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O bode expiatório da desindustrialização

O bode expiatório da desindustrialização

A desindustrialização tornou-se um dos temas centrais da economia mundial. Por toda parte, repete-se a mesma queixa: a China é a grande vilã, responsável pela perda de competitividade industrial em dezenas de países.
De fato, as últimas décadas testemunharam uma migração gradual da produção global para o território chinês. O país se consolidou como a fábrica do mundo e, até 2030, poderá responder por quase metade da manufatura global.
As acusações são conhecidas: excesso de capacidade produtiva, concorrência desleal, subsídios estatais, violações de propriedade intelectual, práticas comerciais agressivas. Em resumo, criou-se um discurso que culpa a China por seu próprio sucesso — isto é, por seu salto extraordinário em produtividade, eficiência logística e capacidade de entrega.
Mas a realidade é mais complexa. E, para muitos países, profundamente incômoda.
Grande parte da desindustrialização global não se deve apenas à ascensão da China. Vem, sobretudo, de escolhas internas equivocadas. Ao longo dos anos, inúmeras economias ocidentais tornaram-se menos competitivas devido ao aumento excessivo de custos trabalhistas e de encargos, à complexidade regulatória, à queda de produtividade e à incapacidade de adaptar seus modelos produtivos às novas exigências globais.
Há também uma diferença estrutural entre o capitalismo chinês e o modelo ocidental. A China assenta seu desenvolvimento em três pilares: longo prazo, escala e margens reduzidas. O Ocidente, ao contrário, consolidou um modelo de curto prazo, em pequenas escalas e com margens elevadas. O choque entre esses dois sistemas é inevitável — e a China sai na frente, com vantagens competitivas cada vez mais evidentes. E a China, que já tem um mercado vastíssimo, passou a produzir para 8,5 bilhões de pessoas.
Some-se a isso a impressionante melhoria da qualidade dos produtos chineses. Em setores estratégicos, como o de veículos elétricos, a evolução tecnológica da China já desafia velhos paradigmas. Quem vê de perto os novos carros elétricos chineses percebe rapidamente: o debate não é mais só sobre preço. É sobre inovação, integração tecnológica e capacidade produtiva em larga escala.
Diante disso, responder à competição chinesa apenas com protecionismo seria um grave erro. Mercados excessivamente fechados geram atraso tecnológico, perda de qualidade e queda de competitividade. O Ocidente, em particular, enfrenta uma pressão crescente por barreiras comerciais — justamente quando talvez precise de mais concorrência, e não de menos.
Reindustrializar-se exigirá muito mais do que tarifas ou discursos políticos. Exigirá estabilidade política, segurança pública (que tem se tornado um problema grave em muitos países ocidentais), educação e um forte incentivo à competitividade e à produtividade. Sem esses pilares em perfeita sintonia, dificilmente a Europa, a América Latina ou qualquer outra região conseguirá recuperar competitividade num mundo cada vez mais marcado pela velocidade, pela inovação e pela escala.

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