24h Le Mans: Muito mais do que duas voltas ao relógio
Já longe vão os tempos em que os egípcios encontraram a forma de dividir o dia. Em que o tempo era medido avaliando a posição de uma estaca no chão e que a noite era medida pelos 12 grupos de constelações que serviram de referência. Esses 12 grupos noturnos, por uma questão de simetria, dividiram também o dia em 12. 24 horas que passaram a ser a referência de uma espécie que insiste em sonhar com um mundo diferente e que torna esses sonhos realidade. Cada 24 horas conta uma história, tem um tema principal, serve de referência para as próximas 24 horas ou as anteriores. Em 24 horas tudo é possível… até inscrever o seu nome na história, para sempre.
É esse desafio que 186 pilotos inscritos, divididos por 62 máquinas, voltam a assumir entre os dias 13 e 14 de junho: o desafio de percorrer o maior número de quilómetros no mítico traçado de La Sarthe, em Le Mans, cidade que empresta o seu nome a uma das provas mais exigentes, prestigiantes e desejadas do mundo do motorsport.
Era das Origens (1923–1939): A Ideia que Mudou o Automobilismo
A corrida nasceu de uma convicção. Georges Durand, secretário-geral do Automobile Club de l’Ouest, o jornalista Charles Faroux e Émile Coquille (representante francês da marca britânica Rudge-Whitworth) acreditavam que os automóveis da época não cumpriam o que prometiam: frágeis, pouco fiáveis, distantes das promessas dos fabricantes. A solução foi radical: criar uma prova de resistência de 24 horas em estradas públicas, junto à cidade de Le Mans. A organização coube ao Automobile Club de l’Ouest, fundado em janeiro de 1906.
A primeira edição realizou-se nos dias 26 e 27 de maio de 1923, com 33 automóveis à partida. André Lagache e René Léonard venceram ao volante de um Chenard & Walcker, cobrindo 2.209,536 km a uma média de 92,064 km/h. A largada à maneira de Le Mans, com os pilotos a correr para os carros dispostos do lado oposto da pista, estreou-se em 1925. Os britânicos da Bentley marcaram os anos seguintes, vencendo em 1924 e, mais tarde, assinando um histórico tetracampeonato consecutivo entre 1927 e 1930. A Alfa Romeo impôs-se no início dos anos 30 com os 8C que também venceram quatro de seguida. A prova não se realizou em 1936 devido a uma greve geral em França, e seria interrompida pela Segunda Guerra Mundial entre 1940 e 1948.
It’s a legendary race, the one and only @24hoursoflemans… We’re fired up and ready for the challenge 👊#TOYOTARACING #WEC #TR010HYBRID #LeMans24 @FIAWEC pic.twitter.com/Yf2uOiMdFS
— TOYOTA RACING WEC (@ToyotaRacingWEC) June 5, 2026
A Era dos Construtores Europeus (1949–1959): Jaguar, Ferrari e o Ano Mais Negro
O regresso após a guerra trouxe novas marcas e novos heróis. A Ferrari venceu logo em 1949, com Luigi Chinetti e o aristocrata britânico Peter Mitchell-Thomson. A Jaguar emergiu como força dominante nos anos 50: o C-Type venceu em 1951 e 1953, e o D-Type triunfou em 1955, 1956 e 1957.
Mas 1955 ficou marcado pela maior tragédia da história do automobilismo. No dia 11 de junho, o Mercedes-Benz 300 SLR de Pierre Levegh foi projetado sobre o público após uma colisão com o Austin-Healey de Lance Macklin. O carro de Levegh desintegrou-se e explodiu ao embater nas bancadas, matando o piloto francês e mais de 80 espetadores. Já na madrugada do dia 12, por respeito às vítimas, a Mercedes retirou os seus restantes carros da corrida, uma ausência da maratona francesa que duraria décadas, até a marca regressar oficialmente ao desporto de resistência nos anos 80 em parceria com a Sauber. A corrida de 1955 não foi interrompida e acabou por ser vencida por Mike Hawthorn e Ivor Bueb. Foi o pior dia que o desporto alguma vez viveu, e Le Mans carregou esse peso durante gerações.
A Aston Martin conquistou a sua única vitória global em 1959, com Carroll Shelby e Roy Salvadori ao volante do DBR1.
A Era Ferrari e a Guerra Ford-Ferrari (1960–1969): Quando a Raiva Venceu
A entrada nos anos 60 pertenceu inteiramente à Scuderia. A Ferrari venceu de 1960 a 1965, com seis vitórias consecutivas. Mas em 1963, Henry Ford II tentou comprar a Ferrari e quando o negócio parecia concluído, Enzo Ferrari recuou à última hora. Ford, humilhado, jurou vingança e investiu uma fortuna no desenvolvimento do GT40 com um único objetivo: derrotar os italianos em Le Mans. Em 1966, após duas tentativas falhadas, a Ford varreu a concorrência: o GT40 Mk II de Bruce McLaren e Chris Amon venceu, com a marca a fechar o pódio completo em primeiro, segundo e terceiro lugar. A Ford venceu ainda em 1967, 1968 e 1969, cumprindo cabalmente a missão que nascera de uma acesa discussão de negócios.
A Era Porsche, o Grupo C e a Transição de GTs (1970–1999)
Com a entrada nos anos 70, a Porsche começou a construir a sua lenda em La Sarthe. A primeira vitória à geral chegou em 1970, com Richard Attwood e Hans Herrmann ao volante do icónico 917. A Matra-Simca dominou entre 1972 e 1974, mas foi com os Porsche 956 e 962C que a corrida conheceu uma era de domínio absoluto entre 1982 e 1987.
O Grupo C gerou máquinas extraordinárias e duelos inesquecíveis. O Jaguar XJR-9 venceu em 1988 e 1990; a Sauber-Mercedes regressou ao topo com uma vitória categórica em 1989. Em 1991, a Mazda escreveu um capítulo único: o 787B, com o seu estridente motor rotativo de quatro rotores, tornou-se o primeiro carro japonês a vencer em La Sarthe.
Os anos 90 trouxeram ainda outros momentos históricos: a Peugeot venceu com o 905 em 1992 e 1993 e, em 1995, o McLaren F1 GTR, um superdesportivo de estrada adaptado para as pistas, surpreendeu tudo e todos ao vencer à geral à chuva. Em 1998, o Porsche 911 GT1-98 e, em 1999, o BMW V12 LMR fecharam o capítulo pré-moderno da prova.
Legend meets legacy. 🏁
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— 24 Hours of Le Mans (@24hoursoflemans) June 4, 2026
A Era Audi e a Revolução LMP1 (2000–2014): O Diesel Chegou a La Sarthe
A transição para o século XXI foi dominada por Ingolstadt. A Audi venceu de forma quase ininterrupta entre 2000 e 2014, somando 13 vitórias. Em 2006, a marca alemã lançou o R10 TDI — o primeiro carro a vencer Le Mans com motorização diesel. Com o seu V12 biturbo de 5,5 litros, o R10 demonstrou que eficiência e velocidade podiam coexistir. Em 2010, o Audi R15 TDI plus estabeleceu o recorde absoluto de distância percorrida na prova, completando 397 voltas e cobrindo uns impressionantes 5.410,71 km — uma marca de quilometragem que permanece imbatida.
Tom Kristensen, o dinamarquês que se tornaria o piloto mais laureado da história da corrida com nove vitórias, foi o grande rosto desta época de hegemonia germânica.
A Era dos Híbridos e a Tragédia da Toyota (2015–2020): Mais Perto do Impossível
Em 2014, a Porsche regressou à classe de topo com o 919 Hybrid, um LMP1 com motor V4 de 2,0 litros e dois sistemas de recuperação de energia que, em conjunto, produziam cerca de 1.000 cv. Em 2015, a Porsche venceu pela primeira vez desde 1998, interrompendo a hegemonia da Audi. Ganhou ainda em 2016 e 2017, mas em ambas as edições, a Toyota liderou com ampla vantagem e perdeu a vitória de forma cruel nas últimas voltas, tornando-se a grande vítima trágica de La Sarthe e elevando a níveis nunca antes vistos o drama da endurance.
A marca nipónica nunca desistiu e quebrou finalmente o enguiço em 2018 com o TS050 Hybrid, após mais de duas décadas de tentativas. Fernando Alonso partilhou a glória dessa mesma máquina em 2018 e 2019 com Sébastien Buemi e Kazuki Nakajima.
Which iconic Le Mans shot are you most looking forward to this year? 🤩 #WEC #LeMans24 pic.twitter.com/rqdX64pkGU
— FIA World Endurance Championship (@FIAWEC) May 27, 2026
A Era Hypercar (2021–Presente): O Regresso dos Grandes Construtores
Em 2021 entrou em vigor o novo regulamento Hypercar, desenhado para atrair os maiores construtores mundiais de volta ao topo do desporto de resistência. A Toyota abriu esta era estendendo a sua sequência de vitórias, mas o interesse em torno destas regras cresceu rapidamente, permitindo o regresso de marcas lendárias como a Ferrari.
O impacto da casa de Maranello foi imediato. Em 2023, precisamente no centenário da prova, o 499P de Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi venceu à geral, devolvendo a Ferrari ao topo de Le Mans 58 anos depois do seu último triunfo (conquistado em 1965). Provando que não foi um acaso, a Ferrari repetiu a proeza e garantiu nova vitória absoluta em 2024 e 2025.
A corrida que nasceu para provar que os carros podiam durar 24 horas continua viva. O que antes era uma gestão de sobrevivência transformou-se num sprint puro de 24 horas, onde a fiabilidade das máquinas já raramente é questionada, apesar de devorarem mais de cinco mil quilómetros num único fim de semana. Um esforço tremendo para mecânicas, pilotos e equipas cujos limites são levados ao extremo.
Le Mans é um duelo com a história, um desafio coletivo e pessoal. Inúmeras páginas foram escritas por homens e mulheres inconformados que sempre procuraram mais. São essas narrativas que dão vida a esta mítica corrida que todos os anos atrai centenas de milhares de fãs. Mais de cem anos depois, a partilha, o fervor e a paixão mantêm-se intactos e crescem a cada edição: não apenas para ver quem percorre a maior distância, mas para testemunhar a capacidade técnica dos engenheiros, a resiliência dos mecânicos e o talento puro dos pilotos em histórias de superação que serão recordadas por décadas.
Foto: MPSA
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