completa é definitiva: “Comprar opções de um dia não é investir, não é especular, é jogar.” E concluiu: “Nunca tivemos pessoas com tanta vontade de apostar como agora.”
Buffett ainda comentou o caso em curso na Justiça americana, do soldado dos EUA acusado de usar informação confidencial sobre uma operação militar na Venezuela para ganhar 400 mil dólares no mercado de futuros. O recado foi claro: a fronteira entre investimento e jogo nunca foi tão fina.

O ‘deepfake’ do próprio Buffett abriu a sessão

A primeira “pergunta” do Q&A chegou em vídeo. Uma versão deepfake de Buffett, gerada por IA, questionando por que razão os investidores deveriam conservar as ações da Berkshire. Foi uma encenação deliberada e funcionou.
“É assustador”, disse o próprio Buffett mais tarde, lembrando que a tecnologia já permite criar versões falsas e convincentes de líderes mundiais com armas nucleares. A Berkshire, conhecida pelo conservadorismo tecnológico, escolheu o palco mais visível do ano para colocar o risco cibernético em primeiro plano.

“Não vamos fazer IA pelo simples fato de fazer IA”

A frase é de Abel e merece destaque num momento em que Snap, Atlassian e até a Allbirds invocam a IA para justificar demissões ou mudanças estratégicas. A Berkshire não vai entrar nessa onda por marketing.
Abel sinalizou a aplicação “de âmbito reduzido e focada em criar propostas de valor”. É a velha disciplina de Buffett vestida de tecnologia: só investir no que se entende.

Estreito de Hormuz: a Berkshire admite segurar navios… se compensar

Aqui o assunto cruzou-se diretamente com o que venho cobrindo na CNN Brasil há semanas. O VP da operação de Seguros da Berkshire. Ajit Jain foi questionado se a Berkshire seguraria navios que passassem no estreito de Hormuz no contexto da guerra Irão-Israel-EUA.
A resposta sintetiza tudo o que é necessário saber, hoje, sobre o mercado de seguros globais: “Depende do preço.” Jain acrescentou que há capacidade no mercado para absorver o risco, mas exigiu duas condições: prémio compatível e escolta da Marinha americana. Tratando-se de uma das principais artérias do petróleo mundial, isto seria ‘precificação geopolítica’ em estado puro.

Petróleo a 100 dólares mexe no bolso do consumidor americano

Adam Johnson, agora aos comandos de 32 negócios retalhistas da Berkshire, foi muito claro: os períodos de petróleo a 100 dólares/barril já reduziram a procura de bens de consumo e retalho. O recado importa para quem investe em consumo discricionário globalmente e para o investidor brasileiro que precisa entender que a Petrobras e o Ibovespa não vivem numa ilha. O crude caro fortalece a receita de exportadoras de commodities e comprime simultaneamente o consumidor final, em qualquer lugar do mundo.

Lucro mais que duplicou e a Geico voltou a dar lucro

O resultado do primeiro trimestre foi forte: o lucro da Berkshire mais do que duplicou. A unidade de seguros que inclui a Geico reportou lucros de subscrição no valor de 1,7 mil milhões de dólares, face aos 1,34 mil milhões no período homólogo do ano anterior.
BNSF, utilities e manufatura também avançaram, embora Abel tenha admitido que a BNSF ainda está atrás dos pares no setor ferroviário americano. Tradução: a máquina operacional continua a funcionar e isso, num momento em que o S&P 500 vive de promessas de IA, é diferenciação.

Sem desinvestimentos, sem fragmentação

Os acionistas há anos que pressionam a favor de uma eventual cisão da Berkshire. A tese clássica de que a soma das partes valeria mais separada. Abel descartou. “Somos um conglomerado, mas somos um conglomerado eficiente. Não temos camadas de gestão.”
Acrescentou que, quando a Berkshire compra uma empresa, é “para sempre”, exceto em casos de relações laborais insolúveis ou de riscos reputacionais graves. É a filosofia Buffett mantida em texto e tom pelo seu sucessor.

As camisas de Buffett e Munger subiram ao teto

O momento mais emocionante foi também simbólico. Abel anunciou a reforma das “camisas” de Buffett e Munger, que ficarão eternizadas no teto da arena, numa homenagem que lembra certas provas desportivas norte-americanas. Munger morreu em 2023. Buffett, aos 95 anos, estava in loco, sentado com os demais conselheiros.
Num outro momento, pediu a Tim Cook — o CEO da Apple também de saída, que “acenasse”. Foi a sucessão olhando para a sucessão. E foi o trecho mais humano de uma reunião que, em tudo o mais, foi estritamente corporativa.
O que levo de Omaha para o investidor brasileiro
A primeira assembleia sem Buffett a comandar confirmou o que muitos suspeitavam: a Berkshire entrou numa nova era, mais técnica e menos folclórica, e isso é racional para uma holding que gere quase mil biliões de dólares em ativos. Mas três mensagens precisam ser interiorizadas por quem investe.
Primeiro, a paciência institucional passou a ser um ativo escasso. Num mercado em que opções de um dia movimentam volumes recordes, manter 397 mil milhões de dólares em caixa a aguardar pelo ativo certo é uma declaração de princípios e um lembrete de que a disciplina de investimento ainda é a vantagem competitiva mais durável que existe.
Segundo, a geopolítica voltou a ‘precificar’ tudo. Hormuz, petróleo a 100 dólares, guerra no Médio Oriente não são manchetes, são variáveis no spreadsheet. O que a Berkshire quer dizer, em linguagem de seguros e consumo, é que o mundo de 2026 é estruturalmente mais caro para quem escolhe ignorar o mapa.
Terceiro, o “humor de casino” descrito por Buffett é também uma caraterística do investidor brasileiro contemporâneo, especialmente o retalho que entrou no mercado entre 2020 e 2024. A frase “comprar opção de um dia não é investir” precisa ser lida pelo investidor que opera na B3 com a mesma seriedade com que é lida em Wall Street.
Saí da arena com uma certeza: o teatro acabou, mas a tese permanece. E talvez essa seja a maior herança que Buffett podia deixar: uma cultura forte o suficiente para sobreviver à sua própria ausência.
O autor acompanhou presencialmente a Assembleia Anual 2026 da Berkshire Hathaway, em Omaha, EUA

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