Para Leão XIV visita Espanha e fornece nova vida política a Pedro Sánchez
O Papa Francisco, argentino de nascimento e desaparecido em 21 de abril de 2025, fez 47 viagens apostólicas, visitou 66 países, esteve duas vezes em Portugal, foi contemporâneo do conservador católico e chefe do governo Mariano Rajoy e nunca pisou solo espanhol – algo que os autóctones recordam como uma traição que só se perdoa por ele ser quem era. Foi preciso o norte-americano Robert Francis Prevost ascender ao trono pontifício como Leão XIV para um socialista ateu, Pedro Sánchez, ter tido as artes diplomáticas necessárias e suficientes para convencer o líder do Estado do Vaticano a dar um salto a Espanha.
Não é por certo a mesma Espanha que fervia de catolicismo durante o franquismo, muito menos é o mesmo país que há uns séculos viu os seus monarcas ascenderem à categoria de ‘reis católicos’ e por essa via tomarem conta (pelo Tratado de Tordesilhas) de tudo o que erradamente achavam que seria o melhor do novo mundo (não admira: o Papa que assinou o tratado era um espanhol da família Borgia, Alexandre VI). Mas é com certeza um país que confirma o ascendente que Pedro Sánchez assume no intrincado e mais ou menos enlouquecido mundo diplomático contemporâneo, fator que, para todos os efeitos, não será despiciendo.
A visita dá-se numa altura particularmente difícil para o chefe do governo: a onda de casos de corrupção – entre acusações, perceções e confirmações pelos tribunais – não para de crescer em seu redor, praticamente só deixando incólumes as duas filhas Ainhoa e Carlota, mas não a mãe delas, Begoña Gómez. Acusado de insistir num casamento de conveniência com independentistas moderados e independentistas muito pouco moderados – e por isso tendo pecado por sedição e tentativa de secessão – Sánchez já demonstrou ser capaz de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, para levar até ao fim a legislatura, que começou de uma forma pouco auspiciosa: perdeu as eleições de julho de 2023.
Se tudo correr como está previsto no calendário, falta mais de um ano, não muito, para os espanhóis serem novamente chamados às urnas – a não ser que o líder da oposição conservadora, o galego Alberto Núñez Feijóo, encontre uma forma de o impedir. Ou alguém por ele: está claro para todos que, se se der o caso de o Partido Popular escolher substituir Feijóo por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, a coordenação entre conservadores e extremistas do Vox será ’oleada’ e Pedro Sánchez não resistirá a uma moção de censura que os dois partidos votem favoravelmente. A mesma maioria, afinal, que, se combinada em 2023, teria impedido Sánchez de formar governo.
Pormenores da visita: atenção aos imigrantes
“É uma visita a todos, não apenas para os católicos praticantes. Numa agenda repleta de eventos e encontros, públicos e privados, Leão XIV aproveitará a visita para fazer o que o ser Papa lhe exige: ser pontífice, construtor de pontes. Pontes que se constroem por meio do diálogo, da cultura do encontro, e assim encontram aquilo que nos une àqueles que estão ao nosso lado.” É desta forma que o ‘Vatican News’ apresenta a visita de Leão XIV a Espanha. E continua: “autoridades civis, políticos de diferentes orientações políticas e religiosas, pessoas comuns, inclusive de outras crenças, jovens das mais diversas origens, católicos praticantes, seus irmãos agostinianos, representantes de uma sociedade e de um universo cultural cada vez mais diversos, multirracial e multicultural, bispos, paroquianos, voluntários e tantos outros que, mesmo sem constar na agenda oficial, ocuparão o tempo e a atenção do Santo Padre”.
Leão XIV chega a meio da manhã deste sábado a Madrid e depois visitará Barcelona e as ilhas de Las Palmas e as Grandes Canárias. Haverá por lá muitos católicos praticantes? Possivelmente sim, mas o foco do Papa reside no facto de o arquipélago das Canárias se ter tornado num dos caminhos mais usados e perigosos para quem foge de África em direção à Europa. Para que não restem dúvidas sobre as intenções do Papa, Leão XIV visitará o Porto de Arguineguín, que se tornou o grande símbolo da chegada de barcos de imigrantes e refugiados a uma Europa que se armou de todas as leis possíveis e imaginárias para os lançar de regresso ao mar – com ou sem colete salva-vidas, isso é problema deles! O líder da Igreja Católica vai fazer uma homenagem àqueles que morreram tentando chegar ao lugar de todas as promessas de felicidade: a mesma Europa que tentou transformar o cristianismo apostólico num movimento católico (ou seja, universal), mas que disso frequentemente se esquece.
Antes disso, um dos momento mais aguardados será a missa que Leão XIV conduzirá na ‘inexplicável’ igreja da Sagrada Família – um dos fenómenos mais impressionantes do génio humano na disciplina da arquitetura. Muitos espanhóis querem beatificar Antoni Gaudí, o arquiteto ‘inicial’ da basílica – também conhecido como o Arquiteto de Deus’. A vontade não é recente: Gaudi está oficialmente no caminho para se tornar santo da Igreja Católica e os espanhóis mais fervorosos esperam notícias sobre a matéria. No dia 14 de abril de 2025, uma semana antes da sua morte, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, e autorizou a promulgação do decreto relativo as virtudes heroicas de Antoni Gaudí, que passou a venerável. Morreu aos 73 anos, em 1926, vítima de um atropelamento por um elétrico. Diz a lenda que costumava andar tão andrajoso que só foi reconhecido muito depois de ter chagado ao hospital.
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