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Mais de metade das empresas portuguesas trava investimento devido à incerteza económica

Mais de metade das empresas portuguesas trava investimento devido à incerteza económica

As empresas portuguesas continuam focadas no crescimento, mas enfrentam um cenário de crescente prudência financeira devido à incerteza económica e aos atrasos nos pagamentos. A conclusão é do European Payment Report 2026 Portugal (EPR), da Intrum, que revela que 58% das empresas nacionais estão a adotar uma postura mais cautelosa em relação ao endividamento e aos planos de investimento — um valor sete pontos percentuais acima da média europeia.
Segundo o European Payment Report 2026 Portugal, realizado pela Intrum, 58% das empresas em Portugal afirmam estar a adotar uma postura mais prudente em relação ao endividamento e aos planos de investimento, um dos valores mais elevados entre os 20 países analisados e sete pontos percentuais acima da média europeia (51%).
Apesar do desempenho positivo da economia portuguesa em 2025, marcado pelo crescimento económico e pela desaceleração da inflação, o contexto internacional continua a pesar nas decisões empresariais. Os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, aliados à pressão sobre a liquidez e aos atrasos nos pagamentos, estão a levar muitas empresas a privilegiar a estabilidade financeira em detrimento da expansão.
“O estudo mostra um tecido empresarial que quer crescer, mas que está a jogar à defesa. As empresas estão mais cautelosas com investimento, financiamento e risco, sobretudo porque continuam expostas a atrasos nos pagamentos que condicionam a tesouraria e limitam a capacidade de crescimento”, afirma Luís Salvaterra, Diretor-Geral da Intrum Portugal.
Ainda assim, as ambições de crescimento mantêm-se elevadas. Segundo o relatório, 62% das empresas portuguesas consideram o crescimento uma prioridade para 2026, o valor mais alto dos últimos cinco anos. Cerca de 40% das empresas afirmam ter superado as previsões de receitas e 39% dizem o mesmo relativamente aos lucros, embora ambos os indicadores revelem uma ligeira quebra face a 2024.
Por outro lado, persistem sinais de preocupação. Em Portugal, 64% das empresas admitem receio perante a incerteza económica, enquanto 54% se mostram apreensivas com a carga fiscal. Além disso, seis em cada dez empresas demonstram inquietação com o custo do financiamento.
O estudo destaca também o aumento das insolvências. Até ao final do primeiro trimestre de 2026 foram registadas 531 insolvências em Portugal, representando uma subida de 3,1% face ao mesmo período do ano anterior, com alguns analistas a anteciparem um agravamento ao longo do ano.
Atrasos nos pagamentos condicionam crescimento
Os pagamentos em atraso continuam a ser um dos principais obstáculos ao crescimento das empresas nacionais. Seis em cada dez executivos (60%) afirmam estar mais preocupados do que nunca com a capacidade de pagamento dos clientes. Mais de metade das empresas (56%) admite que os atrasos já comprometeram os seus objetivos de crescimento, enquanto 55% antecipam um agravamento do risco de incumprimento nos próximos 12 meses.
Os dados mostram ainda diferenças significativas entre os prazos acordados e os prazos efetivos de pagamento. No segmento particular, as empresas concedem em média 22 dias para pagamento, mas recebem apenas ao fim de 32 dias. Entre empresas, os prazos acordados rondam os 44 dias, embora os pagamentos ocorram, em média, apenas após 65 dias. No setor público, o pagamento efetivo chega a demorar 74 dias, apesar dos prazos médios estabelecidos serem de 57 dias.
À medida que os atrasos aumentam, cresce também a intolerância face aos incumpridores. Segundo o EPR 2026, 63% das empresas portuguesas consideram que o incumprimento dos prazos de pagamento resulta sobretudo de falhas de gestão e não de problemas de tesouraria — acima da média europeia de 61%.
Em resposta, muitas organizações estão a reforçar a sua própria disciplina financeira. Cerca de 58% das empresas afirmam ter implementado medidas para evitar atrasos nos pagamentos, o valor mais elevado registado desde 2021 neste estudo.
O relatório alerta ainda para o efeito em cadeia provocado pelos atrasos nos recebimentos. Quando as empresas enfrentam dificuldades em receber dos clientes, acabam frequentemente por atrasar pagamentos a fornecedores, alimentando um ciclo de incumprimento difícil de travar. Em Portugal, 60% das empresas admitem que os atrasos nos recebimentos levaram ao incumprimento dos prazos acordados com fornecedores.
O EPR conclui que muitas empresas portuguesas operam atualmente perto dos seus limites financeiros. Embora reconheçam que algum nível de atraso nos pagamentos é inevitável, o limiar considerado sustentável já foi ultrapassado. As empresas portuguesas indicam que apenas 10,21% das receitas podem ser recebidas fora de prazo sem comprometer a capacidade operacional, mas a média atual situa-se nos 10,27%.
O European Payment Report 2026 baseia-se nas respostas de 8.385 empresas em 20 países europeus, incluindo cerca de mil empresas portuguesas.

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