Sem títulos ao volante, gigante fora dele: a história de Malcolm Wilson nos ralis
Malcolm Wilson: o passado, presente e futuro de uma figura-chave do WRC, um homem que ajudou a moldar o WRC moderno…
Sem nunca ter conquistado um título mundial ou uma vitória no WRC como piloto, Malcolm Wilson tornou-se numa das figuras mais influentes da história dos ralis. Da sucata da família em Cumbria ao comando da M-Sport e, mais recentemente, aos corredores de poder da FIA, o britânico construiu um legado que ultrapassa os resultados em estrada e ajuda a explicar a evolução moderna do Campeonato do Mundo de Ralis.Os seus números ao volante dizem pouco sobre a verdadeira dimensão da sua carreira. Se como piloto ficou longe do estrelato estatístico, como dirigente, empresário e visionário transformou a M-Sport numa referência do WRC e consolidou-se como um dos homens que mais moldaram o presente — e poderão definir o futuro — dos ralis mundiais.
No panorama do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), poucos nomes reúnem tanto consenso em termos de perseverança e visão estratégica como o britânico Malcolm Wilson. Nascido a 17 de fevereiro de 1956, o antigo piloto e icónico diretor da M-Sport construiu um percurso singular na modalidade.Embora o seu registo estatístico oficial enquanto piloto contabilize zero títulos mundiais, zero vitórias e apenas dois pódios em 43 provas do Mundial de Ralis, além de 29 vitórias em troços, estes números traduzem apenas a primeira metade de uma vida dedicada à competição, cuja influência explodiu verdadeiramente quando passou a ditar as ordens a partir das ‘boxes’ do WRC.O seu último evento oficial como piloto no campeonato remonta ao Rali da Grã-Bretanha (RAC Rally) de 1995, momento que encerrou uma fase técnica para dar lugar a uma das maiores potências de engenharia do desporto automóvel.
Início de Carreira e Paixão pelo AutomobilismoA paixão de Wilson pelo automobilismo manifestou-se muito cedo, alimentada pelo ambiente familiar, uma vez que os seus pais geriam uma sucata de automóveis. Foi nesse espaço que, logo aos 8 anos de idade, aprendeu a conduzir utilizando os veículos antigos que ali davam entrada.A determinação e a ambição que o caracterizariam ao longo da vida já eram visíveis na juventude; para evitar as aulas na escola, o jovem Malcolm chegava a fazer a manutenção dos automóveis dos professores e do próprio mini-bus escolar.
Sem antecedentes no desporto por parte da família, a introdução nos ralis deu-se em simultâneo para todos, impulsionada pelo negócio. Por insistência da mãe, Wilson frequentou aulas de navegação e competiu como copiloto em ralis nacionais até ter idade legal para guiar.No entanto, o seu foco esteve sempre na condução e, quando os carros avariavam nas florestas, ansiava que o problema fosse resolvido para receber autorização do piloto e conduzir no regresso. Aos 14 anos, estreou-se no autocross com um Mini Cooper acidentado e, logo aos 17 anos, realizou o seu primeiro rali oficial, terminando num positivo 13.º lugar da geral e vencendo a classe, apesar de ter capotado no último troço.
Transição de Piloto para Gestor e EmpresárioA transição de piloto para gestor e empresário começou a desenhar-se cedo, com a fundação da sua própria empresa, a Malcolm Wilson Motorsport, em 1979, quando tinha apenas 23 anos.Durante muito tempo, Wilson tentou conciliar a exigência de gerir uma estrutura empresarial com as funções de piloto ao mais alto nível. Apesar de reconhecer que essa acumulação de tarefas o impediu de atingir o palmarés que desejava na estrada, o britânico alcançou momentos de grande relevo.O ponto mais alto da sua carreira de piloto aconteceu no RAC Rally de 1993, quando conquistou um celebrado terceiro lugar da geral aos comandos de um Ford privado da sua equipa independente, patrocinado pela Michelin Pilot, intrometendo-se e batendo vários carros oficiais de fábrica.Wilson tinha estipulado a meta pessoal de abandonar as competições aos 40 anos de idade para se dedicar em exclusivo aos negócios.O cumprimento desse plano permitiu-lhe focar toda a energia na expansão da estrutura técnica e encontrar uma satisfação profissional muito superior àquela que obteve enquanto piloto.
A Criação da M-Sport e a Parceria com a FordSob a sua direção, a Malcolm Wilson Motorsport transformou-se na M-Sport e iniciou-se uma bem-sucedida ligação à Ford. Entre 1993 e 1995, a equipa privada celebrou a conquista de 11 campeonatos regionais pelo mundo.O sucesso chamou a atenção da marca do oval azul, que em 1996 propôs a Wilson a gestão do programa oficial no WRC, sob a condição de mudar a estrutura para Boreham.
Wilson chegou a aceitar os termos mas, após refletir num domingo à noite, decidiu recusar a proposta por acreditar que seria perfeitamente capaz de gerir uma equipa de fábrica a partir da sua região natal, em Cumbria. O contrato definitivo acabou por ser assinado quando a estrutura de Wilson provou o seu valor ao bater os carros oficiais da própria Ford no Rali da Finlândia, com o piloto Jarmo Kytölehto a terminar no pódio.Na altura, a M-Sport contava apenas com 18 funcionários que, ao serem convocados de surpresa para celebrar com champanhe, temeram inicialmente que a empresa fosse fechar ou que seriam despedidos.
A parceria oficial começou sob forte pressão, exigindo semanas de trabalho intensivo e sem descanso entre o Natal e o Ano Novo para preparar a estreia no Rali de Monte Carlo. Um dos primeiros grandes testes operacionais envolveu a gestão das exigências do conceituado piloto Carlos Sainz, com quem Wilson desenvolveu uma excelente relação de respeito mútuo após momentos iniciais de grande tensão, celebrando uma histórica dobradinha no Rali da Indonésia de 1996.
Anos de Ouro, Colin McRae e Títulos MundiaisOs anos de ouro da estrutura consolidaram-se com a introdução do Ford Focus e a contratação de Colin McRae.As negociações com a família McRae foram facilitadas pela longa ligação entre Wilson e Jimmy McRae, pai de Colin, que se tinham estreado no mesmo rali em 1974.Impulsionada pelo forte investimento financeiro da Ford, a contratação de Colin McRae proporcionou momentos inesquecíveis à equipa. Wilson recorda, com humor, um episódio em que recebeu uma chamada telefónica de Colin a meio de um rali, em 1998, onde o piloto exigia que o futuro Focus utilizasse um tubo de escape de maior diâmetro do que o do Escort para garantir a sua assinatura.O auge desta era ao nível de construtores materializou-se em 2006, com a conquista do título mundial na Nova Zelândia através de Marcus Grönholm. Esta vitória teve um sabor dramático e especial, dado que, no final de 2004, a Ford esteve muito perto de abandonar o campeonato mundial, tendo Wilson conseguido inverter a decisão após negociar diretamente um novo rumo com o presidente da marca e avançar para o desenvolvimento da nova geração do Focus.
Mais tarde, a equipa viveu um dos seus capítulos mais brilhantes com a chegada de Sébastien Ogier, integrando aquilo que Wilson classificou como uma autêntico “Dream Team”.Wilson recorda Ogier como um profissional impecável e um negociador implacável, ao ponto de admitir, em tom de brincadeira, que o francês seria o homem ideal para gerir a M-Sport no futuro. Para assegurar o piloto em 2017, Wilson optou por abdicar de viajar para o Rali da Austrália, focando-se em Cumbria na engenharia financeira do contrato e na preparação de um teste privado com o novo carro, concebido a partir de uma folha em branco.A aposta foi amplamente recompensada com a conquista dos títulos mundiais de pilotos e construtores em 2017 e 2018. Nessa fase áurea, a M-Sport reuniu na mesma estrutura três dos melhores pilotos da atualidade — Sébastien Ogier, Ott Tänak e Elfyn Evans —, um alinhamento de luxo que potenciou a evolução mútua dos atletas sob a tutela rigorosa de Wilson.
Marcus Gronholm celebrates winning the 2006 Monte Carlo Rally with M-Sport boss, Malcolm Wilson (L) and Chief designer Christian Loriaux (R). Sunday, 22nd January 2006.
“Tratamento de secador de cabelo” a LatvalaApesar dos múltiplos sucessos, o percurso no WRC também ficou marcado por desilusões profundas, sendo o caso de Jari-Matti Latvala um dos mais evidentes. O rali que melhor ilustra essa frustração desportiva ocorreu na Polónia, em 2009.A M-Sport detinha as duas primeiras posições asseguradas, com Mikko Hirvonen na liderança e Latvala em segundo lugar, tendo a equipa técnica se deslocado para a berma da super especial final, mesmo ao lado do parque de assistência, para festejar a dobradinha.No entanto, a poucos metros do fim, Latvala cometeu um erro e bateu violentamente contra uma barreira, deitando a perder o resultado. Wilson assume que esse foi um dos piores momentos da sua carreira e que o piloto finlandês recebeu uma reprimenda fortíssima e extremamente tensa, apelidada de “tratamento de secador de cabelo”.Embora reconhecesse a velocidade pura de Latvala, Wilson lamentou que os pequenos erros sistemáticos e a tendência para guiar acima do limite do próprio carro tivessem impedido o piloto de se sagrar campeão do mundo.Confrontado sobre a ausência de ordens de equipa a favor de Hirvonen em anos em que este perdeu o título por apenas um ponto para Sébastien Loeb, Wilson admitiu que hoje agiria de forma diferente, mas recusou prender-se a arrependimentos do passado.
A paixão como força motriz de uma carreiraO legado de Malcolm Wilson no WRC confere-lhe o estatuto de uma autêntica força motriz do desporto automóvel, cuja influência se estendeu à formação e crescimento de várias gerações de pilotos de elite.Apoiado de forma indefectível pela sua família — desde a esposa Elaine na gestão da M-Sport até à sua mãe Pearl, que arquivava todos os recortes de jornal e ajudava na área de hospitalidade do parque de assistência —, Wilson transformou a equipa de Cumbria num símbolo de paixão, dedicação e engenharia de precisão.A sua capacidade única para descobrir talentos e mantê-los competitivos perante construtores com recursos financeiros muito superiores garantiu-lhe o respeito e a admiração global dos adeptos, solidificando a imagem de um líder obstinado que moldou o panorama moderno dos ralis mundiais.
Vice-Presidente da FIA Malcolm Wilson assumiu recentemente um cargo de enorme relevância na FIA, sendo o atual Vice-Presidente Adjunto para o Desporto (Deputy President for Sport) numa função considerada o segundo cargo mais importante no desporto automóvel mundial de provas de estrada.Tem vindo a trabalhar no futuro dos ralis, e aos 70 anos está a caminhar para se tornar numa das figuras mais relevantes da história dos ralis sendo que o seu trabalho atual e no futuro próximo é de capital importância para o Mundial de Ralis, pois entre as suas principais responsabilidades e ações na federação, destacam-se o novo promotor para o WRC, contribuir para reestruturar a vertente comercial e mediática da competição, a expansão estrutural do calendário, pois Wilson está diretamente envolvido no regresso do WRC a mercados estratégicos como os Estados Unidos.Movido pela sua paixão de uma vida, o seu foco principal na FIA passa por injetar a sua vasta experiência desportiva e empresarial para fazer o WRC atingir o seu potencial máximo, aproximando a federação das equipas e construtores. E acumula estas funções de alta diplomacia desportiva e regulamentar na FIA com a gestão contínua da sua própria empresa, a M-Sport, em Cumbria. Os ralis devem-lhe imenso.
FOTOS Arquivo AutoSport/Martin Holmes Rallying; WRI Racing Images
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