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Seniores portugueses usam a casa para ajudar financeiramente os familiares

Seniores portugueses usam a casa para ajudar financeiramente os familiares

Seja para ajudar na entrada para a compra de habitação, suportar propinas, fazer face a despesas de saúde ou equilibrar situações financeiras mais fragilizadas, o património imobiliário da população mais envelhecida está a assumir uma nova função — a de rede de suporte intergeracional.
Portugal mantém-se entre os países europeus com maior taxa de proprietários de habitação, em particular nas faixas etárias mais avançadas. Contudo, esta realidade convive com um paradoxo crescente: muitos destes proprietários vivem com rendimentos mensais limitados, frequentemente insuficientes para garantir conforto financeiro próprio, muito menos para responder a necessidades adicionais da família.
Ainda assim, a prioridade mantém-se. Como refere Pedro Almeida Cruz, fundador e CEO da Empathia, “Existe uma forte cultura de entreajuda familiar em Portugal, onde os pais fazem um esforço contínuo para apoiar os filhos, netos, outros familiares, mesmo em fases mais avançadas da vida. O que estamos a observar é que esse apoio está, cada vez mais, a ser viabilizado através do património imobiliário”.
O fenómeno, identificado num estudo da Empathia, evidencia não apenas a importância da habitação enquanto ativo financeiro, mas também as fragilidades que atravessam muitos agregados familiares. Em vários casos, os seniores acabam por comprometer a sua própria estabilidade financeira para garantir o apoio às gerações mais jovens.
Perante este cenário, começam a ganhar visibilidade soluções que permitem transformar o valor da casa em liquidez, sem obrigar à saída do imóvel. Entre estas opções destaca-se a venda com usufruto vitalício, um modelo que permite ao proprietário vender a habitação, libertar capital imediato e manter o direito de nela viver até ao fim da vida.
“Estas soluções permitem encontrar um equilíbrio mais sustentável. Os seniores conseguem apoiar a família, reforçar a sua própria qualidade de vida e manter a autonomia, sem abdicar do seu lar”, acrescenta Pedro Almeida Cruz.
Apesar do crescente interesse, estes instrumentos financeiros continuam a enfrentar barreiras significativas, sobretudo ao nível da literacia financeira e da confiança. O desconhecimento das alternativas disponíveis e a falta de informação estruturada continuam a condicionar decisões potencialmente mais seguras e adequadas à realidade de muitos agregados.
Mais do que uma tendência económica, este é um fenómeno com dimensão social. O facto de avós e pais continuarem a funcionar como principal suporte financeiro das famílias, mesmo em idades avançadas, revela não apenas a força dos laços intergeracionais, mas também fragilidades estruturais que atravessam o sistema económico e habitacional.
Num país onde a casa continua a ser, para muitos, o principal património acumulado ao longo da vida, o debate em torno da sua utilização ganha nova centralidade: como garantir que a solidariedade familiar não se traduz em perda de segurança financeira na velhice, e que as decisões são tomadas com informação, equilíbrio e proteção adequados.

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