Vacas que já usam IA querem a abertura de mais mercados
Os produtores animais em Portugal querem entrar em mais países, especialmente na Ásia, mas as portas destes mercados continuam fechadas.
O problema é que as autoridades veterinárias nacionais têm de forjar acordos com as respetivas homólogas para que Portugal possa vender animais. Mas estes protocolos estão a demorar a chegar, limitando a ambição das empresas portuguesa do setor.
“Há um grande problema em Portugal. Temos uma inércia total na abertura de mercados. Somos o país na Europa que tem menos mercados abertos para o setor de carne pecuária. Há um potencial enorme para carne de qualidade na Ásia, como o Japão ou Coreia do Sul”, revela ao JE a presidente da Monte do Pasto Clara Moura Guedes.
A gestora sublinha que tem sensibilizado as entidades nacionais pois a situação é “totalmente inconsistente com o que se passa na Europa” onde há “muito trabalho feito no sentido de abrir mercados.
Mesmo os países em que os processos são padronizados, como o Japão… da parte portuguesa não há resposta. O Japão mandou um questionário e Portugal ficou um ano e meio para responder”, critica.
“Isto é dos aspetos mais penalizadores para o nosso setor, porque tem sido muito complicado. A missão ao Japão já foi há dois anos e meio e ainda continuamos à espera. O Japão tinha-nos garantiu que o processo demorava nove meses”, segundo Clara Moura Guedes.
Isto, além dos desafios complicados de entrada num novo mercado: competir em condições diferentes, com escala diferente e concorrer em termos de preços de forma agressiva, enumera.
“Isto acontece em todos os mercados. Passo o tempo a tentar defender este ponto junto das entidades todas. Mas realmente em Portugal temos este problema; as coisas não acontecem nesta área e isso para nós é muito penalizador. Podíamos estar já com presença em muitos outros mercados”, segundo a gestora.
A Monte do Pasto está a faturar cerca de 30 milhões de euros, com um crescimento de 25% em 2025. “Tivemos uma fase com alguma dificuldade em geral para o setor. Não perdemos mercados, mas houve mercados que foram fechados quando surgiu a língua azul (doença viral que afeta os animais)”, com a expetativa a ser de novo crescimento este ano.
A companhia procura atualmente investidores para forjar uma parceria para o futuro. “Estamos à procura de parceiros. Há um potencial muito grande de desenvolvimento e precisamos de investidores”, revela, com a ideia a ser a alienação de posições minoritárias.
Criada no início da década de 90, a empresa já teve várias vidas. Chegou a pertencer ao Banco Espírito Santos (BES) e passou depois para o Novobanco, sendo uma das suas grandes devedoras. Foi depois vendida aos macaenses do CESL Asia por 37 milhões em 2019. Em 2023, foi alvo de uma compra por parte dos seus gestores, um MBO, sendo a própria Clara Moura Guedes uma das acionistas.
A companhia exporta mais de 90% da sua produção, contando com vendas para o Médio Oriente, incluindo para Israel e para a Palestina.
“Vendemos fundamentalmente para o Médio Oriente e para o Norte de África na área dos animais vivos porque são mercados que não consomem carne de porco. Há uma literacia de carne de bovino muito maior. Esses são os maiores mercados e vendemos também bastante para Espanha”.
A Monte do Pasto conta com 12 mil animais nas suas herdades no Baixo Alentejo, em Cuba e no Alvito, divididas entre as raças Angus, Limousine e Charolesa.
Clara Moura Guedes deixa também críticas à entrada de carne da América Latina com uma qualidade que considera ser menor.
“Vemos com preocupação o acordo do Mercosul sobretudo porque é muito difícil ou quase impossível assegurar uma concorrência leal em termos dos métodos de produção que são implementados. De produtos que são admitidos que não correspondem aos requisitos da União Europeia. Muito embora haja sempre a intenção de que os controlos vão ser feitos, mas é muito complicado assegurar, isso preocupa-nos bastante”, afirmou.
A empresa já viu nos mercados onde opera, como em Marrocos ou na Argélia, “produtos da América do Sul com prazos de validade completamente impossíveis”.
Apesar de ser um setor relativamente tradicional, onde as mudanças chegam paulatinamente, a Monte do Pasto tem apostado na inovação, aplicando ferramentas de inteligência artificial (IA) à produção, aos processos de gestão e à comercialização.
Um dos projetos mais recentes é o acompanhamento individual dos 12 mil animais… uma tarefa hercúlea.
“Agora estamos a desenvolver um conjunto de processos muito interessantes de aplicação de ferramentas de IA e de substituição de processos. Aliás, estamos com alguma dificuldade. Estamos a ter que começar coisas de raiz, porque todo o desenvolvimento é aplicado à agricultura, não existindo para a agropecuária porque é um setor com características diferentes”, explica Clara Moura Guedes.
“Produzimos produtos com grande qualidade e é difícil conseguir gerar valor no mercado português. Então, sempre olhámos para vários mercados, posicionámo-nos completamente para a exportação desde o princípio. E foi uma boa aposta porque são mercados que valorizam mais a qualidade”, concluiu a líder do Monte do Pasto.
Clara Moura Guedes, presidente e acionista da Monte do Pasto
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