Inteligência Artificial na saúde reduz 25% o tempo de permanência nas urgências
Num sistema de saúde sob crescente pressão, com listas de espera prolongadas e escassez de profissionais, uma tecnológica portuguesa quer mudar o paradigma: usar inteligência artificial não para substituir médicos, mas para multiplicar a sua capacidade. “Nunca os sistemas de saúde estiveram sob tanta pressão”, afirma Eduardo Freire Rodrigues, CEO da UpHill Health e médico de formação. “A inteligência artificial deve ampliar aquilo que as equipas existentes conseguem fazer.”
A tecnológica portuguesa UpHill Health apresentou esta quarta-feira, em Lisboa, uma nova geração da sua plataforma de orquestração de cuidados de saúde baseada em inteligência artificial, prometendo ganhos significativos de eficiência no sistema hospitalar, numa altura em que o setor enfrenta forte pressão.
Segundo Eduardo Freire Rodrigues, a solução permite reduzir em cerca de 25% o tempo de permanência nas urgências, com base num estudo multicêntrico realizado em quatro grandes hospitais portugueses. “Ao automatizarmos processos logo após a triagem, conseguimos encurtar significativamente o tempo de espera”, explicou. “Estamos a falar de uma mudança estrutural, não de ganhos incrementais.”
A tecnologia vai mais longe. Em contexto cirúrgico, a plataforma demonstrou ser capaz de duplicar a capacidade das equipas clínicas na preparação perioperatória — ou seja, os mesmos profissionais conseguem acompanhar o dobro dos doentes. “É como se tivéssemos o dobro dos médicos a fazer o mesmo trabalho”, afirmou.
Já em cenários de elevada procura, como picos de inverno, a utilização de agentes de voz automáticos permite reduzir em cerca de 30% o tempo associado à recolha de informação clínica. “Este processo de recolha é extremamente moroso e pode ser automatizado com base em protocolos clínicos.”
O novo sistema introduz um modelo de acompanhamento “de um para muitos”, em que um único profissional pode monitorizar vários doentes em simultâneo. Na prática, funciona como um multiplicador de capacidade num contexto em que a escassez de médicos é estrutural. “Não vamos formar o dobro dos médicos, mas podemos aumentar a capacidade dos que já temos”, sublinhou o responsável. “O objetivo é dar tempo aos clínicos para aquilo que realmente importa: a decisão clínica.”
A atualização tecnológica combina percursos clínicos validados com inteligência artificial generativa, permitindo que os doentes deixem de estar limitados a algoritmos rígidos. Através de interações naturais — por telefone, chat ou aplicações — os pacientes podem descrever sintomas de forma livre, sendo depois encaminhados por diferentes percursos clínicos de forma automática e segura. “Os doentes deixam de estar presos a um fluxo único e passam a navegar por diferentes percursos conforme a sua condição evolui”, explicou.
Já a operar em Portugal
Outra das novidades é a introdução de ferramentas de “scribe” clínico, que transcrevem automaticamente consultas e sugerem decisões médicas em tempo real, como a prescrição de exames. “Não se trata apenas de transcrever, mas de apoiar a decisão clínica de forma proativa”, disse. A plataforma passa também a permitir uma gestão populacional dos doentes, oferecendo aos clínicos uma visão global dos pacientes sob a sua responsabilidade, organizados por prioridade.
Em termos de custos, a solução representa um investimento na ordem dos 400 mil euros para um hospital de dimensão média — com uma população de 200 a 300 mil pessoas — abrangendo todas as áreas. Isto equivale a cerca de 2 a 3 euros por doente, segundo a empresa. A versão anterior situava-se nos 250 a 300 mil euros. “Quando comparado com o impacto na redução de tempos de espera e no aumento de capacidade, é um investimento altamente competitivo”, defendeu.
Atualmente, a tecnologia da UpHill Health está implementada em mais de 550 unidades de saúde em Portugal e Espanha, incluindo hospitais públicos, privados e centros de cuidados primários. A empresa estima processar centenas de milhares de doentes por ano através dos seus sistemas. “Já não estamos a falar de pilotos, mas de tecnologia escalada e integrada no dia a dia dos hospitais”, sublinhou.
A interoperabilidade foi também reforçada, com recurso a agentes de IA capazes de integrar e estruturar informação clínica em diferentes sistemas hospitalares, reduzindo a complexidade técnica de implementação — um dos principais entraves à digitalização do setor. “Conseguimos trabalhar em ambientes tecnológicos muito heterogéneos, o que é crítico na saúde.”
Fundada por três médicos, a UpHill Health já levantou cerca de 15 milhões de euros em investimento e emprega cerca de 50 pessoas (70 incluindo colaboradores externos). A empresa está a expandir-se para novos mercados europeus, nomeadamente Reino Unido, França e Alemanha.
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, o CEO deixa um aviso: “Achar que a IA vai resolver tudo é infantil. A transformação na saúde faz-se de forma progressiva, integrada e com os profissionais.” E conclui: “A mudança real não acontece de um dia para o outro — acontece quando conseguimos alinhar tecnologia, processos e pessoas.”
Num sistema sob pressão crescente, a aposta passa por usar tecnologia não para substituir médicos, mas para lhes devolver tempo — e aumentar, de forma tangível, a capacidade de resposta.
As principais novidades da plataforma atualizada da UpHill Health:
Maior flexibilidade para doentes e profissionais de saúde: os doentes deixam de estar limitados a um único algoritmo clínico ou fluxo de trabalho rígido, permitindo percursos diagnósticos mais seguros e adaptáveis a múltiplas condições e sintomas. Pacientes passam a ser geridos através de um plano de cuidados único e coordenado, em vez de percursos clínicos fragmentados.
Gestão populacional dos cuidados: os clínicos passam a dispor de uma visão única de toda a população de doentes sob a sua responsabilidade, priorizada por urgência e fase do percurso clínico, em vez de trabalharem caso a caso.
Conversas naturais suportadas por IA: através do agente conversacional Hilly, os doentes podem descrever sintomas e preocupações de forma natural por telefone, chat, formulários ou aplicações hospitalares, em português, inglês ou espanhol, sem necessidade de questionários rígidos ou menus pré-definidos.
Automação de processos administrativos: pedidos de exames, prescrições, consultas de seguimento e notas clínicas podem agora ser propostos, aprovados e agendados automaticamente nos sistemas hospitalares. Adicionalmente, a plataforma inclui uma funcionalidade opcional de anotação scribe, que capta e estrutura automaticamente nova informação clínica, incluindo sintomas, alterações de cuidados e decisões médicas, em tempo real, atualizando continuamente o plano de cuidados do doente com base na informação mais recente.
A tecnologia da UpHill Health está atualmente operacional em mais de 550 unidades hospitalares públicas e privadas e centros de cuidados de saúde primários em Portugal e Espanha. A plataforma funciona com base no UpHill Route, dispositivo médico certificado de Classe IIa, e cumpre a norma ISO 27001 para segurança da informação.
Sobre a UpHill Health
A UpHill Health desenvolve soluções automatizadas com inteligência artificial para melhorar a orquestração de cuidados de saúde em mais de 550 unidades hospitalares, incluindo instituições públicas e privadas em Portugal e Espanha. A sua tecnologia liberta os profissionais de saúde para atividades de maior valor clínico, otimizando simultaneamente a utilização de recursos dos sistemas e unidades de saúde.
O UpHill Route está certificado como dispositivo médico de Classe IIa e cumpre a norma ISO 27001, referência internacional para Sistemas de Gestão da Segurança da Informação.
A UpHill foi distinguida com o prémio Born from Knowledge, atribuído pela Agência Nacional de Inovação (ANI), tendo concluído três rondas de investimento que totalizam 15 milhões de euros. Atualmente lidera o projeto i2X, uma iniciativa de 8 milhões de euros que irá ligar dados de saúde de 3 milhões de cidadãos em toda a União Europeia.
ww.uphillhealth.com
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