Maior gestora de ativos da Europa aposta em luso-suíços do engenheiro do solar
Há quase 20 anos um jovem engenheiro civil português foi trabalhar para a Suíça em plena crise financeira mundial à procura de oportunidades na sua carreira.
Começou por trabalhar numa cimenteira, mas passados uns anos chegou ao mundo da energia solar descentralizada, isto num país conhecido pelos seus invernos rigorosos. Fundou a sua companhia em 2015, em conjunto com o seu sócio suíço, para levar o sol aos cantões da confederação helvética.
A Youdera começou por estar focada inteiramente no mercado suíço, mas decidiu atravessar os Alpes e os Pirinéus para entrar no mercado ibérico. Em 2021, deu-se a entrada em Portugal, num regresso a casa de Pedro Miranda, para investir no seu país.
Agora, os luso-suíços da Youdera, sediados em Lausana, vão receber 150 milhões de euros do fundo francês Amundi para investir na produção descentralizada de energia solar no mercado ibérico focada nas empresas, em troca de uma participação acionista.
A Amundi é o maior gestor europeu de ativos com 2.400 milhões de ativos sob gestão, situando-se entre os 10 maiores gestores mundiais.
“Investimos em centrais fotovoltaicas, em sistemas de baterias e vendemos energia diretamente na propriedade do clientes através de um PPA [acordo de energia]. Para este modelo de negócio é preciso capital porque somos nós que investimos nos sistemas descentralizados de energia”, diz Pedro Miranda, presidente-executivo da Youdera, em entrevista ao Jornal Económico.
E dos 150 milhões, qual a percentagem que pretendem investir em Portugal? “Vai depender da procura de cada mercado. Podemos colocar mais em Espanha ou mais em Portugal, consoante as oportunidades surgirem. A nossa perspetiva é alocar esse capital o mais depressa possível e que consigamos passar para o próximo nível”.
Objetivo: atingir 500 megawatts de potência instalada nos três mercados até 2030. “É uma perspetiva muito ambiciosa no longo prazo, mas há muito potencial”.
Quem entra com o capex é a Youdera, o que vai servir para facilitar a aposta das empresas. “Somos nós que fazemos o investimento. Somos uma empresa de infraestrutura, de sistemas de energia. Fornecemos energia descentralizada. O cliente tem muitas formas de financiar, muitas formas de chegar a estes tipos de sistemas. Podem ir com capitais próprios, podem ir ao banco ou podem recorrer a uma empresa como a nossa que presta um serviço chave-na-mão completo de energia a um preço mais barato face ao da rede”.
“A vantagem de fazer connosco? Não tem que aportar capital, é uma vantagem essencial. Nós investimentos totalmente no capex. Também fazemos a operação e a gestão. Por vezes, toma-se a decisão de investir com capitais próprios, mas sem competências técnicas ou sem conhecimento para gerir as instalações… nós trazemos esse profissionalismo: as empresas não querem comprar um problema, mas uma solução, e nós conseguimos aportá-la”, defende.
A companhia tem comprado instalações já existentes, entrando numa segunda fase dos projetos. “Assim, se eu chegar hoje a uma empresa que fez um investimento há dois anos e agora a empresa precisa de liquidez, temos capacidade de chegar e comprar aquela instalação. O nosso mercado é nova instalação, mas também a já existente, comprando portfólios no mercado”, revelando que já fechou várias operações no mercado secundário.
“Portugal tem a sorte de estar numa latitude que permite pensar que o solar pode cobrir uma grande percentagem das nossas necessidades. Quando mais para norte vamos, mais essa produção é central e concentrada nos meses de verão, no inverno há menos horas de sol. A Alemanha está a norte da Suíça e tem uma capacidade instalada brutal. Muitas vezes não é uma questão de latitude ou de geografia, é uma questão regulatória e dos mecanismos que permitem à indústria expandir-se”, afirma.
Sobre se a guerra no Médio Oriente está a trazer mais clientes, afirma que “numa primeira fase, as empresas retraem-se porque aumenta o risco. Mas depois, quando começam a processar os potenciais impactos, começam-se a mexer mais e isso nota-se: processos que estavam em banho maria começam agora a fechar”.
E quais as diferenças entre fazer negócios nos dois países? “A Suíça é um país mais nórdico, mais organizado. Os suíços instalam a mesma capacidade desde há dez anos. Não se podem instalar sistemas fotovoltaicos de grande escala porque existem restrições de nível paisagístico e é um país bastante pequeno, não há espaço para instalar painéis no chão. Em Portugal, diria que mereceríamos um bocadinho de mais planeamento a mais largo prazo”, explica.
Sobre questões de licenciamento, a empresa não tem nada a assinalar. “Em Portugal, não nos queixamos muito desse problema, uma vez que, como estamos a instalar na propriedade dos nossos clientes e os clientes já estão conectados à rede, o processo de licenciamento é relativamente fácil, comparando com a Espanha, onde na maior parte dos casos a energia descentralizada não consegue injetar na rede por falta de capacidade ou por falta de vontade política”.
Em termos de timings, o gestor diz que o licenciamento “é muito rápido, uma questão de meses. Esse problema geralmente não se põe para potência baixas”.
Share this content:


Publicar comentário