Os charutos cubanos vão resistir à crise?
Os apagões prolongados em Cuba estão a condicionar o ritmo de uma das indústrias mais emblemáticas do país. Nas fábricas de charutos, os cortes de eletricidade perturbam a rotina dos trabalhadores, dificultam a produção e expõem as fragilidades de uma economia em crise. Agora, enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio petrolífero à ilha, o setor enfrenta o maior desafio até ao momento. Segundo o governo cubano, cerca de 50% dos campos de tabaco em Pinar del Río, a principal província produtora, dependem de sistemas de irrigação eletrificados. A produção industrial também foi afetada. O governo cubano anunciou que não tinha conseguido cumprir a meta definida para a época agrícola de 2025 e 2026, estabelecida em 12.152 hectares. As folhas secas de tabaco são transportadas para Havana, onde são enroladas manualmente em fábricas estatais. Mas a escassez de combustível dificulta o transporte, e a falta de eletricidade para iluminar as fábricas complica a produção.
Ainda assim, nas principais unidades do grupo Habanos (empresa detida em partes iguais pelo Estado Cubano e por investidores internacionais), a produção ainda não colapsou graças aos investimentos em energia fotovoltaica, incentivos salariais e uma rede logística que continua a garantir a chegada dos charutos cubanos ao mercado.
As principais fábricas foram equipadas com sistemas de energia solar na sequência dos furacões que atingiram a ilha nos últimos anos. Entre elas estão unidades históricas como La Corona, Romeo y Julieta, Partagás e El Laguito. “Há uma descentralização da produção por todo o território, mas as principais fábricas estão salvaguardadas”, explica Pedro Rocha, diretor-geral da Empor, importadora oficial de tabaco cubano em Portugal, ao Jornal Económico.
Apesar disso, a crise energética continua a ter impacto no funcionamento diário das fábricas e, sobretudo, na vida dos trabalhadores. “Quando chega a eletricidade querem ir para casa”, refere Pedro Rocha. Para tentar assegurar estabilidade na produção, o grupo Habanos implementou incentivos salariais e distribui diariamente cabazes alimentares aos funcionários. “O maior desafio é garantir a mão de obra e manter as pessoas focadas”, admite.
Os trabalhadores recebem salários acima da média cubana e prémios associados à produtividade. “Um formato robusto, por exemplo, tem uma meta de 100 charutos por dia. Se produzirem mais, recebem mais”, explica. A estratégia procura responder a um contexto económico particularmente difícil, num país onde a escassez de bens essenciais continua a marcar o quotidiano.
Em Portugal, a distribuição é assegurada pela Empor, que abastece mais de 500 pontos de venda, entre lojas especializadas e tabacarias. Os charutos seguem de Cuba por via aérea até Madrid e, depois, entram em armazéns alfandegados em Lisboa para distribuição nacional. É aí que é aplicada uma etapa obrigatória por lei: o Identificador Único (IU), um selo com número de série e QR Code que permite rastrear cada produto.
A disponibilidade dos produtos, contudo, tornou-se mais limitada. “Estamos a dar prioridade às lojas da especialidade. Há stock suficiente para abastecer o mercado português até ao final do ano”, garante Pedro Rocha. “Temos um plano para evitar ruturas e assegurar um nível mínimo de distribuição que responda às necessidades do mercado. Mas, se esta situação se prolongar por um ou dois anos, ninguém conseguirá resistir”, alerta.
Crise energética ameaça produção
Em 2024, as vendas de charutos cubanos atingiram 827 milhões de dólares (711 milhões de euros), o que os torna um dos principais produtos de exportação do país, juntamente com o níquel, os produtos do mar, as vacinas e os serviços médicos. Cuba domina este mercado, sendo responsável por cerca de 70% das exportações mundiais de charutos. Só a Europa representa metade das vendas em valor, à frente da Ásia-Pacífico, das Américas e da África-Médio Oriente.
Esta dependência dos mercados externos é estrutural. Devido ao embargo americano em vigor desde 1962, os charutos cubanos estão excluídos do mercado norte-americano, que é o maior do mundo. Tendo isso em conta, Cuba construiu a sua estratégia comercial em torno da Europa e da Ásia, onde os charutos cubanos gozam de uma imagem de prestígio e de excelência.
Além do peso nas exportações, a indústria do tabaco continua a ser uma das mais relevantes para a economia cubana em termos de emprego e geração de rendimento. O setor mobiliza uma cadeia produtiva extensa, que vai das plantações nas províncias produtoras às fábricas de enrolamento e embalamento de charutos. Em muitos casos, os trabalhadores ligados ao tabaco recebem salários significativamente acima da média nacional, podendo ganhar entre três e cinco vezes mais do que noutras atividades.
No entanto, a crise energética e a escassez de combustível estão a pressionar toda a cadeia de produção. Nas zonas agrícolas, muitos produtores enfrentam dificuldades para irrigar as plantações, operar maquinaria ou transportar as folhas de tabaco até aos centros de processamento devido à falta de gasolina e de gasóleo. O impacto estende-se depois à indústria transformadora e à exportação, num contexto em que os cortes de eletricidade, os problemas logísticos e a quebra da atividade económica afetam o funcionamento do setor.
A própria retração do turismo, tradicionalmente um importante canal de venda de charutos cubanos, contribui para agravar a pressão sobre a indústria, reduzindo uma das principais fontes de consumo direto e de entrada de divisas no país. Ainda assim, os especialistas alertam que o impacto total do recente bloqueio petrolífero ainda está por se ver.
Afinal, existe um intervalo entre a produção dos charutos e a sua venda. Alguns precisam de três a cinco anos de envelhecimento antes de chegarem ao público. Enquanto isso, concorrentes regionais prosperam, com a Nicarágua e a República Dominicana a registarem uma procura crescente pelos seus charutos mais baratos e também de boa qualidade.
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