Paulo Dalla Nora: “Há um conservadorismo na elite portuguesa que atrapalha bastante o país”
O Cícero, restaurante com nome de pintor, tem uma nova morada: o Chiado. Mudou-se no final do ano passado depois de um par de anos em Campo de Ourique. Esta foi uma das razões para nos sentarmos com o empresário, Paulo Dalla Nora Macedo. No novo Cícero, precisamente. Quando cheguei, Dalla Nora Macedo circulava de mesa em mesa a conversar com os comensais. Percebi que apresentava o novo espaço fazendo referência às paredes repletas de quadros. Já sentados frente a frente, numa mesa recatada, a conversa começa pela mudança do local do restaurante. “Abri em 2021 em Campo de Ourique como bistrô e com um perfil mais casual, mas sempre quis vir para esta zona da cidade e ter uma oferta de alta cozinha”. Contudo, não foi o ambiente mais casual de Campo de Ourique o impediu de receber, quase inesperadamente, o presidente brasileiro, Lula da Silva, em novembro de 2022. Um episódio que Dalla Nora Macedo gosta de recordar. “Ligaram-me porque o presidente Lula precisava de almoçar num sítio calmo e discreto, para ter uma conversa tranquila. Então, fechei o Cícero para o receber e quando chegou convidou-me para sentar na sua mesa, onde também estavam o ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Gilmar Mendes e Luís Faro Ramos, que foi embaixador de Portugal no Brasil. E ficámos a conversar mais de três horas.”
Ainda sobre o restaurante, e enquanto chegam à mesa as boas-vindas do chef – um pastel de nata salgado e uma mini sandwich com creme de mortadela – Dalla Nora não perde tempo e conta a história do pintor Cícero Dias, que inspirou o nome do seu restaurante. Nascido em 1907, em Pernambuco, Cícero é considerado um dos maiores pintores brasileiros de arte moderna. Viveu em Lisboa, nos anos 1940, onde foi adido cultural, mas a maior parte da sua vida foi passada em Paris, onde privou com Georges Braque, Matisse e Picasso. Morreu em 2003 na capital francesa. É esse percurso do pintor, entre Brasil e Paris, que influencia os pratos que vão chegando à mesa. É aqui que o nosso interlocutor introduz a história da chef do Cícero, a brasileira Alessandra Montagne, que fugiu de um casamento violento, atravessou o Atlântico com o filho e se instalou em Paris. Foi na capital francesa que aprendeu a cozinhar. Hoje, colabora com o prestigiado chef monegasco Alain Ducasse e, ao mesmo tempo, cria os menus do Cícero no Chiado, partilha o empresário com o JE.
Dalla Nora Macedo, 50 anos, tal como Cícero Dias e Lula da Silva, nasceu no estado de Pernambuco, onde se formou em Economia. Depois de passar uns tempos em São Francisco rumou a França para fazer um MBA no Insead. Seguiu-se a Suíça, onde trabalhou em private equity e, mais tarde, o Reino Unido, onde montou roadshows para a privatização de infraestuturas do governo do Brasil. Antes de vir para Portugal, com a mulher e os dois filhos, trabalhou dez anos na banca, em São Paulo. A razão da mudança para Lisboa merece ser esmiuçada um pouco mais à frente. Antes, pergunto pela aposta num negócio de alta cozinha, quando muitos restaurantes do segmento estão a passar por dificuldades. Dalla Nora Macedo refuta, diz que seria mais difícil abrir um restaurante com 150 lugares e outro posicionamento. “Não tenho chance de competir nesse mercado, tenho mais hipóteses de sobreviver oferecendo um pacote único de estar em Lisboa e juntar a arte e cultura brasileira com o toque da cozinha francesa.”
Mas o Cícero é mais do que comida e arte. Desde os tempos de Campo de Ourique que é um local de palestras e tertúlias sobre cultura e política, sempre com um pé no Brasil. Também aqui houve mudanças recentes. Dalla Nora Macedo decidiu promover os debates e criar a plataforma Lisboa Connection. Já com esse nome organizou uma conferência em Paris, aquando da visita de Lula de Silva a França, com a participação do ex-primeiro-ministro Durão Barroso e o embaixador brasileiro em Paris, Ricardo Neiva Tavares, para debater o acordo do Mercosul. “O Lisboa Conection está a ganhar o seu próprio espaço, não como clube de empresários, mas como espaço de encontros e troca de ideias.” Mas há mais. Recentemente, passou a ter um espaço de entrevistas num canal do Youtube de um jornalista brasileiro. “Guilherme Amado é um amigo jornalista importante que montou um canal e convidou-me para falar da conexão entre o Brasil e a Europa. Acredito que o Brasil vai entrar pelo mundo e o mundo vai entrar pelo Brasil via Lisboa”. E é no novo restaurante do Chiado que grava os programas, por onde já passaram nomes como Carminho e Ricardo Araújo Pereira, entre outros.
Os pratos principais chegam à mesa, apresentados com rigor pela empregada de mesa, também brasileira. Lombo de novilho com creme de trufas e mini cenoura selvagem e uma corvina grelhada com espargos para o anfitrião.
A relação com Lula da Silva
Antes da primeira garfada, pergunto como tem crescido a ligação a Lula da Silva, desde o encontro no almoço em Campo de Ourique. “A minha relação com o Brasil aumentou muito desde a criação do Lisboa Connection, o que me tem dado a oportunidade de estar envolvido em eventos com o presidente Lula, como aconteceu agora recentemente em Espanha e Alemanha, onde esteve com empresários e ministros do Brasil”. Mas a ligação ao presidente brasileiro, de quem fala com admiração, surge, também, por ligações pessoais e pela sua amizade com Aloizio Mercadante, o atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento – o banco de fomento do Brasil –, que é muito próximo de Lula e foi o seu número dois na eleição presidencial de 1994. “Sou amigo do seu filho há muitos anos e frequentava a sua casa. O Aloizo Mercadante é um homem de esquerda, sofisticado intelectualmente. Sempre gostei de falar com ele, mesmo quando eu votava no extinto PSDB, o partido de Fernando Henrique Cardoso.”
As influências políticas
Antes de explicar a razão que o fez vir para Lisboa, partilha aquela que foi uma das suas principais influências culturais e políticas: Jarbas Vasconcelos. O político brasileiro, fundador do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) nos anos 1980, foi prefeito de Recife, governador de Pernambuco, deputado federal e Senador. “É um pouco como o Mário Soares, larger than life”. E revisita as tertúlias de sábado em casa de Vasconcelos que o marcaram até hoje. “Ele foi colega do meu pai nos tempos da universidade e costumava convocar uma roda de conversas em sua casa. Lembro-me de que todos os sábados, das 11 da manhã às 7 da tarde, havia música, ele cozinhava e participavam vários políticos e muitos artistas”, recorda. “Ia muitas vezes com o meu pai e todo aquele ambiente estimulou-me muito intelectualmente”, fez questão de sublinhar. Mais tarde, o pai de Dalla Nora presidiu à plataforma Instituto Debate, que serviu para lançar a candidatura do próprio Jarbas Vasconcelos à prefeitura de Recife.
A chegada da ‘sobremesa Cícero’ interrompe a conversa por breves instantes. Creme de chocolate com praline de avelã, inspirado nas cores de um quadro que está na parede do restaurante, comprado há 20 anos precisamente a Jarbas Vasconcelos. “Esta é a sobremesa que não sai da ementa.” Dalla Nora retoma a conversa explicando que toda essa vivência de conversas e debates levou-o a participar, quando vivia em São Paulo, num grupo chamado Política Viva, onde se discutia política e se organizavam debates independentemente de posições mais à esquerda ou direita. “Em 2016, começámos a perceber que as ideias populistas estavam a chegar ao Brasil”. Nas eleições presidenciais de 2018, o mesmo grupo atuou na oposição a Jair Bolsonaro apoiando o candidato Fernando Haddad. O resultado eleitoral é conhecido, Haddad perdeu e Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto, em Brasília. A partir daí, a vida de Dalla Nora Macedo mudou. “Tinha escrito artigos na revista ‘Exame’ do Brasil e no jornal de Pernambuco contra o Bolsonaro, e fiquei muito marcado. Quando ele começou a governar, comecei a sentir um ‘chega pr’a lá’, quer nos negócios quer nas relações pessoais. E depois, quando veio a pandemia, as coisas ainda pioraram. O Brasil foi muito mal administrado nessa altura e como tenho uma filha que precisa de cadeira de rodas para se deslocar, e que tem muitas dificuldades respiratórias, foi uma época muito complicada”, explica. “A dada altura comecei a ficar com medo naquilo que o Brasil se estava a tornar e numa possível reeleição de Bolsonaro. Começaram a existir discriminações que vocês em Portugal nem imaginam”, exclama. Em dezembro de 2021, assim que se vacinou contra a covid-19, decidiu vir para Portugal. Mais concretamente para Lisboa, onde já vivia a sua irmã e onde o pai tinha um apartamento há décadas. Foi a opção mais rápida para deixar o Brasil. “Percebi que havia espaço para construir uma ponte entre o Brasil e o resto da Europa, através de Portugal”. É já com essa intenção que abre o Cícero.
O negativo e positivo de Portugal
Pergunto o que mais lhe agrada no país de acolhimento. Dalla Nora Macedo sublinha a coesão social em Portugal. “Há um senso de país, de coesão social e é isso que impede a violência. Mesmo a rixa entre norte e sul é insignificante aqui, e isso surpreendeu-me pela positiva.” E o que o surpreendeu pela negativa? Dalla Nora é rápido a responder. “Há um conservadorismo na elite portuguesa que atrapalha bastante o país. O Brasil também tem uma elite muito conservadora, mas tem uma mobilidade que oxigena mais do que aqui. Participei em alguns grupos de ideias em Lisboa e fiquei surpreendido com o grande conservadorismo. Há um medo da inovação e cada um tem o seu negócio. Ninguém se junta para nada.”
A finalizar as mais de duas horas de conversa, com os cafés já na mesa, ainda há tempo para perguntar sobre o futuro do Brasil, a pensar nas eleições presidenciais em outubro. Dalla Nora Macedo acredita na reeleição de Lula num embate difícil contra Flávio Bolsonaro (filho do ex-presidente Jair Bolsonaro). “O Flávio Bolsonaro é fraco nos debates, não tem muito estofo e tem fragilidades que ainda não apareceram, mas vai ser difícil”. Esperançoso, como é a génese brasileira, acredita que o pico do extremismo “já está a bater no teto”. Mesmo a terminar, e já nas despedidas, dispara – como quem escapou ao destino, a um fado. “Se Bolsonaro tivesse ganho um segundo mandato, ao mesmo tempo que Trump no poder, o Brasil seria hoje uma colónia dos EUA.”
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