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Microplásticos encontrados em comida para bebés da Nestlé e da Danone, diz Greenpeace

Microplásticos encontrados em comida para bebés da Nestlé e da Danone, diz Greenpeace

Uma investigação recente encomendada pela Greenpeace Internacional veio lançar novas dúvidas sobre a segurança de alimentos destinados a bebés. O relatório, intitulado “Tiny Plastics, Big Problem: The Hidden Risks of Plastic Pouches for Baby Food”, identificou a presença de microplásticos em todas as amostras testadas de comida para bebé vendida em embalagens de plástico, incluindo produtos de duas gigantes do setor alimentar, caso da Nestlé e da Danone, levantando preocupações urgentes sobre a segurança de produtos comercializados para bebés.
Os testes laboratoriais analisaram marcas amplamente comercializadas, concluindo que tanto as embalagens como o próprio conteúdo apresentavam partículas microscópicas de plástico, bem como vestígios de compostos químicos associados a estes materiais.
O relatório detalha os testes laboratoriais realizados a marcas populares de comida para bebé, a Gerber, da Nestlé, e a Happy Baby Organics, da Danone, nos quais foram encontradas partículas de microplásticos em todas as amostras analisadas.
O teste realizado sugere também que uma série de químicos estava presente tanto nas embalagens como nos alimentos. Isto sugere que a própria embalagem de plástico poderá ser a fonte da contaminação, potencialmente expondo os bebés a milhares de fragmentos microscópicos de plástico, em cada embalagem consumida, que são utilizadas em larga escala pela indústria devido à sua conveniência e baixo custo.
Os números são expressivos: por cada grama de alimento analisado, foram encontradas dezenas de partículas de microplásticos. Em termos práticos, isso traduz-se em centenas de fragmentos por colher de chá e milhares por embalagem individual. Para os investigadores, estes dados apontam para uma exposição potencialmente significativa, sobretudo num grupo particularmente vulnerável — os bebés.
“Este estudo é um choque para pais em todo o mundo, que confiam nestas marcas para fornecer alimentos seguros e nutritivos aos seus bebés. Em vez disso, empresas dependentes do plástico, como a Nestlé e a Danone, não conseguem garantir que os seus produtos estejam livres de microplásticos e químicos.”, afirmou em comunicado Graham Forbes, responsável global da campanha de plásticos da Greenpeace EUA
“Hoje, falar da era do plástico vai muito além da poluição visível”, acrescenta Ana Farias Fonseca. Para a Coordenadora de Campanhas de Mobilização da Greenpeace Portugal, “estamos perante uma crise de saúde pública que começa, literalmente, no berço. Este cenário lembra-nos os exemplos das indústrias do tabaco, do amianto e do chumbo, que tentaram desacreditar a ciência para atrasar a ação política. Hoje sabemos melhor do que isso. É urgente aplicar o princípio da precaução: os fabricantes devem demonstrar que as suas embalagens são seguras, e não compete aos pais ou cientistas provar o contrário.
Ainda que os efeitos dos microplásticos na saúde humana continuem a ser alvo de estudo, há crescente preocupação na comunidade científica. A presença de possíveis disruptores endócrinos — substâncias químicas que podem interferir com o sistema hormonal — aumenta o nível de alerta, sobretudo numa fase crítica do desenvolvimento humano.
O crescimento acelerado das embalagens plásticas flexíveis agrava o cenário. As embalagens flexíveis de plástico para espremer tornaram-se rapidamente o formato dominante de embalagem para comida de bebé em todo o mundo, impulsionadas pela conveniência e por estratégias agressivas de marketing. É o formato de embalagem com crescimento mais rápido, com um aumento anual de 8,1% até 2031, representando 37,15% do mercado global em volume em 2025, ultrapassando todas as outras formas de embalagem, incluindo os tradicionais frascos de vidro.
Atualmente, milhões destas embalagens de utilização única são compradas diariamente, o que significa que milhões de bebés podem estar a ingerir microplásticos juntamente com a sua comida. Os bebés podem ser particularmente vulneráveis a este tipo de exposição devido ao rápido desenvolvimento dos seus órgãos e à maior ingestão de alimentos em relação ao seu peso corporal.
Esta tendência faz parte de um aumento mais amplo da produção e utilização de plástico, em grande parte impulsionado pelas grandes empresas de bens de consumo. Só as embalagens representam cerca de 40% da produção global de plástico. Um dos segmentos em crescimento mais rápido é o das embalagens plásticas flexíveis e multicamada, como as bolsas e saquetas de comida para bebé, que são notoriamente difíceis de reciclar e uma importante fonte de poluição em algumas regiões.
A Greenpeace apela à Nestlé, à Danone e a todos os produtores de comida para bebé para que investiguem urgentemente os seus produtos, provem que não estão a colocar crianças pequenas em risco de exposição e se comprometam a eliminar progressivamente as embalagens de plástico, substituindo-as por alternativas reutilizáveis, livres de plástico e não tóxicas.
Face a estes resultados, a Greenpeace defende a aplicação do princípio da precaução: cabe às empresas demonstrar que os seus produtos são seguros, e não aos consumidores provar o contrário. A organização apela também a uma mudança estrutural, com a substituição progressiva das embalagens de plástico por alternativas reutilizáveis e não tóxicas.
No plano político, o tema ganha relevância num momento em que decorrem negociações internacionais para um Tratado Global dos Plásticos, no âmbito das Nações Unidas. “Este é o momento de exigir aos governos que acelerem o passo por um Tratado Global dos Plásticos forte, capaz de reduzir a produção global em pelo menos 75% até 2040 e de obrigar gigantes como a Nestlé e a Danone. a eliminar materiais nocivos em contacto com os alimentos. Mudar este sistema está nas nossas mãos: https://www.greenpeace.pt/como-ajudar/peticoes/plasticos/”
Para já, a investigação reacende um debate que se tem intensificado nos últimos anos: até que ponto o plástico, omnipresente no quotidiano moderno, está a entrar silenciosamente no corpo humano — e com que consequências. No caso dos mais novos, a resposta a essa pergunta poderá ter implicações profundas para a saúde pública futura.
 

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