WRC, Rali de Portugal: Carlos Barbosa explica “caso do Reboque”
Na 6ª feira em Arganil 2, Elfyn Evans deparou-se com um reboque na zona do Voo Livre do troço, antes dos saltos, o que surpreendeu o piloto, porque era o primeiro na estrada e todos os carros zero são amplamente controlados pela organização, pelo que seria pouco ou nada provável que Evans chegasse à traseira de um carro zero. Não era, era um reboque.
Considerando o funcionamento do Mundial de Ralis em geral e do Rali de Portugal em particular, a autorização para um reboque entrar no percurso seria absolutamente impensável. Seria ainda mais inadmissível que acontecesse entre os carros zero e o primeiro concorrente. A única exceção seria um acidente, e mesmo assim, a especial seria interrompida com bandeira vermelha antes de qualquer veículo aceder à pista. A situação seria ainda mais flagrante e inaceitável se ocorresse quase no fim da especial, quando Elfyn Evans já estava em prova há vários minutos.
Portanto, algo de muito estranho tinha acontecido, e ficando a conhecer a explicação, mais facilmente se entende tudo o que sucedeu.
Em declarações à RTP Play, Carlos Barbosa presidente do ACP explicou um pouco do que se passou no muito falado “caso do reboque” que invadiu o troço da PEC7 do Rali de Portugal: “O carro 76, que estava fora do troço, pediu à organização para irem lá buscar o carro. Enviaram o reboque para tirar o carro que já estava fora do troço.
O tipo do reboque deve ter posto o GPS, ou deve ter posto uma coisa qualquer e entrou.
Entrou e não devia ter entrado. A GNR não devia ter permitido que ele entrasse, sobretudo porque há três bloqueios de GNR. Não percebo como é que ele passa do primeiro, como é que ele passa do segundo e como é que ele passa do terceiro.”
“Isso está a ser investigado pela GNR e, portanto, eu não vou culpar a GNR, nem desculpar a GNR, porque neste momento não sei.”
“O homem entra em pânico quando percebe que tem o Evans atrás, sai para a direita, sai do reboque e cai redondo no chão, desmaiado. Entretanto, consegue comunicar com o chefe dele e o chefe, não se percebe porquê, num ato de loucura, liga os pirilampos num Mercedes que ele tinha ali e entra no troço também.”
“O outro carro que entra também está ligado à questão e à história do reboque. Da mesma empresa, tudo igual. E, portanto, nós não sabemos quem é que os deixou entrar e como é que eles forçaram.
A GNR diz que eles forçaram, que nem pararam. Não faço a mínima ideia. Estamos a averiguar, estamos a ver os filmes, estamos a ver tudo isso. Agora, não pode acontecer.”
Consequências para o Rally de Portugal
“Penso que não, porque a organização do Rally de Portugal é exemplar. É um exemplo para todos os ralis do Campeonato do Mundo. Das duas uma, ou a GNR era muito ‘maçarico’ e deixou passar, ou o motorista enganou o GNR a dizer: ‘eu tenho autorização para lá ir buscar o carro dentro’, e o GNR, confiante que ele tinha uns autocolantes colados, deixou-o ir. Mas não pode ser. Não faz sentido que isto tenha acontecido.
E vamos ver quais são as consequências, mas eu acho que vão ser consequências pecuniárias, como já houve em tempos, que tiveram uma pena suspensa de 15.000 € ao organizador. Pode ser isso.”
Conversas com a FIA
“Os homens da FIA, já falei com eles, mas é evidente que eles tinham que investigar. Já investigaram, eles estiveram de manhã com toda a gente. Não conseguiram falar com os motoristas, porque nós imediatamente a seguir a esta cena dispensamos o operador dos reboques, porque não podíamos ter pessoas daquelas no rali. E, portanto, hoje também não conseguiram falar com os dois motoristas, quer com o do reboque, quer com o dos pirilampos. Eles querem ouvir essas pessoas, já lhes demos os telefones, já demos tudo isso.”
“O homem do reboque está em casa em estado de choque, chora o tempo todo, porque diz que vai ser despedido.
E coitado, se calhar não teve culpa, se calhar mandaram-no por ali, e ele não sabia. Não sei. Acho que foi uma cena infeliz.”
” O Rally de Portugal é tão, mas tão exemplar no que diz respeito à segurança, que isto é um episódio que não vai, obviamente, prejudicar, no sentido de que não podia ter acontecido. E eu isso sou o primeiro a dizer e a dizer a toda a gente que isto não pode acontecer num rali, sobretudo num rali do Campeonato do Mundo. Até porque já fui presidente da comissão do Campeonato do Mundo e, portanto, isto não pode acontecer, mas infelizmente aconteceu.”
“Aconteceu e, portanto, só posso é pedir desculpa por ter acontecido, como presidente da comissão organizadora, e pedir desculpa aos portugueses que estiveram ali. Agora, claro, as redes sociais, olha, insultos do costume e para o ano e não sei que mais, e Barbosa isto e Barbosa aquilo.”
Desta forma, percebe-se melhor que o sucedido só poderia ter tido origem em algo muito inusitado e como se percebe pela história contada por Carlos Barbosa, todo o caso é mesmo um “case study” do que não pode acontecer…
São precisos dois para dançar o tango
Neste caso, se calhar, mais do que isso! Não temos dúvidas nenhumas que uma autorização de um reboque entrar no troço nunca seria dada nestas circunstâncias pela Direção de Prova.
Como se sabe, não é preciso recuar muito na história do WRC para nos lembrarmos de um incidente parecido.
No Rali do Japão de 2023, Thierry Neuville, deparou-se com um carro zero parado no troço – o que não pode fazer – e o ‘tracking’ da prova mostrava que o carro zero estava parado e nunca o troço devia ter sido iniciado nessas condições.
Só que neste caso do Rali de Portugal o incidente não foi com um carro equipado com ‘tracking’, mas sim com um reboque, que só tem autorização de entrar na especial em condições muito específicas. E foi aqui que tudo desmoronou, e houve pelo menos dois para “dançar o tango”, se calhar até mais…
Agora já se sabe mais, mas a investigação vai determinar o que sucedeu em detalhe, é óbvio que qualquer acesso ao troço estava vedado, e se este era um reboque ‘subcontratado’, estaria certamente num local com polícia, porque este tipo de reboques estão designados no Plano de Segurança da prova, bem como uma frota específica de veículos como por exemplo os Veículos de Intervenção Médica e Resgate, não sabemos se é o caso em Portugal mas também FIV (Fast Intervention Vehicle): Veículos ligeiros e rápidos equipados com material de primeiros socorros e, muitas vezes, com equipamento de desencarceramento ligeiro.
Veículos de Comissários (Marshals), embora muitos estejam a pé, há veículos de apoio para transportar os comissários que gerem as zonas de público.
Unidades de Prevenção de Incêndios, claro, e além dos bombeiros pesados, existem carrinhas 4×4 mais ágeis com sistemas de extinção rápida.
E por fim, claro, os T-Cars (Tow/Recovery Trucks), os últimos em termos de urgência. Estão lá para retirar carros imobilizados, sempre depois do troço terminar ou eventualmente se ficou a bloquear a estrada e o troço foi neutralizado/cancelado.
E ainda há o Carro Vassoura, que passa após o último concorrente para sinalizar que a competição terminou e que o troço pode ser “aberto” ou que a logística de ‘limpeza’ pode começar.
Portanto, dá para ter uma ideia de como um reboque nunca poderia ali estar no momento em que o incidente aconteceu.
Agora, embora já saibamos mais, resta esperar pela comunicação final dos resultados da investigação.
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