OCDE corta previsão de crescimento português para 1,8% este ano
A OCDE reviu em baixa as projeções de crescimento para Portugal e a economia global este ano, citando as perturbações no Médio Oriente e subsequente choque energético global como o principal motivo para o abrandamento esperado. Os cortes de projeções foram transversais às principais economias mundiais e a organização traçou ainda um cenário adverso em que a tensão no Estreito de Ormuz se prolonga, alertando para impactos ainda mais gravosos em múltiplas frentes.
No relatório de perspetivas económicas divulgado esta quarta-feira, a OCDE revê em baixa o crescimento global de 2,9% este ano para 2,8%, embora melhorando a expectativa para 2027 na mesma proporção, ou seja, de 3% para 3,1%. Para a zona euro mantém-se a expectativa de um avanço tímido de 0,8% este ano e 1,2% no próximo, enquanto os EUA mantiveram a projeção de 2% de crescimento em 2026 e viram melhorada em 0,1 pontos percentuais (pp) a referente a 2027, para 1,7%.
No entanto, estas previsões aplicam-se caso o conflito entre os EUA e Israel com o Irão encontre resolução até final do primeiro semestre, a partir de quando o tráfego marítimo em Ormuz seria retomado sem restrições, e o preço do barril de petróleo nos mercados estabilize em torno dos 102 dólares (87,6 euros), levando a uma média para este ano de 92 dólares (79 euros).
Caso contrário, as consequências para a economia global serão consideravelmente mais gravosas. Num cenário adverso em que as perturbações no Médio Oriente se prolongam até 2027, o crescimento global este ano ficaria limitado a 2,1% e a 1,8% no próximo, mas os impactos serão muito mais abrangentes do que só no PIB.
Na possibilidade deste cenário adverso se verificar, a inflação global será 0,4 pp mais alta este ano e 1,3 pp em 2027, embora com impactos assimétricos no mundo, com as economias do sudeste asiático como as principais prejudicadas. Por sua vez, isto afetará o consumo, empurrando mesmo as famílias a recorrerem às suas poupanças (ou, pelo menos, a alterarem a sua taxa de poupança), enquanto o desemprego deve crescer face à maior fraqueza económica.
Na mesma linha, a política monetária teria de responder no curto prazo, prevendo-se taxas 50 a 75 pontos base (pb) mais altas do que no cenário em que o conflito tem uma resolução até final deste mês. Por outro lado, os estabilizadores automáticos entram em efeito, limitando o impacto na economia real, mas agravando o saldo orçamental e, por arrastamento, os rácios de dívida pública.
OCDE menos otimista do que Governo
Para Portugal, a OCDE procedeu igualmente a cortes de projeções para este ano e o próximo, antecipando um saldo nulo para 2026 e continuação da redução da dívida – embora consistentemente menos otimista do que o Governo.
A organização aponta a um avanço de 1,8% no PIB este ano e 1,7% no próximo, ou seja, abaixo dos 2,2% e 1,8% anteriormente projetados, em dezembro do ano passado. Olhando para as componentes, o consumo privado abranda em relação a 2025, crescendo apenas 1,9%, tal como os gastos públicos, que sobem apenas 1,4%.
Do lado dos preços, houve lugar a fortes revisões, mas em alta: a expectativa para este ano saltou de 2,2% para 3,2%, enquanto o indicador para 2027 foi atualizado de 2% para 2,5%. Excluindo as componentes alimentar e energética, as tipicamente mais voláteis do cabaz de consumo, a OCDE aponta a uma inflação subjacente de 2,3% em 2026 e 2,5% em 2027.
Já no que respeita ao saldo orçamental, a organização alinha com o Executivo na projeção de um saldo nulo no final deste ano e de um ligeiro défice de 0,1% do PIB no próximo. Isto constitui, ainda assim, uma melhoria considerável em relação a dezembro, quando a OCDE apostava em défices de 0,6% e 0,5%, respetivamente.
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