Portugueses privilegiam poupança de curto prazo
A longevidade crescente dos portugueses está a expor um paradoxo silencioso: vive-se mais, mas prepara-se pouco esse tempo adicional. Um novo estudo da BPI Vida e Pensões, apresentado esta terça-feira em Lisboa, revela um país consciente dos desafios do futuro — mas ainda longe de agir de forma estruturada para lhes responder.
Intitulado “Pensar o Futuro: como os Portugueses investem no seu futuro em saúde, relações sociais, espaços e ambientes e finanças”, o trabalho traça um retrato claro: há intenção, há preocupação, mas falta execução.
Desde logo, no plano financeiro, os dados são elucidativos. Embora 63,3% dos portugueses afirmem poupar, a maioria fá-lo com um horizonte de curto prazo — essencialmente para fazer face a imprevistos. Apenas uma minoria canaliza essas poupanças para a reforma. Mais revelador ainda: só 22,1% dos inquiridos têm um Plano de Poupança Reforma (PPR).
Este comportamento ganha particular relevância num contexto em que o próprio sistema público de pensões enfrenta pressões crescentes. As projeções apontam para um aumento significativo do peso das pensões no PIB até meados do século, ao mesmo tempo que se antecipa uma realidade cada vez mais comum: a primeira pensão será substancialmente inferior ao último salário, sobretudo em carreiras mais recentes ou com progressões acentuadas.
A contradição é evidente. Por um lado, os portugueses reconhecem a importância de planear o futuro — 67,3% consideram-no útil. Por outro, apenas cerca de metade diz fazê-lo de forma regular. Entre a consciência e a ação persiste um desfasamento que pode ter custos elevados nas próximas décadas.
O estudo identifica três perfis distintos: os “planeadores estruturados” (22,2%), que investem de forma consistente no futuro; os que privilegiam o presente (17,6%); e uma maioria (60,2%) que tenta equilibrar ambas as dimensões. No entanto, mesmo entre estes últimos, a preparação tende a ser difusa e pouco orientada para objetivos de longo prazo.
A limitação financeira surge como o principal obstáculo. Ainda assim, os dados sugerem que mesmo pequenas poupanças podem fazer a diferença ao longo do tempo, graças ao efeito da capitalização. Um exemplo simples: uma poupança mensal de 30 euros, investida durante 40 anos com uma rentabilidade média de 5%, pode atingir cerca de 46 mil euros — mais do dobro do valor acumulado em produtos de baixo risco com retornos próximos de 1%.
Mas o estudo vai além das finanças. Ao analisar quatro dimensões do bem-estar — saúde, relações sociais, espaços de vida e finanças — conclui que os portugueses têm uma visão relativamente desequilibrada do que significa preparar o futuro.
A saúde surge destacada como prioridade absoluta, com uma avaliação média de 8,45 em 10. Mais de metade dos inquiridos já adota comportamentos considerados positivos, como cuidados alimentares e acompanhamento médico regular. Trata-se da dimensão onde existe maior proatividade.
Já as relações sociais, apesar de fundamentais para o bem-estar ao longo da vida, são as menos valorizadas (6,99). Embora a maioria mantenha ligações com amigos, essa prática parece mais espontânea do que planeada, sem uma estratégia consciente de investimento social.
Também os espaços e ambientes onde se vive ficam para segundo plano. Apenas 7,7% dos inquiridos referem ter feito adaptações nas suas casas a pensar em limitações futuras — um indicador claro de uma abordagem reativa, em vez de preventiva.
No fundo, o estudo sugere que os portugueses tendem a encarar o futuro de forma fragmentada. Investem na saúde, reconhecem a importância das finanças, mas negligenciam outras dimensões igualmente determinantes para a qualidade de vida numa sociedade cada vez mais envelhecida.
A esperança média de vida estimada pelos inquiridos — cerca de 84 anos — está alinhada com a realidade. No entanto, antecipam uma deterioração da saúde por volta dos 66 anos, o que prolonga significativamente o período em que dependerão de pensões e poupanças acumuladas.
É precisamente neste intervalo que se joga grande parte da autonomia individual. Como sublinha Isabel Castelo Branco, CEO da BPI Vida e Pensões, “há ações que estão no nosso controlo que nos podem ajudar a preparar esse futuro mais longo com maior qualidade de vida”.
A mensagem central do estudo é clara: viver mais não é, por si só, um ganho. Sem planeamento — financeiro, físico, social e habitacional — os anos adicionais podem traduzir-se em vulnerabilidade, e não em bem-estar.
Pensar o futuro, conclui o relatório, não é apenas uma questão de poupar mais. É, sobretudo, uma questão de pensar melhor — e de forma mais completa — o que significa envelhecer com qualidade.
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