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Morreu a artista iraniana Marjane Satrapi, a sua força e mensagem persistem

Morreu a artista iraniana Marjane Satrapi, a sua força e mensagem persistem

A morte da iraniana Marjane Satrapi chegou-nos quinta-feira, 4 de junho de 2026, em Paris. Tinha 56 anos e as pessoas que lhe são mais próximas fizeram saber, em comunicado, que “morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, o seu marido e o amor da sua vida.” O produtor, ator e argumentista, companheiro de vida, morreu a 8 de abril de 2025.
Porquê falar de Marjane Satrapi, ainda que a razão seja o seu desaparecimento? Autora, artista visual e encenadora, iraniana de nascimento, exilou-se em França e é um nome que marcou toda uma geração com a sua obra-prima autobiográfica “Persepolis”, publicada em quatro volumes pela L’Association entre 2000 e 2003, e traduzida em português.
Uma história a preto e branco que se tornou uma obra de culto, onde relata a sua infância em Teerão durante a Revolução Islâmica, a repressão imposta pelo regime dos aiatolas e o doloroso exílio na Europa. O que não se sabia sobre o Irão foi partilhado com o mundo através do traço e do texto de Marjane, que abriu “possibilidades” às mulheres iranianas.
Da banda desenhada passou ao cinema e à pintura. Em 2007, adaptou “Persepolis” para o cinema com Vincent Paronnaud. O filme de animação venceu o Prémio do Júri no Festival de Cannes e dois Prémios César em 2008. “Mesmo que este filme seja universal, quero dedicá-lo a todos os iranianos”, declarou Marjane Satrapi, que nunca deixou de denunciar a violência e censura exercidas pela República Islâmica do Irão.
Nascida a 22 de novembro de 1969 em Rasht, no Irão, chegou a França em 1994 e naturalizou-se francesa em 2006. A sua voz singular fez-se ouvir através de um ‘mix’ de humor negro e de narrativa íntima. Não foi “Persépolis” que levou o seu nome a todo o mundo. Foi “Chicken with Plums” (2004), galardoada com o prémio de melhor álbum no festival de Angoulême em 2005, que depois veio a transformar num filme live-action em 2011. Depois, afastou-se gradualmente da banda desenhada e dedicou-se ao cinema e à pintura.
A galeria Françoise Livinec, em Paris, apresentou em 2020 uma exposição intitulada “Mulheres ou nada”, na qual revelou cerca de quinze pinturas numa gama cromática reduzida e perturbante. Em vermelho, azul, rosa e preto, Marjane Satrapi retratou mulheres de beleza “feroz”, inspiradas pelas memórias da sua infância “para as tornar eternas, para não as esquecer”. Um compromisso inabalável. Palavra de Marjane.
Nos últimos anos, a sua voz tornou-se ainda mais política. Após o assassinato de Mahsa Amini pela “polícia damoralidade”, em setembro de 2022, a artista coordenou uma obra coletiva (Femme Vie Liberté, publicada pela “L’Iconoclaste”) que reuniu investigadores e autores de banda desenhada em apoio à revolta iraniana. A capa, que desenhou na urgência dos acontecimentos, impôs-se imediatamente como uma imagem poderosa: o rosto de uma revolta carregada por mulheres iranianas e um símbolo de solidariedade em todo o mundo.
No início de 2025, Marjane Satrapi recusou a Legião de Honra “por princípio” e como sinal de apoio à juventude iraniana reprimida. “Durante algum tempo, tive mesmo dificuldade em compreender a política da França em relação ao Irão”, confidenciou então. Em fevereiro deste ano, a Académie des Beaux-Arts – da qual era membro desde 2024 na secção de cinema e audiovisual – anunciou a criação da Fundação Matias e Marjane Ripa-Satrapi para o Cinema, destinada a ajudar estudantes estrangeiros que escolham Paris para estudar cinema.
“Persépolis”, essa novela gráfica inesquecível, lembrar-nos-á sempre que Marjane Satrapi transformou a intimidade num ato político.

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