Lobby norte-americano pró-Israel perde terreno junto dos democratas
Um número cada vez maior de candidatos democratas está a assumir uma clara oposição ao Comité de Assuntos Públicos Americano-Israelitas (AIPAC) – onde se concentra o poderoso lobby pró-israelita, que tem uma inusitada capacidade de influência nos dois partidos norte-americanos. Nem sempre esta influência esteve a níveis máximos, mas nunca deixou de prevalecer tanto entre democratas como entre republicanos, transformando a AIPAC num dos mais sérios lobistas junto do poder federal e um dos poucos que, emanando da área política, consegue este ‘pleno’.
Esta alteração reflete as divisões que se vão consolidando em relação à política dos Estados Unidos para com Israel, numa altura em que muitos democratas parecem chegar à conclusão que a administração liderada por Donald Trump já caiu por duas vezes numa ‘armadilha’ lançada a partir de Israel: a intervenção dos EUA no Irão no verão passado e em fevereiro deste ano não foi decidida em Washington, mas Telavive. De facto, de ambas as vezes, o exército dos Estados Unidos limitou-se a seguir um movimento anti-Irão iniciado por Israel. Perante a evidência de que dificilmente alguém consegue provar que a guerra contra o Irão serve os interesses dos Estados Unidos mas unicamente os dos israelitas, a tensão em relação ao AIPAC começa a instalar-se, refere uma reportagem da agência Reuters.
A guerras em Gaza e a dupla intervenção no Irão aprofundam as tensões internas do partido democratas antes das eleições de meio do mandato, em novembro próximo, com o grupo que se agasta do lobby israelita a fortalecer-se – e, de algum modo, a responder à reação negativa que a guerra com o Irão provocou junto de um número cada vez maior de norte-americanos.
Fundada na década de 1950, recorda a Reuters, a AIPAC tem sido uma das organizações de lobby de política externa mais influentes em Washington, contribuindo com milhões de dólares para candidatos de ambos os partidos com o intuito, sempre bem-sucedido, de promover uma forte relação entre os dois países e defendendo toda a ajuda militar a Israel, sanções contra o Irão e legislação norte-americana favorável à segurança do Estado hebraico.
Neste momento, continua a reportagem, dois grupos anti-AIPAC apoiaram mais de 100 candidatos democratas: o Track AIPAC, uma organização que monitoriza os gastos políticos do AIPAC, e o Justice Democrats, um comité de ação política progressista. Os candidatos apoiados por estas duas organizações prometem rejeitar doações de grupos pró-Israel, incluindo o AIPAC, e opor à ajuda militar dos Estados Unidos a Israel.
“Há muito dinheiro do AIPAC que agora irá para candidatos republicanos como resultado disto”, disse Frank Lowenstein, ex-enviado especial para negociações israelo-palestinianas no governo do presidente democrata Barack Obama. Mas Lowenstein está ligado ao J Street, um grupo de lobby pró-Israel mas rival do AIPAC e crítico do atual governo israelita liderado por Benjamin Netanyahu.
Dos 102 candidatos apoiados pelos grupos anti-AIPAC, 73 desafiaram ou estão a desafiar membros democratas do Congresso que receberam apoio do AIPAC e de outros grupos de lobby pró-Israel, de acordo com a Reuters. Recorde-se que as candidaturas ao Congresso são antecedidas de primárias para ser apurado quem será o candidato que se apresenta ao eleitorado em geral.
A porta-voz do AIPAC, Deryn Sousa, disse que a organização tem “orgulho de ajudar o corrente principal do Partido Democrata, contribuindo para manter candidatos de extrema-esquerda e anti-Israel fora do Congresso”. “O AIPAC e nossos milhões de membros democratas estarão ativos durante este ciclo eleitoral e nos ciclos futuros para ajudar a eleger candidatos que apoiem uma forte parceria entre os EUA e Israel”, disse.
A porta-voz afirmou que a responsabilidade pelas tensões internas do Partido Democrata não recai sobre o AIPAC, mas sim sobre “pessoas que tentam expulsar milhões de democratas pró-Israel do partido”.
Progressistas e democratas moderados estão divididos, refere ainda a Reuters, sobre até que ponto os Estados Unidos devem ir no apoio à segurança de Israel. Aproximadamente 80% dos eleitores democratas e independentes com tendência democrata têm uma visão desfavorável de Israel, de acordo com uma sondagem de março do centro de pesquisas (apartidário) Pew Research Center. Mas o impacto eleitoral desta deriva em torno do AIPAC permanece incerto.
Segundo valores apresentados na reportagem, o AIPAC e seus apoiantes doaram quase 25 milhões de dólares a candidatos democratas ao Congresso antes das eleições de 2024 e mais de 16 milhões a republicanos (que ideologicamente estão mais próximos de Israel, não tendo de ser financeiramente ‘convencidos’), de acordo com uma análise dos registos financeiros da Comissão Eleitoral Federal feita pela OpenSecrets, um grupo apartidário que monitoriza a passagem dos dólares pela política.
Mas o bombardeamento israelita à Faixa de Gaza alterou a política democrata, desencadeando uma reação negativa principalmente entre os eleitores mais jovens e intensificando a divisão geracional dentro do partido. Embora não haja um número definitivo de candidatos democratas que incluíram a oposição ao AIPAC nas suas campanhas para a eleição de 2024, o Track AIPAC afirma que o número de candidatos que está a demonstrar reserva 7face ao grupo de lobby é oito vezes maior que há dois anos.
Citada pela reportagem, Kiersten Pels, porta-voz do Comité Nacional Republicano, acusou os democratas de permitirem que “uma perigosa vertente de extremismo pró-terrorista e anti-americano se enraíze no partido, o que afastará os eleitores indecisos nas eleições de novembro”.
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