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Reino Unido: corrida autárquica reúne mais de duas dezenas de candidatos lusófonos

Reino Unido: corrida autárquica reúne mais de duas dezenas de candidatos lusófonos

Mais de duas dezenas de candidatos de origem lusófona concorrem esta quinta-feira às eleições autárquicas em diferentes regiões de Inglaterra, incluindo estreantes, repetentes e dois adversários na mesma área.
Em Lambeth, no sul de Londres, Diogo Costa e Pedro Xavier, ambos com origem no norte de Portugal e ligados há muitos anos ao município, disputam a zona de Oval, que inclui o bairro conhecido como “Little Portugal”.
Eleito em 2022 pelo Partido Trabalhista, Diogo Costa, engenheiro informático de 27 anos, recandidata-se para um segundo mandato e dar continuidade ao trabalho, sobretudo na melhoria dos espaços públicos.
“Consegui concretizar algumas coisas para a área local”, afirmou à agência Lusa, referindo o mural dedicado ao ‘Little Portugal’, inspirado no Coração de Viana, como um dos exemplos do trabalho desenvolvido.
Nascido em Londres, mas filho de pais de Mangualde, Costa acredita que a presença no executivo local, onde coordena a transformação digital, ajudou a estreitar a relação entre a autarquia e a comunidade lusófona.
“Ser português foi uma bênção para a Câmara porque puderam usar-me para questões relacionadas com as comunidades de língua portuguesa”, disse, sublinhando que houve “muito mais envolvimento” durante o mandato.
Pedro Xavier discorda, e concorre pela primeira vez pelos Liberais Democratas na mesma área.
Nascido em Bragança e residente em Londres desde a infância, o empresário tem 48 anos e é uma figura conhecida da comunidade emigrante, sendo Conselheiro das Comunidades Portuguesas, proprietário da rádio RTV Lusa e dirigente da secção do PSD no Reino Unido.
“Nestes últimos anos tenho visto um declínio na gestão dos recursos da Câmara [de Lambeth] e na forma como tem sido gerida. E acho que deve existir uma representatividade portuguesa para poder, educadamente, bater o pé”, afirmou à Lusa.
Xavier espera beneficiar do descontentamento nacional com o Partido Trabalhista, atualmente no Governo, numa zona tradicionalmente dominada pelos trabalhistas. Diogo Costa, por sua vez, considera que os Verdes são a principal ameaça local, e não os ‘Lib Dems’.
Em Crawley, a sul de Londres, Nicolene Ascenso estreia-se pelo Partido Trabalhista. Tem 46 anos, nasceu em Durban, na África do Sul, mas mantém ligações familiares à Madeira, à Ponta do Pargo e aos Prazeres, e vive no Reino Unido desde 1998.
“Decidi candidatar-me porque me preocupo genuinamente com a comunidade e quero desempenhar um papel ativo na melhoria da área para os residentes”, disse à Lusa, apontando o custo de vida, a pressão sobre os serviços públicos, a habitação e a segurança como prioridades.
Crawley tem uma importante comunidade portuguesa, sobretudo madeirense, e, além de Ascenso, há ainda as lusodescendentes Laura Gomes Menezes e Carolina Isabel Rodrigues Braga, ambas candidatas pelos Verdes.
A candidata trabalhista sublinha que a representação política é importante para que as comunidades se sintam incluídas e ouvidas, embora faça questão de dizer que quer trabalhar para todos, “independentemente da origem ou nacionalidade”.
Em Watford, a norte de Londres, Sandra Mano candidata-se pela primeira vez na política britânica, após vários anos de trabalho comunitário com diferentes forças locais.
Natural de Barcelos, tem 42 anos, vive no Reino Unido há duas décadas, é empresária na área da limpeza e Conselheira das Comunidades Portuguesas.
“As mudanças políticas que estão a acontecer no país e que se sentem muito nesta área, com o avanço do partido da extrema-direita, fez com que eu achasse que, principalmente nós que não somos britânicos, deveríamos ter uma voz mais ativa”, explicou à Lusa.
Num município maioritariamente liberal-democrata, Mano espera também beneficiar do descontentamento com o Governo trabalhista.
A mesma expectativa é partilhada por André Soares, em Coventry, a cerca de 160 quilómetros de Londres, onde o professor universitário e psicólogo se candidata pela quinta vez.
“O meu interesse por política é antigo e começou ainda em Portugal”, afirmou, referindo que foi deputado municipal em Tomar antes de se mudar para o Reino Unido, em 2015.
Soares, de 47 anos, diz sentir-se “perfeitamente integrado na cultura e sociedade britânica” e considera que a nacionalidade portuguesa não tem peso na sua campanha.
“Estamos a viver atualmente um momento bastante positivo. No entanto, estas eleições são imprevisíveis”, admitiu, sem saber se desta vez conseguirá, finalmente, ser eleito.
Em Guildford, no sudoeste de Londres, Luís Machado, programador de videojogos de 27 anos, natural da Póvoa de Varzim, avançou como candidato após se ter entusiasmado com a liderança de Zack Polanski nos Verdes.
“Para mim, os Verdes representam a esperança num futuro melhor, em que o bem-estar das pessoas é a prioridade do partido”, disse, sublinhando que a sua geração já não se revê nos partidos Trabalhista e Conservador.
“O panorama político britânico está a passar por uma fase de grandes mudanças, afastando-se cada vez mais do sistema bipartidário que historicamente dominou as eleições”, acrescentou.
A mesma frustração levou Carla Barreto a ser candidata independente para autarca da região de Norfolk.
“Candidatei-me porque as pessoas me pediram, porque há muita gente farta de votar nos partidos”, contou Barreto, de 47 anos e natural de Outeiro, Viana do Castelo.
O avanço do Reform UK, partido anti-imigração nascido do Partido do Brexit, no leste de Inglaterra, está a pressionar não só o Partido Conservador, que antes dominava a região, como também o Partido Trabalhista.
“A democracia flutua em ciclos, consoante o que as pessoas sentem no dia a dia, e elas votam de acordo com essas tendências”, disse a autarca, que é deputada municipal em Thetford, cerca de 140 quilómetros a nordeste de Londres, e ‘Mayor’ da vila.
Rafael Costa, de 40 anos e profissional de vendas, também decidiu candidatar-se como independente em Birmingham, mas devido à frustração, em particular com o Partido Trabalhista, e a incapacidade deste em resolver problemas locais, como a greve dos trabalhadores da recolha do lixo.
Nascido em Macau, mas com ligações a Portugal e Angola, Costa está a tentar unir e representar uma comunidade com grande diversidade étnica, tendo recebido apoio do ‘Your Party’, o partido de esquerda do antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn.
“O ‘Labour’ vai perder a maioria na Câmara Municipal. Acho que vai ser interessante ter mais vozes a tentar mudar a cidade. Para melhor, espero”, confiou.
Pelo contrário, Tiago Corais, de 47 anos, natural de Braga e engenheiro na indústria automóvel, vai tentar um quarto mandato pelo Partido Trabalhista em Oxford.
“Tenho um enorme orgulho em ser um autarca acessível, amigável, sempre pronto a ouvir e, acima de tudo, capaz de fazer a diferença na comunidade com verdadeira capacidade de concretização”, afirmou à Lusa, apontando trabalho realizado nas áreas social, cultural e ambiental.
Corais admite que a impopularidade do Governo de Keir Starmer torna estas autárquicas “das mais difíceis que já enfrentámos”.
“A realidade é que governar é muito mais difícil do que estar na oposição”, resume.

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