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Uma Europa em transição. Os momentos que mudaram a última década europeia

Uma Europa em transição. Os momentos que mudaram a última década europeia

Num contexto internacional marcado por crescente instabilidade, fazer projeções geopolíticas tornou-se um exercício cada vez mais prudente. A sucessão de crises na última década, da pandemia à guerra na Ucrânia, mostrou como acontecimentos inesperados podem alterar rapidamente equilíbrios económicos e estratégicos.
Brexit. A primeira saída da União Europeia
O referendo britânico de junho de 2016 marcou um momento histórico para o projeto europeu. Com 51,9% dos votos a favor da saída, o Reino Unido tornou-se o primeiro Estado-membro a abandonar a União Europeia (UE). A saída formal concretizou-se a 31 de janeiro de 2020, após negociações que culminaram no Acordo de Comércio e Cooperação entre Londres e Bruxelas.
Este novo enquadramento redefiniu as regras de circulação de bens, serviços e pessoas entre o Reino Unido e o mercado europeu. Apesar do impacto conjunto do Brexit no produto total da economia portuguesa ter sido limitado, com perdas estimadas máximas de 0,1% do PIB, no setor das exportações de bens e serviços o abalo foi mais expressivo. O Reino Unido perdeu a posição de quarto maior destino das exportações de bens portugueses (2015) para o sétimo lugar (2023), com as exportações de serviços a cair de 14,8% para 8,3% neste mesmo período, segundo o relatório “The Impact ofBrexit on Portuguese-British Trade”, publicado pelo Banco de Portugal em 2024.
O relatório indica ainda que as empresas que mantiveram exportações para o mercado britânico registaram um ritmo de crescimento inferior ao das que optaram por cessar essa atividade.
Pandemia e recuperação económica europeia
A pandemia de COVID-19 representou o maior choque económico na UE desde a Segunda Guerra Mundial, como relevou a Comissão Europeia e várias instituições financeiras. Em resposta, os Estados-membros aprovaram em 2020 um pacote de recuperação sem precedentes.
O programa NextGenerationEU, com um valor total de 750 mil milhões de euros a preços de 2018, tornou-se o maior pacote de incentivos jamais empreendido na UE. Oobjetivo da sua criação foi apoiar a recuperação económica, acelerar a transição digital e climática e promover a transformação digital das economias europeias.
Portugal é um dos beneficiários deste mecanismo através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Neste âmbito, Portugal tem 16,6 mil milhões de euros de dotação inicial, valor que, após reprogramação aprovada pelo Conselho Europeu em outubro de 2023, subiu para 22,2 mil milhões de euros.
Guerra na Ucrânia e o regresso da segurança à agenda europeia
A invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de fevereiro de 2022, alterou profundamente o enquadramento geopolítico europeu. O conflito levou a UE a adotar sucessivos pacotes de sanções económicas contra Moscovo e a reforçar o apoio político, financeiro e militar a Kiev.
Num comunicado divulgado em março de 2022, o Conselho Europeu afirmou que a agressão russa constitui “uma violação flagrante do direito internacional e dos princípios da Carta das Nações Unidas”.
Portugal contribuiu com ajuda financeira, envio de equipamento e acolhimento de refugiados. Em termos humanitários, o País atribuiu 55.245 títulos de Proteção Temporária a refugiados ucranianos, segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) reportados no final de 2025. Já em termos financeiros, o apoio português à Ucrânia totalizou 227 milhões de euros em 2024, segundo confirmação do Conselho de Ministros em março de 2025.
A guerra trouxe ainda para o centro da agenda europeia temas como defesa, segurança energética e autonomia estratégica. Segundo a NATO, os aliados europeus e o Canadá aumentaram o investimento em defesa de 1,43% do PIB em 2014 para 2,02% em 2024, totalizando mais de 482 mil milhões de dólares em despesa militar em 2024. Mas ameta para 2035 definida na Cimeira de Haia é a de chegar a 5% do PIB.
Crise energética e aceleração da transição verde
A guerra na Ucrânia expôs a forte dependência energética europeia. Antes da invasão, cerca de 40% do gás natural importado pela UE provinha da Rússia, segundo dados da Comissão Europeia.
Para reduzir essa dependência, Bruxelas lançou o plano REPowerEU, que visa acelerar a diversificação de fornecedores e aumentar o investimento em energias renováveis.
Neste contexto, países com elevada produção renovável ganharam maior relevância. Segundo a REN, a energia renovável representou em 2025 cerca de 68% do consumo de eletricidade em território nacional, colocando o país entre os Estados-membros com maior peso destas fontes no sistema energético.
Autonomia estratégica europeia
Nos últimos anos, a União Europeia tem procurado reduzir dependências externas e aumentar a resiliência em áreas críticas como tecnologia, energia ou cadeias de abastecimento. O conceito de “autonomia estratégica aberta”, promovido pela Comissão Europeia, ganhou particular relevância após a pandemia e a guerra na Ucrânia.
Iniciativas recentes como o European Chips Act ou o Critical Raw Materials Act, procuram reforçar a produção europeia de semicondutores e garantir o acesso a matérias-primas essenciais para a transição energética e digital. Este último estabelece metas para que, até 2030, pelo menos 10% da extração, 40% do processamento e 15% da reciclagem de matérias-primas críticas ocorram dentro da UE, segundo a Comissão Europeia.
Portugal surge, neste contexto, com potencial estratégico no acesso a matérias-primas críticas. O país possui alguns dos recursos de lítio mais significativos da UE e tem sido um dos principais produtores do mineral no espaço europeu, de acordo com dados do US Geological Survey.
Ao mesmo tempo, a posição geográfica de Portugal virado para o Oceano Atlântico reforça o seu papel na infraestrutura digital europeia. Projetos como o data center StartCampus, em Sines, associado a novos cabos submarinos transatlânticos, refletem a aposta em infraestruturas digitais estratégicas para a ligação entre Europa, África e Américas.
O futuro da União Europeia: resiliência e fragmentação
A próxima década poderá trazer novas mudanças estruturais para a UE. A guerra na Ucrânia reacendeu o debate sobre o seu alargamento a novos países, incluindo Ucrânia e Moldávia. Em 2022, o Conselho Europeu concedeu à Ucrânia o estatuto de país candidato à adesão, um passo considerado histórico no contexto do conflito.
Vários estudos internacionais apontam no futuro para uma reorganização da economia global em torno de blocos regionais. No Strategic Foresight Report, a Comissão Europeia alerta que a UE terá de reforçar a sua resiliência económica e estratégica num panorama global marcado por uma crescente competição geopolítica e fragmentação das cadeias globais. Análises do McKinsey Global Institute sugerem que as cadeias de comércio e produção poderão reorganizar-se em alianças económicas e políticas mais próximas.
A evolução do contexto internacional tem reforçado a discussão sobre o papel geopolítico da Europa. Na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro último,líderes europeus defenderam o reforço da cooperação em defesa e maior capacidade estratégica da UE, sublinhando a necessidade de a Europa assumir mais responsabilidades num cenário internacional cada vez mais instável.
Mais do que uma transformação abrupta, o desafio na próxima década poderá passar por adaptar o projeto europeu a um panorama internacional cada vez mais competitivo e incerto.

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