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Oliver Wyman alerta que atual regulação deixa banca com 20% da capacidade necessária para financiar economia europeia

Oliver Wyman alerta que atual regulação deixa banca com 20% da capacidade necessária para financiar economia europeia

Os bancos europeus estão estruturalmente limitados na sua capacidade de financiar a economia do continente, e a arquitectura regulatória acumulada desde a crise financeira global é a principal razão. A conclusão é do relatório European Bank Competitiveness — Enabling banks to play a greater role financing European growth, elaborado pela consultora Oliver Wyman a pedido da Federação Bancária Europeia (EBF) e divulgado esta terça-feira.
O estudo estima que as necessidades de investimento adicional anual da União Europeia ascendem atualmente a cerca de 1,4 biliões de euros — significativamente acima dos 800 mil milhões calculados no Relatório Draghi de 2024 e dos 1,2 biliões estimados pelo BCE em 2025. A diferença reflete a escalada das necessidades de defesa, invocadas pelos líderes europeus, face à instabilidade geopolítica crescente, bem como um conjunto mais alargado de prioridades ambientais e sociais.
“O verdadeiro valor poderá ser ainda mais elevado, uma vez que alguns sectores estrategicamente importantes ainda não estão plenamente reflectidos nestas estimativas”, alerta a Oliver Wyman no seu relatório.
“O número exato é menos importante do que a escala global e a direção a seguir, uma vez que o ponto-chave é que as necessidades de investimento da Europa estão a aumentar, e não a diminuir. Esta tendência é impulsionada pela aceleração da adoção da IA, pela crescente procura por centros de dados, pelo investimento em infraestruturas energéticas e pela crescente incerteza geopolítica, fatores que, em conjunto, estão todos a contribuir tanto para a escala como para a urgência do desafio”.
Face a este cenário, o Oliver Wyman conclui que os bancos europeus apenas conseguem, nas condições atuais, assegurar cerca de 20% das necessidades anuais de financiamento privado adicional.
“O sistema de financiamento europeu não está atualmente configurado para satisfazer estas necessidades de financiamento em grande escala. Estimamos que os bancos apenas possam satisfazer cerca de 20% das necessidades de investimento do sector privado no enquadramento atual, enquanto os canais de financiamento alternativos permanecem menos desenvolvidos do que noutras grandes economias”, refere o documento.
Para cobrir 60% dessas necessidades, seria necessário um reforço de capital CET1 da ordem dos 540 mil milhões de euros — um valor que nenhum ajustamento incremental consegue absorver sem reformas estruturais., segundo o estudo.

“A AFME estima que mais de 225 mil milhões de euros de capital e 250 mil milhões de euros de liquidez estão retidos em filiais porque as isenções transfronteiriças não estão totalmente disponíveis. Já o Instituto Europeu dos Mercados de Capitais (ECMI) estima que um mercado de titularização da UE mais forte poderia suportar um volume adicional de empréstimos anual de 130 a 320 mil milhões de euros”

O relatório da Oliver Wyman deixa sete recomendações que visam reforçar o ecossistema de financiamento da Europa, aumentando a capacidade de financiamento dos bancos, apoiando uma União de Poupança e Investimento mais robusta, reduzindo a fragmentação e melhorando a eficiência com que o capital é mobilizado e alocado a toda a economia europeia.
O relatório apresenta várias estimativas para ilustrar o impacto potencial das recomendações. Limitar a almofada de capital para instituições de risco sistémico, a O-SII a 1% (a reserva mínima para G-SIB), poderia libertar aproximadamente 50 mil milhões de euros de capital CET1 e apoiar cerca de 300–400 mil milhões de euros de capacidade de crédito adicional.
Na mesma linha, a eliminação da almofada de capital para risco sistémico poderia libertar aproximadamente 19–29 mil milhões de euros de capital e apoiar cerca de 120–230 mil milhões de euros de capacidade de crédito adicional.
Adicionalmente, a eliminação da dedução relativa ao software poderia libertar aproximadamente 18 a 35 mil milhões de euros de capital CET1 e apoiar cerca de 140 a 220 mil milhões de euros de capacidade de crédito adicional.
A “software deduction” refere-se à dedução (ou abatimento) de custos de software no cálculo do capital regulatório dos bancos. Ao investir em software, as entidades financeiras capitalizam o ativo no balanço, mas as normas exigem que este valor seja deduzido dos fundos próprios para garantir liquidez e solvência.
Por outro lado, a AFME (Association for Financial Markets in Europe) estima que mais de 225 mil milhões de euros de capital e 250 mil milhões de euros de liquidez estão retidos em filiais porque as isenções transfronteiriças não estão totalmente disponíveis.
Já o Instituto Europeu dos Mercados de Capitais (ECMI) estima que um mercado de titularização da UE mais forte poderia suportar um volume adicional de empréstimos anual de 130 a 320 mil milhões de euros.
“Estes valores não devem ser considerados como perfeitamente cumulativos. Eles abordam diferentes restrições, afetam diferentes bancos e dependem da procura, das ponderações de risco e dos rácios de capital-alvo das instituições. No entanto, demonstram que uma recalibração direcionada poderia ter um impacto significativo”, defende a Oliver Wyman.

“O relatório cita um estudo da EBF sobre 15 bancos europeus que concluiu que os aumentos dos requisitos de capital entre 2021 e 2024 absorveram mais de 90% do crescimento cumulativo dos resultados retidos, deixando menos de 10% disponíveis para apoiar a expansão do balanço. Esta dinâmica equivale, segundo o documento, a uma redução da capacidade de crédito na ordem de 1 a 1,5 biliões de euros”

Rentabilidade não traduz maior capacidade de dar crédito
Um dos argumentos centrais do estudo é que a recente melhoria da rentabilidade dos bancos europeus — cujo retorno médio sobre o capital dos dez maiores bancos da UE passou de cerca de 5% em 2015 para cerca de 10% em 2025 — não se traduz automaticamente em maior capacidade de crédito. “Rentabilidade e capacidade de concessão de crédito não são a mesma coisa”, sublinha o documento.
“Apesar de os bancos da UE se apresentarem agora mais rentáveis, o relatório afirma que estes estão limitados porque rentabilidade e capacidade de concessão de crédito não são a mesma coisa. Na verdade, os bancos não concedem crédito simplesmente por serem rentáveis”, mas sim quando as operações “geram um retorno ajustado ao risco aceitável após consideração dos custos de financiamento, perdas esperadas, requisitos de capital, requisitos de liquidez e custos operacionais”.
Acresce que o tipo de investimento de que a Europa mais necessita — infra-estruturas de longa duração, transição energética, inteligência artificial, semicondutores, defesa — concentra-se precisamente nos ativos mais intensivos em capital, de maior prazo e perfil de risco mais elevado, que o enquadramento regulatório atual desincentiva. “À medida que a qualidade de crédito do mutuário se deteriora e os prazos aumentam, o capital consumido cresce de forma desproporcionada, tornando estas operações economicamente pouco atrativas para os bancos”, explica o relatório.
Ou seja, estas exposições consomem quantidades significativas de capital e liquidez, o que aumenta o retorno necessário para que o crédito continue a ser economicamente atraente.
Ao mesmo tempo, os crescentes requisitos de capital regulamentar absorveram uma parte expressiva dos lucros bancários nos últimos anos. Um estudo da Federação Bancária Europeia (EBF) baseado em 15 bancos europeus constatou que os aumentos nestas exigências regulatórias entre 2021 e 2024 consumiram mais de 90% do crescimento acumulado dos lucros retidos, deixando menos de 10% disponíveis para apoiar uma expansão adicional do balanço.
Esta dinâmica equivale, segundo o documento, a uma redução da capacidade de crédito na ordem de um bilião a 1,5 biliões de euros.
Consequentemente, a questão não é saber se os bancos europeus são rentáveis, mas sim se o quadro atual proporciona capacidade e incentivos suficientes para que invistam capital nos tipos de financiamento a longo prazo e de elevada intensidade de que a Europa tanto necessita.
O argumento do relatório não reside na falta de rentabilidade dos bancos, mas sim na urgência de um quadro de financiamento que apoie melhor a mobilização dos balanços bancários, a par dos mercados de capitais e dos investidores institucionais, para satisfazer as ambições de investimento do continente.
O estudo da Oliver Wyman dá força ao argumento da comissária europeia responsável pelos Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos , quando conclui que a Europa não tam falta de poupança. “As famílias europeias detinham aproximadamente 37 biliões de euros em ativos financeiros em 2023. No entanto, muito pouco deste capital está a ser canalizado para investimento produtivo, particularmente nos sectores estratégicos que impulsionarão o crescimento e a competitividade futuros”, lê-se no documento.
“As iniciativas da União de Poupança e Investimento representam um passo importante para mercados de capitais mais profundos e integrados. No entanto, as necessidades de investimento da Europa são imediatas, e a construção da escala e da profundidade dos mercados de capitais necessárias para as satisfazer levará tempo”, alerta a Oliver Wyman.
“Não é desregulação, é melhor regulação”
Antecipando as críticas, o relatório rejeita a ideia de que estas propostas equivalem a um retrocesso regulatório. “O objectivo não é a desregulação; é uma melhor regulação — preservar a resiliência enquanto se removem constrangimentos desnecessários ao investimento produtivo”, afirma o documento. A consultora recorre a uma analogia: “Se a regulação é para o sistema financeiro o que a medicina é para o corpo humano, é essencial na dose certa — mas prejudicial em excesso.”
O estudo relembra que as reformas pós-crise foram “necessárias e bem-sucedidas na restauração da estabilidade e da confiança” e que o rácio CET1 médio dos maiores bancos europeus se situava em 16,2% no final de 2025, acima do intervalo óptimo de 10% a 14% identificado pelo Banco de Internacional de Pagamentos (BIS) e dos 11% que o Banco de Inglaterra concluiu, em dezembro de 2025, serem o nível adequado para o sistema bancário britânico.
A nota final é de urgência. “As necessidades de investimento da Europa não são projeções teóricas. São imediatas e crescentes. A inação tem custos que vão muito além do sector financeiro”, conclui o relatório, lembrando que a Europa possui 37 biliões de euros em ativos financeiros nos balanços das famílias mas canaliza apenas 17% para títulos financeiros — contra 43% nos Estados Unidos.
Output floor do Basileia III pode retirar 450 a 600 mil milhões de capacidade de crédito
Entre as ameaças identificadas, destaca-se a implementação integral do output floor do Basileia III, que deverá estar concluída até 2030. A Oliver Wyman estima que esta medida poderá aumentar os ativos ponderados pelo risco dos sete G-SIBs europeus em cerca de 12%, com um impacto de redução da capacidade de crédito entre 450 mil milhões e 600 mil milhões. Em sentido inverso, os G-SIBs norte-americanos verão os seus requisitos de capital cair entre 8% e 10% com as propostas atualmente em discussão nos Estados Unidos — uma assimetria que preocupa a consultora.
O relatório desmonta igualmente o argumento de que os bancos europeus enfrentariam requisitos mais elevados sob as regras americanas, invocado num documento do BCE. “As diferenças estruturais e regulatórias entre os EUA e a UE influenciam a composição dos activos dos bancos, enviesando essa análise”, contrapõe o Oliver Wyman, apontando que os bancos norte-americanos podem transferir hipotecas para a Fannie Mae e Freddie Mac através de mercados de titularização líquidos — o que reduz significativamente a fatia de hipotecas no seu balanço —, enquanto os bancos europeus são obrigados a deduzir parcialmente os ativos de software ao capital CET1.

“As sete recomendações deste relatório visam reforçar o ecossistema de financiamento da Europa, aumentando a capacidade de financiamento dos bancos, apoiando uma União de Poupança e Investimento mais robusta, reduzindo a fragmentação e melhorando a eficiência com que o capital é mobilizado e alocado a toda a economia europeia”

Sete recomendações para impulsionar o financiamento bancário
Para fazer face a este diagnóstico, o relatório avança com sete recomendações agrupadas em três eixos. O primeiro, já referido, passa por reforçar a capacidade de financiamento, e a Oliver Wyman propõe “racionalizar e recalibrar os add-ons de capital” europeus, nomeadamente os buffers O-SII, cujo limite máximo o estudo sugere fixar em 1% (o mínimo aplicado aos G-SIBs), o que liberaria cerca de 50 mil milhões de capital CET1 e permitiria 300 a 400 mil milhões de euros de crédito adicional. O mesmo eixo contempla a eliminação do Systemic Risk Buffer — que poderia libertar entre 19 e 29 mil milhões de capital — e a revisão da dedução de ativos de software, cuja remoção libertaria 18 a 35 mil milhões de CET1 e suportaria 140 a 220 mil milhões de empréstimos adicionais.
O segundo eixo recomenda incorporar objetivos explícitos de crescimento e competitividade nos mandatos dos reguladores e supervisores europeus — algo que o Reino Unido fez em 2023 para a PRA e a FCA, e que os EUA adoptaram em 2025 no âmbito do Financial Stability Oversight Committee.
“A filosofia regulatória europeia está cada vez mais desfasada dos principais centros financeiros mundiais”, constata o documento, notando que a UE é a única grande jurisdição onde nenhum regulador bancário possui um mandato estatutário explícito de crescimento ou competitividade.
O terceiro eixo centra-se no desbloqueio do contínuo de financiamento: concretizar o pleno potencial da União de Poupança e Investimento, desobstruir a titularização — cujo mercado europeu de centros de dados securitizados totaliza apenas 800 milhões de dólares desde 2018, contra 63,6 mil milhões de dólares nos EUA — e remover a fragmentação que mantém, segundo a AFME, mais de 225 mil milhões de euros de capital e 250 mil milhões de euros de liquidez imobilizados em subsidiárias devido à ausência de dispensas transfronteiriças.
O relatório foi elaborado por Elie Farah, Huw van Steenis, Magnus Burkl, Elisa Haining e Ryan Lancaster, da Oliver Wyman, e foi encomendado pela Federação Bancária Europeia. Mas os autores salientam que as conclusões representam a visão independente da consultora e não necessariamente as posições da EBF ou dos seus membros.

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