BDA quer promover independência face ao exterior
O encontro anual do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, que teve lugar durante cinco dias em Brazzaville, capital do Congo, levou Conselho de Governadores a lançar as bases daquilo a que chamaram os ‘Quatro Pontos Cardeais’. A saber: melhoria do acesso ao capital – focado em mobilizar os recursos financeiros internos e internacionais do continente; reformar e consolidar os sistemas financeiros – destinado a reestruturar as instituições financeiras e alinhar as suas estratégias num desenvolvimento comum; aproveitar a transformação demográfica, no quadro de uma população jovem; e construir infraestruturas resilientes, sustentáveis, geradoras de valor e adaptadas às alterações climáticas.
Liderada por Sidi Ould Tah (economista mauritano e especialista em financiamento para o desenvolvimento), desde maio de 2025, a instituição apresentou as grandes linhas de força de cada um dos pilares estratégicos, todos eles dirigidos ao aumento da autonomia do continente africano e à exploração autóctone dos recursos naturais, que são tradicionalmente capturados por países terceiros.
A Implementação do acesso ao capital financiamento pretende combinar empréstimos concessionais com capital privado para mitigar riscos e atrair investidores que ainda não se aproximaram do continente. A instituição pretende acelerar a emissão em larga escala de novos instrumentos financeiros no mercado internacional de capitais para captar recursos dedicados exclusivamente a metas de sustentabilidade. Neste contexto, o banco quer aumentar as parcerias com o Médio Oriente – utilizando a experiência prévia do próprio presidente – para canalizar os fundos soberanos e investidores árabes em direção a projetos africanos.
Sistema financeiro novo
Os responsáveis do banco sabem que esse grande plano não será possível sem ter como pano de fundo a reforma dos sistemas financeiros. Para isso, a proposta passa pelo reforço dos bancos de desenvolvimento locais, nomeadamente através da implementação de programas de assistência técnica e financeira para robustecer o capital de instituições financeiras regionais e subregionais. Em paralelo, pretende-se a criação de redes conexas: por via da digitalização e integração dos ecossistemas de pagamentos entre países para facilitar as trocas comerciais transfronteiriças, apoiando diretamente a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA).
O aproveitamento da demografia numa das poucas regiões do globo que não está a envelhecer passa pelo incentivo ao surgimento de PMEs e de start-ups, nomeadamente com a criação de linhas de crédito acessíveis e programas de mentoria especificamente desenhados esse tipo de empresas pequenas e médias empresas e para a liderança feminina. Como não podia deixar de ser, a economia digital e as tecnologias terão um foco especial, com investimento massivo na formação tecnológica e na infraestrutura de internet
Finalmente, a construção de Infraestruturas passará pela monetização de ativos públicos, ou seja: a transformação de ativos públicos em capital, gerando financiamento para novas infraestruturas sem aumentar a dívida soberana dos países. As cadeias de valor locais também serão importantes – no sentido em que a ideia de base é o fim do financiamento de exportação de matéria-prima bruta e a sua substituição pelo apoio a projetos globais, garantindo que a riqueza permaneça no continente.
Agilidade interna
O encontro ficou também marcado pelo apoio da hierarquia do banco às propostas de Sidi Ould Tah para as reformas institucionais internas empreendidas para tornar a instituição mais ágil, mais flexível e mais próximo dos beneficiários em toda a África.
“O Conselho de Governadores aprovou e encorajou o presidente do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, Sidi Ould Tah, a implementar a sua visão, ‘os Quatro Pontos Cardeais’, para reforçar a capacidade de ação e influência de África num mundo cada vez mais fragmentado”, afirmou o ministro da Economia, Planeamento, Estatística e Previsões da República do Congo, Ludovic Ngatsé, também presidente do Conselho de Governadores do Grupo Banco, citado por comunicado oficial da instituição.
Na sua intervenção, Ould Tah afirmou que “serão as decisões políticas ousadas que farão a diferença no terreno”. Em Brazzaville “pusemos em marcha uma dinâmica de ação, uma dinâmica de transformação, uma dinâmica de integração”, salientou. Cerca de quatro mil participantes de mais de 81 países participaram no encontro anual.
O encontro anual foi também marcado por vários anúncios importantes. Angola anunciou uma contribuição de 6,5 milhões de dólares para a 17.ª reposição do Fundo Africano de Desenvolvimento (FAD), elevando para 25 o número de países africanos que financiam aquele instrumento, com um total superior a 190 milhões de dólares. Foram ainda angariados mais de 3 mil milhões de dólares em compromissos para o Fundo Azul da Bacia do Congo, destinado a apoiar 17 países africanos na conservação ambiental e no desenvolvimento sustentável.
Foram assinados numerosos acordos no âmbito da operacionalização da nova visão estratégica Quatro Pontos Cardeais do Banco, bem como durante uma reunião de alto nível sobre o Programa Integrado de Transformação da Aviação em África (IATP) e o Mecanismo Africano para Medicamentos e Equipamento Médico (AMEF). O Japão anunciou um financiamento de 10 milhões de dólares para a implementação do IATP.
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