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Soberania e reforma: o nó português

Soberania e reforma: o nó português

As placas tectónicas já se moveram. E, no entanto, persistimos em discutir modelos extintos como se o futuro aguardasse a nossa conveniência. A exigência de reforma deixou de ser matéria de governo para se tornar questão de sobrevivência colectiva, dos sindicatos presos a um paradigma moribundo às empresas que adiam a transformação inevitável. Não está em jogo o conforto de um modelo, mas a soberania, a capacidade de uma nação decidir o seu rumo. E essa capacidade dissolve-se enquanto insistimos em não ver.
O ponto de partida é a demografia, e nela se acumula a falha de décadas. O declínio anunciava-se há trinta anos com a previsibilidade de uma equação. O índice sintético de fecundidade fixou-se em 1,40 filhos por mulher, muito aquém do limiar de substituição de 2,1; o saldo natural foi negativo em mais de trinta e três mil pessoas só em 2024; a idade mediana subiu para 47,3 anos; a população em idade activa poderá recuar de 6,8 para 4,2 milhões até ao final do século. Nada disto surpreende: a ciência fundamentava uma política de Estado que nunca existiu. O Estado soube e preferiu não agir, por falta de vontade, por divergência ideológica, por subordinar sempre o longo prazo ao calendário eleitoral. Pior: as medidas tomadas produziram efeitos inversos aos pretendidos. E uma tendência conhecida, ignorada durante três décadas, torna a fronteira entre negligência e deliberação difícil de traçar.
O envelhecimento, porém, não é só um encargo: é um activo que o país desperdiça. A geração entre os cinquenta e os setenta anos, com saúde e qualificação sem paralelo recente, continua a ser afastada do mercado por reflexos de outra era. O futuro cinzento não é uma sentença, mas uma oportunidade que obriga a tratar a experiência como recurso, não como excedente.
A par desse reaproveitamento, a tecnologia impõe a segunda ruptura. A inteligência artificial, a automatização e a robotização não dispensam as políticas de natalidade e qualificação, mas são a única alavanca com escala para compensar uma força de trabalho que se contrai. O modelo erguido sobre mão-de-obra barata não tem diante de si décadas. Tem anos. Uma economia sofisticada, de elevado valor acrescentado, deixou de ser aspiração para se tornar condição de sobrevivência.
É neste enquadramento que se revela o verdadeiro erro. Não falhou a imigração, falhou a ausência de uma política migratória orientada para a transformação da economia. Em sete anos, a população estrangeira com residência legal passou de 420 mil para mais de 1,5 milhões, de 4% para 15% do total, em larga medida concentrada em sectores de baixa qualificação, sem que se abrissem canais para a imigração qualificada de que o país carecia. E há um efeito perverso e pouco discutido: ao alimentar com trabalho barato os sectores de baixo valor, essa opção aliviou a escassez imediata e reduziu o incentivo para ascender na cadeia de valor. Mitigou as dores do crescimento e adiou o próprio crescimento. Quando a política se abstém de pensar, é a sociedade que paga. E paga duas vezes.
E é aqui que o debate sobre a reforma do Estado revela a sua pequenez. Fala-se de reforma como quem fala de manutenção: digitalizar balcões, fundir organismos, suprimir lugares. São reformazinhas instrumentais perante uma mudança de paradigma que exige repensar o Estado na sua dimensão, nas suas funções e no modo como serve um país com menos gente, mais velha e de base contributiva decrescente. Soma-se um factor sociológico que raramente entra nas contas: não perdemos apenas os jovens que deixam de nascer, perdemos os que temos. A mão-de-obra qualificada é hoje disputada à escala global, e Portugal forma talento que os mercados mais ricos absorvem. Reformar o Estado não é apará-lo nas margens, é reconcebê-lo para um mundo em que o capital humano é escasso, móvel e caro. Quem reduz isto a um exercício de eficiência administrativa não compreendeu o problema.
Todas estas pressões convergem no ponto mais sensível da soberania: a defesa. Uma nação sem jovens bastantes para guarnecer as suas estruturas de segurança não tem alternativa à modernização tecnológica nem à reforma que antecipa o futuro em vez de o sofrer. A premência tem nome e tem data. A guerra na Ucrânia e os conflitos no Médio Oriente não ilustraram tendências: confirmaram rupturas. As Forças Armadas, a doutrina e o paradigma de há dez anos deixaram de ser viáveis na guerra moderna. Portugal conta hoje na ordem dos 25 mil efectivos, menos quase seis mil do que há uma década, e cumpre finalmente os 2% do PIB em defesa. Mas o atraso pode, paradoxalmente, jogar a nosso favor: o desinvestimento profundo deixou as Forças Armadas livres do peso morto de sistemas de comando e controlo obsoletos que, noutros países, travam a modernização. Quem pouco tem para substituir salta directamente para o estado da arte, como Portugal saltou para o Multibanco e a Via Verde sem gerações intermédias. A mesma lógica vale para os sistemas autónomos, os drones e a inteligência artificial. A escassez, bem administrada, converte-se em vantagem.
Resta dizer onde se exerce esta soberania. Não no isolamento, mas num quadro europeu que a limita e amplia. Portugal já não governa sozinho a política migratória, as regras orçamentais ou a arquitectura da defesa, partilhadas entre Bruxelas e a NATO. Não é perda de soberania: é a forma que ela passou a assumir. A soberania inteligente de um país da nossa dimensão não está em simular autonomia plena, mas em concentrar capacidade própria onde ela conta: o Atlântico; a língua; a charneira entre a Europa e o mundo lusófono. O resto exerce-se em coligação. Quem se obstina numa soberania formal e total, sem escala que a sustente, não é soberano. É apenas impotente com boa aparência.
Nada disto é fatalidade. Tudo isto é escolha. O nó português não se desata com paliativos demográficos nem com adiamentos tácticos: desata-se com rupturas em três frentes que conhecemos há muito e há outro tanto adiámos. Uma demografia que valorize quem fica. Uma economia reindustrializada pela tecnologia. Uma defesa à altura da guerra que já chegou. São escolhas politicamente onerosas e estrategicamente inevitáveis. A distância entre uma nação soberana e uma nação administrada por terceiros mede-se pela coragem de as fazer a tempo. E o nosso tempo esgotou-se.

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