Presidentes não executivos têm cada vez mais funções
O papel do chairman está a ganhar peso nas empresas portuguesas, num contexto em que os conselhos de administração enfrentam desafios mais complexos, evidenciando uma maior exposição ao risco. A revolução tecnológica e a turbulência geopolítica demonstram isso mesmo, assim como a necessidade de se incorporarem outras valências nas organizações.
A crescente necessidade de profissionalizar os processos de nomeação, avaliação e supervisão está também a reforçar a importância de figuras capazes de equilibrar a relação entre acionistas, administradores executivos e não executivos.
“Eu acho que há uma figura aqui que pode ajudar muito, que é a empresa ter um chairman independente”, afirma António Gomes Mota, gestor, professor catedrático e atual presidente do conselho de administração da EDP Renováveis. Foi ele o convidado do episódio de maio do Boa Governança, o videocast do Jornal Económico (JE) e do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG).
“O chairman pode ser a mola indutora para se profissionalizar, nomeadamente, o tema das nomeações”, acrescenta.
António Gomes Mota considera que as empresas portuguesas fizeram um percurso relevante na melhoria das práticas de governação, sobretudo através da consolidação dos processos para o preenchimento de posições na
organização. “Há um peso cada vez maior da chamada comissão de nomeações”, diz. “Há também um recurso cada vez mais frequente às chamadas empresas de executive search para procurarem candidatos de muito boa qualidade”, acrescenta.
Gomes Mota deu como exemplo a experiência da EDP Renováveis, explicando que todos os administradores não executivos independentes da empresa foram selecionados através desse modelo. “Quisemos sempre dotar de total
profissionalismo o processo”, refere.
O debate centrou-se também na crescente complexidade do trabalho dos conselhos de administração, num período marcado pelos avanços rapidíssimos na inteligência artificial, pela cibersegurança e pela instabilidade geopolítica.
António Gomes Mota defende que os conselhos de administração têm de ter a capacidade de adaptar permanentemente as suas competências à evolução do contexto económico e tecnológico.
“Há quatro anos alguém falava de inteligência artificial? Ninguém falava. Hoje em dia está emergente, afetando, direta ou indiretamente, praticamente todas as empresas”, exemplifica.
O gestor sublinha ainda que a diversidade dentro dos conselhos deve responder às necessidades concretas de cada empresa e não transformar-se num exercício formal, que se transforma num fim em si próprio. “Temos de falar
da diversidade relevante”, afirmou, alertando também para o risco de os órgãos de administração ficarem excessivamente dependentes do conhecimento de um único especialista em determinadas áreas.
Não executivos empoderados
Ao longo da conversa, conduzida por Ricardo Santos Ferreira, subdiretor do JE, e por José Costa Pinto, vice presidente do IPCG, foi igualmente discutido o papel crescente dos administradores não executivos, que são chamados a cumprir mais tarefas.
António Gomes Mota considera que os administradores não executivos enfrentam hoje um equilíbrio mais exigente entre supervisão, estratégia e aconselhamento, funções que podem atropelar-se ou perturbar a relação com o
poder executivo.
“É-lhes pedido uma função de supervisão da gestão executiva. É-lhes pedido também uma função de challenge, de desafio da gestão executiva. E ainda também lhes é pedido uma função de aconselhamento”, afirma.
Na rubrica “Recordar é Aprender”, o programa analisou o caso “HP Pretexting”, envolvendo a HP, que recorreu a investigadores privados para identificar fugas de informação do conselho de administração. José Costa Pinto considerou que o caso demonstrou como a quebra de confiança entre administradores pode transformar o próprio órgão “num risco institucional para a empresa”.
Já na rubrica “Comply or Explain”, a conversa centrou-se no caso do Banca Monte dei Paschi di Siena e nas tensões em torno da sucessão do CEO, discutindo-se a legitimidade dos conselhos de administração nos processos de
escolha das lideranças.
O Boa Governança está disponível no site do Jornal Económico, em jornaleconomico.pt, e em podcast nas principais plataformas.
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