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IA, fragmentação e inflação vão ditar 2026: os sustos do mercado são pontos de entrada, diz JP Morgan

IA, fragmentação e inflação vão ditar 2026: os sustos do mercado são pontos de entrada, diz JP Morgan

O JP Morgan Private Bank publicou o 2026 Mid-Year Outlook sob um título que resume bem o clima: Promise and Pressure. O relatório que é assinado por David Frame, CEO, Global Private Bank, não tenta adivinhar o próximo susto do mercado. Tenta mapear como navegar entre e o susto e o diagnóstico e que três forças continuam a ditar o ritmo dos portfólios em 2026, inteligência artificial, fragmentação geopolítica e inflação.
Numa frase o JP Morgan defende que 2026 não é ano para apostar no calendário de choques. É ano para construir carteiras que aguentem o embate, e que saibam aproveitar quando o choque derruba preços. Isto é, já não dá para prever quando vai cair o próximo míssil no Médio Oriente, quando o crude dispara, ou quando um banco central surpreende. Tentar adivinhar a data do susto é um jogo perdido. O próprio relatório diz: “Shocks and dislocations create entry points for patient investors”.
No que toca à fragmentação, o JP Morgan diz que “o novo normal é o choque”. Conflitos no Médio Oriente e na Europa de Leste já deixaram marcas. O banco lembra que o crude quase duplicou de preço e depois reverteu desde o início do ano. Bolsas caíram cerca de 10%, com os emergentes a sofrerem ainda mais volatilidade. Mesmo com uma eventual resolução, os danos às infraestruturas energéticas e o prémio de risco nas commodities vão continuar a criar “atrito económico”.
A leitura do JP Morgan é pragmática: para o investidor de longo prazo, esses momentos de stress são janelas para adicionar exposição a ações. A tese é que choques e deslocalizações criam pontos de entrada para quem tem paciência.
Inflação: a ameaça que não desaparece
O documento dedica uma secção inteira à inflação como “ameaça persistente ao poder de compra”. Os mercados de juros futuros já estão a precificar novos ciclos de subida em alguns bancos centrais, sinal de que a batalha contra os preços está longe de terminar.
“Prepare-se para uma inflação mais persistente. Os choques energéticos são a mais recente força a desencadear uma inflação mais elevada e volátil. Planeie com intenção e procure diversificar para além das ações e obrigações tradicionais com ativos reais e estratégias selecionadas de fundos de cobertura”, defende o JP Morgan.
O choque nos preços da energia em março, associado ao conflito no Médio Oriente, apenas agravou a mudança estrutural contínua da inflação. Ao longo da década de 2020, a inflação passou a representar um risco cada vez maior — em comparação com o período pré-Covid-19 — para os investidores que procuram construir e manter o poder de compra e alcançar os seus objetivos de longo prazo, salienta o private banking do JP Morgan.
“Os preços ao consumidor nos EUA subiram mais de 25% de forma acumulada desde o início da década, enquanto o rendimento fixo core apenas conseguiu um retorno de 6%. Ainda assim, os nossos clientes mantêm quase 20% dos seus ativos sob supervisão em caixa e títulos com vencimento inferior a um ano”, refere o banco.
“A inflação nos EUA já rondava os 3% mesmo antes do choque nos preços da energia, e a diferença entre os rendimentos do caixa e a taxa de inflação continua a diminuir. Esta erosão deverá provavelmente agravar-se à medida que o mais recente choque na oferta de energia se propaga pela economia”, acrescenta.
De forma preocupante, este choque é apenas o mais recente de uma série de eventos “pontuais” que têm pressionado os preços em alta.
“Somos obrigados a colocar uma questão crítica: o seu plano de investimento de longo prazo está bem preparado para um mundo com inflação mais elevada e mais volátil? E os ativos dentro desse plano são frágeis ou resilientes perante esses riscos?”, questiona o banco norte-americano.
“A nossa visão de que a inflação será mais volátil do que antes da pandemia, e mais suscetível a choques em alta, leva à expectativa de uma correlação mais elevada entre ações e obrigações — e reforça fortemente a preferência por ativos que possam oferecer um perfil de volatilidade mais baixo do que as ações, mas que também consigam ter um bom desempenho em ambientes mais inflacionistas”, defende o banco que acrescenta que “carteiras alinhadas com um plano baseado em objetivos, que incorporem ativos reais e dependam de estratégias de gestão ativa — como fazem os hedge funds diversificados — serão mais resilientes do que aquelas que não o fazem. Quer a inflação piore, quer se verifique um cenário mais benigno, os investidores devem ter à sua disposição um conjunto amplo de ferramentas”.
IA: o fator que muda as regras
O JP Morgan considera que a adoção recorde da IA ​​está a impulsionar ganhos reais de produtividade. “Considere investir em empresas que beneficiam dos gastos com data centers, explorar mercados privados e evitar software legado vulnerável”, recomenda.
O banco defende que a inteligência artificial poderá, de facto, revelar-se uma força desinflacionista significativa no médio prazo. Mas esse potencial futuro — em que os ganhos de produtividade impulsionados pela IA reduzem a dívida, e o superciclo da IA impulsiona a expansão global e melhora a rentabilidade das empresas — está ausente do discurso atual, que está repleto de contradições.
“Enquanto a procura dos investidores de mercados privados por participações em líderes de IA continua forte, o mercado público tem penalizado as empresas que estão a construir centros de dados, porque os investidores não estão convencidos de que este investimento terá retorno”, salienta o relatório.
“Pensadores influentes alertam para o ‘desemprego tecnológico’ devido à ampla implementação e adoção da IA. Ainda assim, muitas ações de empresas de semicondutores estão a ser negociadas com múltiplos preço/lucro (P/E) que sugerem que o ciclo de investimento em centros de dados poderá já ter atingido o pico”, destaca o JP Morgan.
O banco defende que o setor de software poderá avançar com despedimentos para aumentar a eficiência, mas, historicamente, as transições tecnológicas tendem a criar mais empregos do que aqueles que destroem. “Estas contradições criam oportunidades, especialmente para investidores de longo prazo. Embora o conflito no Médio Oriente tenha sido o foco imediato dos mercados na primeira metade do ano, acreditamos que a IA é o motor de retornos mais duradouro”, refere o relatório.
“As evidências sugerem-nos que a IA aumenta a produtividade, gera receitas e amplia margens de lucro e, mesmo que alguns setores sejam perturbados, poderá ainda assim ser criadora líquida de empregos”, sublinha o JP Morgan.
O que pode correr bem, e o que pode correr mal
O subtítulo do relatório é explícito: What could go wrong, and what could go right? O JP Morgan não entrega previsões fechadas. Prefere enquadrar cenários e identificar onde o mercado pode estar a ler mal o equilíbrio entre risco e oportunidade.
A recomendação prática passa por alinhar o portfólio ao plano, rebalancear nas deslocalizações e manter disciplina para reavaliar quando as condições mudam. Nada de heroísmos. O objetivo é “permanecer investido com intenção”, aconselha o banco.
Como seria de esperar num relatório de um private bank, os disclaimers ocupam várias páginas. O JP Morgan sublinha que as previsões são baseadas em condições de mercado atuais, estão sujeitas a mudança sem aviso e não devem ser vistas como promessas de retorno. A alocação de ativos não garante lucro nem protege contra perdas, e o desempenho passado não é indicador fiável do futuro.
Dados de mercado no documento têm como referência 20 de abril de 2026.
 

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