24h Le Mans: A última dança da Alpine
A Alpine chega a Le Mans 2026 com a sensação agridoce de fim de ciclo: quando o projeto A424 começava a ganhar tração e consistência, a casa-mãe decidiu pôr um ponto final no programa Hypercar no final desta temporada. A edição deste ano é, por isso, mais do que uma corrida… É a última oportunidade de mostrar o que este projeto poderia ter sido a longo prazo.
A marca de Dieppe sabe o que é vencer em La Sarthe. Em 1978, o Renault-Alpine A442B de Didier Pironi e Jean-Pierre Jaussaud deu à Alpine a vitória absoluta nas 24 Horas de Le Mans, batendo os então dominantes Porsche. Décadas mais tarde, já sob a batuta da Signatech, a Alpine voltou às luzes da ribalta com vários títulos em LMP2 e vitórias de classe em Le Mans, em particular com o A470, consolidando-se como uma das referências da categoria intermédia.
O regresso ao topo com o A424, em 2024, foi a extensão natural dessa trajetória: um protótipo LMDh com chassi Oreca, motor V6 3,4 litros turbo Mecachrome. Depois de um ano de aprendizagem, 2025 trouxe os primeiros sinais claros de competitividade; 2026 é, assumidamente, a temporada de despedida com ambição de fechar o capítulo em alta.
Evo “joker” e última temporada
Para 2026, a Alpine introduziu uma atualização aerodinâmica significativa no A424, recorrendo a um joker regulamentar para trabalhar sobretudo o equilíbrio em curva rápida e a eficiência do fundo plano. Visualmente, as alterações são subtis: um refinamento de entradas de ar, superfícies da carroçaria e detalhes na secção traseira. Mas o objetivo é claro: aumentar o downforce sem comprometer a velocidade em reta, numa fase em que já não há margem para revoluções técnicas.
First test day at Le Mans! 📈 Back on the most iconic straight in motorsport. 🇫🇷 pic.twitter.com/2E4m7ruyfg
— Alpine Endurance Team (@AlpineWECteam) June 7, 2026
Line-ups: mistura de experiência e sangue novo
A Alpine optou por manter a espinha dorsal desportiva e reforçar o projeto com nomes fortes. Destaca-se a entrada de António Félix da Costa para o projeto, regressando ao topo da resistência, infelizmente para um projeto que chega ao fim, apesar do seu potencial.
Carro n.º 35— António Félix da Costa, Charles Milesi, Ferdinand Habsburg
Carro n.º 36— Victor Martins, Frédéric Makowiecki, Jules Gounon
Imola: primeiro aviso sério
Com o cancelamento do Qatar, Imola acabou por abrir a temporada 2026 e ofereceu à Alpine um arranque que, sem ser perfeito, foi sólido. O A424 mostrou desde cedo um baseline competitivo, com bom ritmo em long runs e capacidade para acompanhar o grupo da frente.
Na corrida, o carro n.º 35 de Félix da Costa, Milesi e Habsburg assinou um resultado forte: 4.º lugar absoluto, na esteira dos dois Toyota e do Ferrari n.º 51. Mais do que o resultado, a forma como a equipa se manteve de forma consistente no top 5, gerindo pneus e estratégia sem erros de relevo, foi um sinal positivo para o resto do campeonato.
O n.º 36, com Makowiecki, Gounon e Martins, concluiu em 11.º, uma volta atrás, penalizado em fase de Full Course Yellow e com alguns erros na execução da prova. Ainda assim, o ritmo em pista, sobretudo em stints de Gounon e Martins, confirmou que a Alpine tem dois carros capazes de andar na primeira metade da tabela em condições normais.
Spa: ritmo para pódio, resultado frustrante
Se Imola mostrou consistência, Spa-Francorchamps provou que o A424 já tem armas para pensar em pódios, mesmo que a folha de resultados não o mostre ainda.
Nos treinos livres, o n.º 36 foi o carro mais rápido em pista numa das sessões, liderando a tabela de tempos no TL2, enquanto o n.º 35 andou sempre no grupo dos Hypercar mais competitivos. Na qualificação e Hyperpole, Charles Milesi colocou o #35 no topo em vários momentos e acabou por assegurar o 3.º tempo, a apenas 0,078 segundos da pole, com Jules Gounon a cravar o 4.º melhor registo e a garantir uma segunda linha totalmente Alpine.
A corrida, contudo, não recompensou esse nível de performance. Em pleno caos típico de Spa, o n.º 36 acabou em 11.º, colado ao Toyota #8, completando as mesmas 151 voltas que o vencedor BMW, mas sem nunca ter oportunidade clara de converter o ritmo em ataque ao pódio, com um safety car a afastar a tripulação do topo da tabela. O n.º 35 de Félix da Costa, que chegou a rodar em 5.º e estava na luta pelo pódio. Mas um erro do piloto luso, com pneus frios, no último recomeço atirou o carro em pião no topo da Raidillon, impossibilitando o bom resultado que se antevia.
Ainda assim, tanto a análise interna da Alpine como as leituras externas convergem: o pacote A424 deu um passo claro em frente em Spa, em particular em termos de ritmo em volta única e consistência em stints longos. A contabilidade de pontos não reflete o verdadeiro valor do conjunto.
Le Mans 2026: última oportunidade para um grande resultado
Com Imola e Spa como referência, a Alpine chega a Le Mans com um quadro curioso: resultados modestos na folha oficial, mas dados encorajadores ao nível de ritmo, gestão de pneus e execução operacional. O joker aerodinâmico de 2026 parece ter dado ao A424 argumentos para chegar ao topo e em Le Mans a equipa francesa quererá extrair todo o potencial do carro.
A pressão é grande. A marca sabe que este é o fim da linha para o A424 (pelo menos com as cores da Alpine), e todos dentro da estrutura têm consciência do simbolismo de assinar um grande resultado em casa na última presença desta geração Alpine Hypercar. Com Félix da Costa, Milesi e Habsburg num carro claramente capaz, e com o trio francês do #36 a mostrar armas para surpreender em qualificação e race pace, a Alpine aparece em 2026 como outsider sério: não é favorita natural à vitória, mas tem argumentos suficientes para aproveitar qualquer deslize dos gigantes.
Foto: Philippe Nanchino
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