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Portugal precisa de mais campeões industriais

Portugal precisa de mais campeões industriais

Portugal fala hoje de startups com uma naturalidade que seria quase impensável há quinze anos. O ecossistema amadureceu, surgiram fundos, incubadoras, aceleradores, eventos internacionais, hubs tecnológicos e uma nova geração de empreendedores que passou a olhar para o mundo sem o complexo histórico de periferia económica que durante décadas limitou a ambição do país. Lisboa, Porto, Braga e outras cidades tornaram-se palco recorrente de conferências globais e sede para muitas startups de base tecnológica, o talento português ganhou reputação internacional e a palavra inovação entrou finalmente no vocabulário estratégico das empresas, das universidades e até da política pública.
Tudo isso tem muito valor. Porém, o problema surge quando se tende a confundir vitalidade empreendedora com transformação estrutural da economia. Porque a história económica não é apenas escrita por startups. É escrita também por organizações capazes de acumular conhecimento durante décadas, desenvolver capacidade tecnológica profunda, controlar partes relevantes de cadeias de valor globais, investir de forma persistente em inovação, criar emprego altamente qualificado em escala e sustentar posições competitivas durante gerações. É escrita por empresas que conseguem transformar ambição em capacidade industrial.
A palavra “industrial” perdeu glamour nas últimas décadas. Temos de assumir isso. Ficou associada a uma ideia envelhecida de economia pesada, distante da sofisticação digital que passou a dominar o imaginário contemporâneo. No entanto, as grandes disputas económicas e geopolíticas do presente estão precisamente a recentrar-se na capacidade industrial. Semicondutores, inteligência artificial, baterias, energia, cloud infrastructure, defesa, materiais avançados, space economy, robótica, mobilidade elétrica, infraestruturas críticas ou transição climática representam hoje batalhas profundamente industriais, mesmo quando são frequentemente apresentadas como fenómenos puramente tecnológicos.
A economia digital não substituiu a economia física. Tornou-a ainda mais estratégica. Os Estados Unidos perceberam isso. A China percebeu isso. A Índia percebeu isso. Mesmo a Europa, durante anos excessivamente confortável na ideia de que poderia prosperar sobretudo através de serviços, regulação e sofisticação financeira, começou finalmente a regressar ao tema da soberania industrial.
Portugal continua demasiado preso a uma visão económica fragmentada, excessivamente dependente de pequenas empresas, serviços de baixo valor acrescentado e uma certa celebração da leveza empresarial. Construir empresas globais capazes de competir tecnologicamente, operar infraestruturas críticas, exportar conhecimento complexo e liderar setores inteiros exige um grau de ambição muito mais intenso. Exige capital paciente. Exige visão de longo prazo. Exige uma relação muito mais madura entre universidades, empresas e Estado. Exige políticas públicas inteligentes. Exige infraestruturas competitivas. Exige capacidade de engenharia. Exige talento técnico. Exige uma cultura empresarial preparada para pensar em décadas e não apenas no próximo ciclo de investimento.
Exige também uma transformação simbólica importante: voltar a admirar empresas que constroem coisas difíceis.
Durante anos, a Europa romantizou excessivamente os modelos asset-light, as plataformas digitais, a intermediação tecnológica e a ideia de crescimento sem densidade industrial. Entretanto, outras geografias reforçaram agressivamente a sua capacidade produtiva, tecnológica e infraestrutural. Hoje, o mundo entra lentamente numa nova era de competição económica onde energia, dados, capacidade industrial, infraestruturas, minerais críticos e tecnologia passam novamente a definir poder económico e influência geopolítica.
Portugal não precisa de escolher entre startups e indústria. Precisa de construir uma economia onde as startups alimentem a renovação industrial e onde as grandes empresas tenham ambição suficiente para transformar inovação em capacidade global. Temos exemplos encorajadores. Empresas portuguesas que conseguiram competir em setores altamente sofisticados, reinventar-se tecnologicamente e construir posições internacionais relevantes. O problema nunca esteve na ausência de talento. O problema esteve frequentemente na escala da nossa ambição coletiva.
Porque países pequenos raramente vencem pela dimensão. Vencem quando conseguem tornar-se extraordinariamente relevantes em algumas áreas críticas. E isso exige visão industrial.

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