MEMÓRIA: François Delecour, os Receios de Lousada e o Paraíso do Rali de Portugal
Já lá vão mais de três décadas. Corria o ano de 1994 e a primavera trazia consigo a mística inconfundível de uma das provas mais carismáticas do automobilismo mundial, o Rali de Portugal. Naquela época de ouro, o fumo das fogueiras misturava-se com o odor a óleo e a gasolina nas bermas das estradas portuguesas, e os monstros do Grupo A desafiavam as leis da física perante multidões fervorosas.
François Delecour, o irreverente e talentoso piloto francês, vivia um momento particular da sua carreira, dividida entre a velocidade pura e a necessidade de domar o icónico Ford Escort oficial. Nesses dias que antecediam a grande partida, enquanto os seus colegas de equipa preferiam fixar-se em Arganil para afinar as máquinas, Delecour trilhava um caminho diferente.Ele já tinha acumulado quilómetros no Escort antes mesmo do Rali de Monte Carlo, pelo que optara por antecipar o quartel-general no ambiente costeiro e descontraído da Figueira da Foz. Foi precisamente ali que o encontrámos, focado e ciente das duras exigências que começariam na quarta-feira seguinte. Para o piloto gaulês, regressar a Portugal nunca seria um compromisso meramente profissional.
Olhando para o desafio que tinha pela frente, o piloto disparava: “Não me posso esquecer que foi em Portugal que consegui a primeira vitória no Mundial e por isso a prova tem um grande valor sentimental para mim. Gosto bastante destes pisos todos em terra, mas não posso deixar de lamentar a supressão dos belos troços de asfalto, sobretudo porque investi muito tempo ao longo de quatro anos a preparar essas provas.” Analisando o novo figurino desenhado para aquela edição, o piloto considerava que, na sua generalidade, “os novos troços de terra são bastante interessantes, à excepção de Figueiró que, na sua opinião, “é muito lento.”
Contudo, no cômputo geral, mostrava-se satisfeito por a alteração lhe dar a oportunidade de evoluir no cascalho: “Mas, no fundo, estou contente com esta alteração, já que isso me vai permitir ao menos fazer um pouco de provas de terra, já que normalmente a minha experiência nesse terreno em Portugal não é muito grande…”
O fantasma de Lousada e a armadilha da sobrevivênciaNo entanto, o novo desenho do rali colocava um obstáculo específico na rota dos concorrentes, forçando-os a passar duas vezes pelo traçado de Lousada. Diante deste cenário, o francês desvendava uma faceta surpreendente ao confessar que estivera a um passo de nem sequer treinar aquele troço.O piloto explicava que só à última hora, movido por remorsos, decidira fazer uma única passagem de reconhecimento pela pista. À data, Delecour confessava abertamente o seu plano de ação para a super especial: — “Bem, devo confessar que estive a um passo de não treinar o troço. Depois fiquei com remorsos e acabei por fazer uma passagem. Mas este ano posso perder cinco segundos, mas de certeza que irei bastante devagar, pois tenho imenso receio do troço!” Pudera, face aos problemas que lá teve nos anos anteriores…
Esta cautela estendia-se à fase terminal do dia de abertura, consensualizada pela caravana como a mais crítica de todo o rali. Alinhado com a opinião da maioria, Delecour manifestava sérias dúvidas sobre a viabilidade de se conduzir a fundo no trio de troços que encerrava a etapa, precisamente onde os regulamentos proibiam qualquer tipo de assistência mecânica.O piloto não escondia os seus receios ao afirmar textualmente: — “O primeiro dia vai ser muito difícil, mas tenho muito receio dos últimos três troços. Interrogo-me mesmo se podemos andar a fundo nessa zona, onde a assistência está proibida. Há que adoptar um ritmo cauteloso e utilizar muito a cabeça. Quem quiser arriscar e tentar fazer um tempo poderá sofrer as consequências da sua ousadia.”
Favoritos, ratoeiras e a logística singular em PortugalInstado a analisar a concorrência direta na luta pela vitória, o gaulês traçava um mapa de favoritos muito claro onde incluía o espanhol Carlos Sainz e os finlandeses Juha Kankkunen e Didier Auriol, além de se colocar a si próprio no topo das escolhas. Fora deste lote restrito ficava o jovem e impetuoso Colin McRae.O piloto da Ford justificava a exclusão do escocês com as condições meteorológicas e o peso da maturidade ao volante: — “Se o piso estiver seco, ainda pode fazer alguma coisa, mas se chove as ratoeiras são tantas que dificilmente escapará a uma.Trata-se de uma prova em que a experiência conta muito.” No que tocava ao comportamento do próprio Escort, Delecour adiantava que as dificuldades seriam severas se o céu decidisse abrir as comportas, deixando um aviso técnico sobre as novidades da viatura: — “É certo que desde Monte Carlo temos uma nova geometria de suspensão e isso poderá ajudar bastante, mas de qualquer forma a situação não será fácil com chuva.”A fechar o encontro antes das primeiras classificativas, o francês exibia uma invulgar frescura física, contrastando com o desgaste visível da concorrência após longas jornadas de reconhecimentos.O segredo, revelou-o na primeira pessoa, prendia-se com uma abordagem logística revolucionária: — “Consegui autorização por parte da Ford para treinar com ‘motorhome’ e cozinheira, pelo que não perdia tempo em restaurantes. Bastava uma curta paragem e podia deliciar-me com uma excelente refeição.Ora, isto é muito importante quando se tem apenas sete dias para treinar.”
Delecour terminava com uma reflexão profunda, misturando um lamento com um rasgado elogio à envolvência do público português e à essência dos ralis: — “E é pena que não tenhamos mais tempo para ir aos restaurantes locais, conviver com as pessoas, para mais num país em que um piloto se sente acarinhado, mesmo encorajado.Há que deixar os ralis nos países que gostam da modalidade e não os ir disputar para locais que apenas levantam dificuldades, como regra geral acontece no norte da Europa. Em Portugal, estamos no paraíso!”
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