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Mário Ferreira investe em quatro superiates híbridos de 260 milhões cada para mercado norte-americano

Mário Ferreira investe em quatro superiates híbridos de 260 milhões cada para mercado norte-americano

Num momento em que o setor do turismo de luxo e de expedição procura reinventar-se sob pressão ambiental, tecnológica e geopolítica, a apresentação do novo projeto da Atlas Ocean Voyages marcou um ponto de viragem simbólico: um navio de cruzeiro de expedição que combina velas de grande escala, propulsão híbrida e design de luxo, com uma ambição clara de redefinir o que significa viajar pelo mar. “Único no mundo”, afiança Mário Ferreira, CEO da Pluris Investments.
A intervenção do gestor feita no âmbito de uma conferência promovida pela Forum Oceano, cujo mote é Portugal China Green Maritime Fuels & Decarbonisation 2026, sublinhou não apenas a dimensão tecnológica do projeto, mas também o papel estratégico de Portugal e da indústria marítima global nesta nova geração de embarcações.
À margem do evento, Mário Ferreira disse ao Jornal Económico que cada um custará 260 milhões de dólares. “Vamos construir quatro. É para o mercado americano através da nossa empresa dos Estados Unidos que está sediada na Flórida”.
“Mais do que o destino, importa a forma de lá chegar”
O conceito apresentado assenta numa mudança de paradigma. Para Mário Ferreira, o luxo contemporâneo já não se mede apenas pelo destino, mas pela experiência de navegação. A nova embarcação — associada à marca Atlas Ocean Voyages — aposta numa combinação de exploração imersiva, conforto sofisticado e uma forte componente de sustentabilidade.
“Já não é apenas sobre onde se vai, mas sobre como se chega”, foi a ideia central da intervenção, que destacou uma abordagem centrada na experiência do passageiro, com espaços sociais abertos, suítes mais intimistas e uma ligação mais direta ao oceano.
O regresso do vento: tecnologia do século XXI com uma energia com 5.000 anos
Um dos pontos mais simbólicos do projeto é o regresso da propulsão eólica — não como nostalgia, mas como tecnologia avançada.
O vento, lembra no próprio discurso, é a mais antiga forma de energia utilizada pela humanidade, com registos de utilização superiores a 5.000 anos. Agora, regressa sob uma forma radicalmente nova: mastros em fibra de carbono com cerca de 50 metros, velas de Kevlar de grandes dimensões e sistemas totalmente automatizados de operação.
Estas velas — três unidades com cerca de 700 m² cada — representam uma fusão entre engenharia naval de ponta e princípios ancestrais de navegação. O resultado é um sistema capaz de navegar até 14 nós apenas com vento favorável, reduzindo significativamente a dependência de combustíveis tradicionais. “É a energia mais verde que há”, diz, entusiasmado.
Uma arquitetura global: França, Portugal e China no mesmo casco
O projeto assume-se também como um exercício de engenharia globalizada.
Segundo a apresentação, as velas são produzidas em França, os interiores desenhados em Portugal e a construção naval envolve o estaleiro da China Merchants Industry Holdings, com contributos de engenharia de empresas como a Delta Marine.
Portugal assume aqui um papel relevante na conceção dos interiores e no design dos espaços habitacionais e sociais, reforçando a tradição nacional em arquitetura naval de luxo e design de embarcações de expedição.
Propulsão híbrida e energia: quando o navio também produz eletricidade
Outro dos elementos mais inovadores do conceito é a integração de sistemas híbridos de energia.
O navio combina propulsão elétrica através de pods azimutais, um sistema de baterias de cerca de 9 megawatts, tecnologia da ABB e capacidade de recuperação de energia em navegação à vela.
O sistema permite que os próprios pods funcionem como geradores durante a navegação à vela, produzindo entre 200 e 400 kW, dependendo da velocidade. Na prática, o navio não apenas consome energia: também a regenera.
Esta lógica híbrida representa uma tentativa de fechar o ciclo energético a bordo, reduzindo emissões e aumentando a eficiência operacional.
Um navio pensado para os extremos do planeta
O projeto não se limita ao luxo tropical ou às rotas tradicionais do turismo marítimo. O objetivo declarado é ambicioso: operar tanto no Ártico como na Antártida.
Com classe de gelo reforçada e capacidade de navegação em condições extremas, o navio pretende abrir novas rotas de expedição na Ásia e no Sudeste Asiático, incluindo Japão, Vietname, Tailândia e Filipinas.
A estratégia é clara: mais tempo em terra, mais flexibilidade de itinerários e maior proximidade cultural com os destinos.
Sustentabilidade como narrativa e engenharia
A dimensão ambiental atravessa todo o projeto. Desde políticas de eliminação de plásticos a bordo até sistemas avançados de estabilização para garantir conforto sem comprometer a eficiência das velas, o navio procura equilibrar dois mundos frequentemente em tensão: o luxo e a responsabilidade ambiental.
A aposta no vento como fonte primária de propulsão não é apenas simbólica. É também uma declaração política num setor pressionado pela transição energética.
Portugal no mapa da nova engenharia marítima
A intervenção de Mário Ferreira reforça ainda a posição de Portugal como ator relevante na economia do mar, tanto na conceção como no design de soluções marítimas de alto valor acrescentado.
Num setor onde competem gigantes globais, a participação portuguesa na arquitetura interior e na engenharia conceptual do projeto representa uma continuidade da tradição naval nacional, agora reinterpretada em chave tecnológica e sustentável.
Um futuro em construção
Com um horizonte de desenvolvimento superior a dois anos, o projeto é ainda um work in progress. Mas a ambição é inequívoca: criar aquilo que os seus promotores descrevem como “uma obra-prima flutuante”, onde engenharia, design e natureza coexistem.
No centro desta visão está uma ideia simples e poderosa: o futuro da exploração marítima pode não estar em romper com o passado, mas em voltar a ouvi-lo — mesmo que seja através do vento que impulsiona velas feitas de carbono e Kevlar.

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