Tiago Monteiro: último português nas ruas do Mónaco, na F1 – 20 anos depois
Quando hoje folheamos as páginas do que escrevemos há duas décadas, há momentos que nos saltam imediatamente à vista pela crueza das emoções registadas. Ao relermos a crónica daquele Grande Prémio do Mónaco, de 2006, recordamos a tremenda frustração que cercou a prestação de Tiago Monteiro, o último piloto português a alinhar na grelha do Principado, na Fórmula 1.O texto de então começava por apontar um culpado direto pelo desfecho do fim de semana: Christijan Albers. O seu colega de equipa. Com ‘amigos’ destes, quem precisa de adversários? Logo no arranque, uma manobra intempestiva do holandês deitou por terra as aspirações do piloto luso.
Se recuarmos à análise que fazíamos na altura, percebemos que Monteiro tinha conseguido reagir melhor às luzes vermelhas do que o seu colega de escuderia, que partia imediatamente à sua frente. Estava desenhada a ultrapassagem entre os dois carros da Midland quando Albers guinou subitamente para a direita, colidindo com a dianteira do monolugar do português. O embate danificou a frente do M16 e empurrou Monteiro contra o muro das boxes. Embora a suspensão dianteira direita tenha saído intacta, o atraso na passagem pelo pit lane revelou-se irrecuperável.
Reler as declarações de Tiago Monteiro vinte anos depois é reviver a sua fúria, intocável mesmo duas horas após a bandeirada de xadrez. O artigo transcrevia o seu desabafo desiludido com as ordens de equipa ignoradas. O piloto recordava que o Diretor Desportivo tinha sido claro no briefing: o foco era conter os monolugares da Super Aguri e, acima de tudo, evitar contactos fratricidas. “O que o Albers fez foi uma estupidez”, criticava abertamente o piloto português, lamentando o prejuízo mútuo — a sua paragem forçada para substituir o nariz do carro e a subsequente penalização de drive-through aplicada ao holandês. Ficava o amargo de boca por se estragar uma das raras oportunidades do ano para obter um resultado de relevo, algo que o ritmo em pista parecia validar. A tensão era tal que o artigo notava a recusa de Monteiro em confrontar o colega de equipa a quente, preferindo a frieza dos dados antes de qualquer conversa de que se pudesse arrepender.
O ângulo de análise do artigo original insistia, com propriedade, no potencial desperdiçado, destacando que o piloto português rubricou a 13.ª melhor volta da corrida. Ao relermos esses parágrafos, salta à vista o facto de Monteiro ter rodado no mesmo décimo de segundo de Heidfeld ou Barrichello, e com melhor ritmo do que Ralf Schumacher e David Coulthard — todos eles totalistas de pontos nesse domingo. O próprio piloto reforçava a consistência do equilíbrio do carro ao longo de todo o fim de semana, algures entre a 12.ª e a 15.ª posições, até que o azar na qualificação e os subsequentes tráfego e dobragens deitassem tudo a perder.
O texto detalhava depois a longa e exasperante perseguição a Yuji Montagny. Foram 40 voltas de intensa frustração guardado na traseira do Super Aguri, que fechava todas as trajetórias de forma agressiva. Revisitando a descrição da peça, o desfecho desta batalha acabou por acontecer de forma atribulada na emblemática zona do Casino, após vários toques anteriores em curva. Diante de um erro de Montagny em Massenet, o embate foi inevitável, deixando os monolugares momentaneamente presos. Só após uma travagem decidida é que o português se conseguiu soltar, consumando a ultrapassagem na descida para a Mirabeau. Daí em diante o ritmo voltou a aparecer, mas o relógio e a pista ditaram que aquele 15.º lugar final soubesse a muito pouco.
Olhar hoje para este artigo, com a distância histórica que duas décadas conferem, permite-nos valorizar o olhar clínico e a proximidade de Luis Vasconcelos com os acontecimentos. Mais do que registar uma mera folha de tempos ou uma posição final de tabela, a crónica original conseguiu capturar a volatilidade e a exigência psicológica de se correr nas ruas de Monte Carlo, onde a linha entre um “brilharete” e o anonimato é incrivelmente ténue.Celebrar os 20 anos deste acontecimento através da releitura desta peça não é apenas recordar a última vez que as cores nacionais pisaram o asfalto do Mónaco na categoria rainha; é compreender, pelo filtro do jornalismo da época, como os detalhes e as dinâmicas internas de uma equipa moldam o destino de um piloto na Fórmula 1.
FOTO WRI Images
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