Quem são os portugueses em situação de sobre-endividamento
Aos 46 anos, com cerca de 19 mil euros em dívida e uma vida profissional ativa — este é, hoje, o retrato mais comum de quem enfrenta situações de sobre-endividamento em Portugal. Longe da ideia de que o problema afeta sobretudo jovens ou casos extremos, os dados mais recentes apontam para uma realidade mais ampla, estrutural e silenciosa.
Segundo uma análise da Bravo, empresa especializada em consultoria financeira e gestão de dívida, baseada em cerca de 9.100 casos no país, o fenómeno atinge maioritariamente pessoas entre os 36 e os 65 anos (72%), sendo residual entre os mais jovens (apenas 2% têm entre 18 e 25 anos). A média de idades fixa-se nos 46 anos, numa fase da vida marcada por responsabilidades familiares, estabilidade profissional aparente — e, muitas vezes, fragilidade financeira latente.
A distribuição por género revela um equilíbrio relativo, ainda que com ligeira predominância feminina: 54% dos casos correspondem a mulheres, face a 46% de homens.
Um problema que não poupa quem trabalha
Ao contrário de narrativas que associam o endividamento excessivo à exclusão social, os dados mostram que o fenómeno atravessa a classe trabalhadora. Mais de 30% dos casos dizem respeito a profissões menos qualificadas, particularmente expostas à volatilidade económica e ao aumento do custo de vida. Seguem-se trabalhadores dos serviços e comércio (21%) e operários e artífices (11%).
Este padrão sugere que o problema não reside apenas no montante da dívida, mas sobretudo na dificuldade crescente em acomodar despesas fixas num contexto económico exigente. Salários estagnados, inflação persistente e encargos com habitação criam uma equação difícil de equilibrar.
Outro dado relevante prende-se com o estado civil: mais de 40% das pessoas em situação de sobre-endividamento são solteiras. A ausência de uma rede de suporte financeiro mais próxima pode agravar o impacto de imprevistos e reduzir a margem de manobra em momentos críticos.
Lisboa no epicentro
Geograficamente, o problema concentra-se nas zonas urbanas, onde o custo de vida exerce maior pressão. A região de Lisboa lidera com 26% dos casos, seguida do Porto (14%) e de Setúbal (10%). Trata-se de territórios onde o peso da habitação, transportes e serviços básicos tem vindo a crescer de forma significativa nos últimos anos.
Este padrão reforça a ideia de que o sobre-endividamento está cada vez mais ligado a fatores estruturais — e não apenas a decisões individuais.
Um caminho longo para a recuperação
Se entrar em incumprimento pode ser rápido, sair dele está longe de o ser. A duração média dos processos de recuperação financeira ronda os 55 meses, ou seja, mais de quatro anos e meio. Um período que exige disciplina, acompanhamento e, muitas vezes, reconfiguração completa do orçamento familiar.
Ainda assim, os dados apontam para uma nota de cautela otimista. Como sublinha Carlos Alvarez, Country Manager da Bravo em Portugal: “O que estes dados demonstram é que a maioria das pessoas em situação de sobre-endividamento não está num ponto sem retorno. Está sim, a tentar gerir responsabilidades financeiras cada vez mais difíceis num contexto económico exigente. Na Bravo, acreditamos que o acesso a aconselhamento especializado e a soluções estruturadas de gestão de dívida pode fazer a diferença entre agravar o problema ou recuperar estabilidade financeira de forma sustentável e realista”
Um fenómeno transversal — e crescente
Mais do que um problema individual, o sobre-endividamento surge cada vez mais como um reflexo das condições económicas atuais. Afeta trabalhadores, famílias monoparentais, pessoas com emprego estável — perfis que, até há poucos anos, estariam fora do radar do risco financeiro.
O retrato traçado por este estudo aponta para uma realidade incómoda: o equilíbrio financeiro da classe média portuguesa está sob pressão, e a linha entre estabilidade e endividamento excessivo pode ser mais ténue do que se imagina.
Share this content:



Publicar comentário