Península Ibérica: a bateria energética que a Europa continua a ignorar
A União Europeia diz querer energia limpa, competitiva e segura para acelerar a transição energética, reforçar a autonomia estratégica e garantir segurança no abastecimento. Mas quando chega o momento de transformar discurso em investimento e infraestruturas, continua a ignorar um dos seus maiores ativos energéticos: a Península Ibérica, que continua a ser tratada como uma periferia, e não como o verdadeiro ativo estratégico que é.
Durante anos, Portugal e Espanha foram apelidados de “ilha energética”. Hoje essa expressão já não descreve um problema técnico, descreve uma lacuna política. É aqui que se concentram alguns dos melhores recursos solares e eólicos da Europa. O resultado está à vista: preços grossistas de eletricidade frequentemente entre os mais baixos do continente, impulsionados por energia limpa, abundante e competitiva. Exatamente o tipo de energia que a Europa afirma necessitar para proteger a sua indústria, reduzir dependências externas e acelerar a descarbonização.
No entanto, grande parte deste valor é desaproveitado. Sempre que há excesso de produção renovável, Portugal e Espanha deparam-se com o mesmo obstáculo: interligações elétricas insuficientes com o resto da Europa (em particular com França) e energia, que poderia reduzir custos industriais em vários países, limitada, desligada ou economicamente anulada, simplesmente porque faltam infraestruturas.
A ironia é que a Península Ibérica não é apenas um grande produtor de energia renovável. É também um dos raros territórios europeus com capacidade real de armazenamento em escala. As barragens com bombagem funcionam como baterias naturais: absorvem excedentes quando o sol e o vento são abundantes e devolvem energia quando o sistema precisa. O que Bruxelas procura em relatórios, protótipos e projetos-piloto já existe, opera e escala em Portugal e Espanha. Num sistema energético dominado por fontes intermitentes, flexibilidade é poder e a Península tem-na.
Mesmo as centrais de ciclo combinado, por vezes criticadas, continuam a desempenhar um papel crucial: garantir estabilidade num sistema em rápida transformação. Não são o futuro, mas sem elas o presente seria mais débil.
A realidade fala por si: a Península Ibérica tem produção renovável competitiva, capacidade de armazenamento e integração tecnológica. O que falta não é sol, vento ou inovação. Falta decisão.
Enquanto a União Europeia adia investimentos críticos em interligações e permanece presa a equilíbrios nacionais e burocráticos, mantém-se bloqueada uma oportunidade estratégica no seu extremo sudoeste.
Já não está em causa perceber se a Península Ibérica tem condições para ser a bateria da Europa. A verdadeira questão é: quantas crises energéticas serão necessárias para que a Europa tome a decisão de usar plenamente o potencial que já possui no seu território?
Ignorar estes 581,353 km² não é fruto do acaso nem de uma limitação técnica inevitável. É uma opção política, consciente, reiterada, estrutural e sobretudo dispendiosa para toda a Europa.
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