Três Mil Dólares por Segundo
No tempo que vai demorar a ler esta frase, as seis maiores petrolíferas do mundo ocidental ganharam cerca de três mil dólares. E mais três mil na frase seguinte. E assim, sem pausa, segundo após segundo. É este o ritmo a que o dinheiro do planeta está a ser transferido, neste preciso momento, das mãos de quem não tem para os bolsos de quem já tinha tudo.
A organização Oxfam projecta que a Exxon, a Chevron, a Shell, a BP, a TotalEnergies e a ConocoPhillips lucrem este ano qualquer coisa como noventa e quatro mil milhões de dólares. Trinta e sete milhões por dia a mais do que no ano passado. E o ano passado também já tinha sido bom.
Enquanto estes números crescem, o mundo está a empobrecer. Não é figura de estilo, é o que está a acontecer. A guerra que começou a 28 de Fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, e que fechou o Estreito de Ormuz por onde passava um quinto do petróleo do mundo, não trouxe nada de bom para ninguém.
Trouxe inflação, que come os salários de quem vive de salário. Trouxe escassez de medicamentos, porque as cadeias farmacêuticas dependem de rotas que agora são zonas de risco. Vai trazer escassez de alimentos, porque os fertilizantes precisam de gás e o gás ficou caro e incerto.
Trouxe, em suma, sofrimento distribuído por milhares de milhões de pessoas que não pediram esta guerra, não a votaram, e vão pagá-la na farmácia, no supermercado e na conta da luz durante anos.
E no meio disto tudo, há quem ganhe. Há sempre quem ganhe. É essa a parte que devia revoltar toda a gente.
Quero ser rigorosa, porque a indignação sem rigor é fácil de descartar. Nos primeiros meses da guerra, alguns destes gigantes até registaram lucros trimestrais a descer. A Exxon viu o lucro líquido cair quase metade, a Chevron mais de um terço. Quem ouve só isto pensa que afinal a guerra lhes correu mal. Não correu.
A queda foi de calendário, atrasos nas entregas, fornecimento interrompido, efeitos de tempo. Tire-
se esse ruído contabilístico e a Exxon teria lucrado, num só trimestre, oito mil e oitocentos milhões de dólares. O lucro não desapareceu. Ficou retido, à espera, e vai aparecer nos próximos trimestres, ainda durante a guerra. A máquina não falhou.
Apenas demorou um trimestre a entregar.
E há um número que não devia estar escondido em parágrafo nenhum, devia estar gravado à entrada dos parlamentos.
No primeiro mês da guerra com o Irão, e segundo uma análise da Rystad Energy e do jornal The Guardian, as cem maiores empresas de petróleo e gás do mundo lucraram mais de trinta milhões de dólares por hora.
Por hora. Enquanto o barril subia até cinquenta e sete por cento, enquanto os hospitais racionavam, enquanto as famílias faziam contas à mesa, havia uma indústria a ganhar isto a cada hora que passava. Não por mês, não por semana. E é a mesma indústria que durante décadas soube, e escondeu que sabia, que os seus produtos estavam a aquecer o planeta, e que nos convenceu de que a culpa era do nosso saco de plástico e da nossa palhinha. Ganha a destruir o clima e ganha a beneficiar do caos. É difícil imaginar um modelo de negócio mais perfeito, e mais indecente.
Quem está hoje aos comandos disto tem nome, e chama-se Donald Trump. Foi a sua administração que decidiu o ataque de 28 de Fevereiro, foi a sua recusa em levantar o bloqueio naval que fez o Irão voltar a fechar o Estreito de Ormuz a 18 de Abril, e a História, quando escrever este capítulo, vai escrever o nome dele. Mas Trump é o maquinista, não é a máquina. A máquina existia antes dele e vai continuar depois, se ninguém a desmontar: um sistema económico em que a guerra é rentável, em que a catástrofe climática é rentável, em que a escassez é rentável, em que o sofrimento de muitos se converte, com eficiência fria, no lucro de muito poucos. Trump não inventou esta máquina. Limitou-se a carregar no acelerador com as duas mãos, e a sorrir para as câmaras enquanto o faz.
Onde estamos nós?
Porque a parte mais difícil de aceitar não é que isto aconteça. É que aconteça à frente de toda a gente, todos os dias, noticiado, documentado, contabilizado ao segundo, e que a reacção colectiva seja, na melhor das hipóteses, um encolher de ombros. Vê-se em Gaza, onde há manifestações, há boicotes, há gente de consciência a fazer o que pode, e mesmo assim não chega, a máquina continua. Habituámo-nos. E o hábito é a forma mais perfeita de cumplicidade, porque não exige adesão, exige apenas silêncio.
Eu não acredito em desespero, acho-o uma forma preguiçosa de desistir. Mas a indignação só vale alguma coisa quando se organiza.
Manifestar não chega, mas é mais do que não manifestar. Boicotar não chega, mas faz mossa, e as empresas sabem-no, senão não gastavam tanto dinheiro a melhorar a imagem. Votar não chega, mas é o instrumento que ainda temos para tirar maquinistas dos comandos.
Pressionar governos, exigir que a União Europeia não se limite a comunicados, recusar a passividade como se ela fosse neutralidade, é o mínimo dos mínimos.
Três mil dólares por segundo. Esse é o ritmo deles. Falta saber se conseguimos encontrar um ritmo nosso. Porque o silêncio também tem um preço, e esse, ao contrário do petróleo, somos sempre nós a pagá-lo.
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