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Contagem decrescente para o 10º aniversário da ARCOlisboa

Contagem decrescente para o 10º aniversário da ARCOlisboa

Uma feira de arte faz-se, antes de mais, com artistas. Óbvio. Mas também com os galeristas que acreditam no poder de uma montra coletiva. Daqueles que aí marcam presença desde a primeira edição e de todas as galerias que vão aderindo a um conceito que procura adaptar-se aos moods do século XXI. Organizada pela IFEMA Madrid e pela Câmara Municipal de Lisboa, a ARCOlisboa conta com a participação de 86 galerias na edição do seu 10º aniversário. Um número redondo como este pede um balanço. Incompleto – sê-lo-ia sempre – mas em número ímpar. Palavra aos galeristas.
“Em dez anos, a ARCO Lisboa conseguiu uma integração nacional, ibérica, e lançou a semente para o reforço da presença internacional das galerias portuguesas, que se tem vindo a afirmar em mercados terceiros.” A galerista defende que “existia um capital de credibilidade, construído pela presença regular em feiras internacionais, onde a ARCO Madrid tinha grande relevância, mas que ter uma feira em Lisboa é estratégico para a afirmação do país,” diz a galerista Vera Cortês.
Pedro Cera, fundador da galeria homónima, partilha com o JE que o seu balanço “é positivo sem chegar a ser extraordinário.” E explica. “Lisboa há muitos anos que não tinha uma feira, e a feira que teve anteriormente não tinha perfil internacional. A ARCOlisboa surgiu para colmatar essa lacuna. Conseguiu dinamizar com relativo sucesso o mercado local que se encontrava órfão de oferta, mas tem evidenciado algumas dificuldades para se impor no contexto e calendário internacionais”, conclui o galerista, que tem marcado presença na feira desde a primeira edição. Existe um conjunto alargado de fatores que o explicam, refere Pedro Cera, nomeadamente “a sobreoferta de eventos de características semelhantes no calendário internacional, mas sobretudo às características e dimensões do nosso mercado local que, aparentemente, não consegue corresponder de forma sustentada à oferta proporcionada pelas galerias internacionais de relevo que têm testado ao longo dos anos a sua presença na feira.”
Já João Azinheiro, fundador da Kubikgallery, no Porto, faz um balanço muito positivo e diz que “a feira tem vindo a crescer de forma consistente, tornando-se também mais madura e com uma dinâmica cada vez mais positiva.”
Agora importa adicionar outro fator na ‘equação feira’: os compradores. O perfil mantém-se ou surgiram novos colecionadores?
“Surgiram novos colecionadores”, assevera Pedro Cera. Mas logo contrapõe que parte substancial desse aumento se deve “aos novos residentes estrangeiros que se instalaram em Portugal na última década.” Não menos importante, sublinha, é o facto de, “durante este período, duas coleções privadas terem assumido uma vertente institucional de relevo”, i.e., o MACAM, em Lisboa, e o MUZEU, em Braga.
Vera Cortês considera que a ARCOlisboa “ajudou à visibilidade da arte portuguesa e das suas instituições e, como consequência, surgem novos colecionadores, individuais e corporativos. O perfil dos colecionadores evoluiu, o mercado também, é um processo de crescimento orgânico.” Pedro Cera frisa, a propósito, que “é importante que a feira, e estas coleções privadas de caraterísticas institucionais [MACAM e MUZEU], se apoiem mutuamente. Ambas possuem o potencial necessário para proporcionar ganhos bidirecionais.”
João Azinheiro defende, por sua vez, que “o próprio programa de colecionadores da feira tem sido bastante aprimorado, trazendo um acompanhamento mais próximo e uma maior capacidade de atrair públicos internacionais e novos compradores.” O galerista do Porto, que trouxe a Kubik para Lisboa e Comporta, acrescenta que “existe hoje uma energia diferente em torno da ARCOLisboa. A cidade tornou-se um ponto cada vez mais relevante no circuito artístico contemporâneo, e isso também se reflete na qualidade do público – mais informado e mais constante – e nas relações que a feira consegue gerar entre galerias, artistas e colecionadores.”
Outra pergunta se impõe: os artistas consagrados prevalecem ou existe uma maior apetência por talentos emergentes? João Azinheiro, da Kubikgallery, é assertivo na resposta. “Os novos talentos fazem hoje parte inevitável da estratégia das galerias, e isso nota-se não apenas na ARCOLisboa, mas no panorama internacional da arte contemporânea.” E reforça. “Existe uma apetência crescente por artistas jovens e promissores, mas também uma maior consciência de que o mercado vive desse equilíbrio entre propostas já estabilizadas e artistas que estão a construir o seu percurso no presente.” Na ARCOLisboa isso é particularmente visível, diz. “Há sempre espaço para descobrir novos artistas, novas linguagens e propostas mais experimentais”, sem esquecer que “uma feira de arte tem inevitavelmente uma componente comercial.” Mas acredita que “a marca ARCO tem conseguido encontrar um equilíbrio muito interessante entre qualidade curatorial e dinâmica de mercado.”
“Os artistas consagrados, os de meio de carreira ou emergentes têm todos o seu valor e interesse dependendo do foco dos colecionadores e das instituições. É um mercado mais maduro, logo mais abrangente e sustentável”, argumenta Vera Cortês. No caso da galeria Pedro Cera, como refere o galerista, “a procura é mais acentuada por artistas nacionais de meio de carreira com implantação consolidada no mercado nacional, embora ao longo dos anos também tenhamos efetuado um número razoável de transações de artistas internacionais mais consagrados e com valores mais elevados.”
A decisão de participar numa feira nem sempre é simples. O investimento é alto e nem sempre a resposta é imediata. E nem sempre é comercial. Mas é visibilidade e posicionamento. Curadoria e estratégia. E pode gerar oportunidades importantes: uma exposição institucional, a entrada de uma obra num museu, a aproximação de um novo colecionador. As feiras chamam a atenção, a galeria sustenta o tempo longo, o trabalho continuado.

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