BCE inicia inversão do ciclo. Dinheiro fica mais caro
Está confirmada a ‘subida de seguro’: o Banco Central Europeu (BCE) terminou com a normalização e voltou a subir juros em 25 pontos base (pb), uma decisão largamente esperada pelos mercados face ao disparo recente da inflação. Ainda assim, o tom da presidente Lagarde foi mais de ‘falcão’ do que se antecipava, deixando em aberto a possibilidade de nova subida já em julho.
As taxas de referência para a moeda única ficam assim entre 2,25% e 2,65% depois desta subida, o que mantém o indicador ainda distante das mais recentes leituras da inflação. O índice de preços no consumidor (IPC) disparou nos últimos meses, fruto do choque energético resultante da decisão norte-americana e israelita de bombardear o Irão, e saltou de uma subida homóloga de 2,6% em março para 3,2% em maio, o valor mais alto desde setembro de 2023.
“Com a decisão de hoje, o Conselho de Governadores mantém-se bem posicionado para navegar a incerteza causada pela guerra”, lê-se no comunicado do BCE, que reforça que não se compromete com qualquer decisão futura ou caminho pré-definido para os juros.
De olho precisamente no rumo futuro dos juros na moeda única, os jornalistas presentes na conferência de imprensa que se seguiu questionaram a presidente do BCE quanto à função reação do banco. “Será o que será”, respondeu de forma críptica.
No entanto, Lagarde contestou a ideia de uma subida de precaução, agindo como um seguro contra a incerteza, como classificaram vários analistas. A presidente do BCE rejeitou que a autoridade monetária possa estar a agir de forma extemporânea, defendendo que seria um erro não agir no imediato.
“Se deixarmos a inflação descontrolar-se, torna-se muito mais difícil trazê-la de volta ao nível estável que já tivemos”, afirmou, falando numa decisão unânime e acertada.
“Para nós, isto sugere que a reunião de julho permanece animada”, projeta a análise da Pantheon Macro, que classifica o tom de Lagarde como ‘hawkish’. O think-tank antecipa uma nova subida já na próxima reunião, altura em que o atual ciclo de aperto monetário terminaria. Ainda assim, e mantendo-se as leituras da inflação no nível atual, a taxa de juro real permaneceria negativa, sublinhando a complexidade da situação no bloco da moeda única.
Mesmo confirmando-se o cenário base atualizado do BCE, a taxa de juro real permaneceria negativa no final do ano. Os técnicos da autoridade monetária apontam agora a 3% de inflação este ano, ou seja, uma revisão significativa em relação aos 2,6% previamente esperados; para 2027, a projeção passa por 2,3%, também acima dos 2% anteriormente previstos, e para 2028 o banco aponta agora a 2%, ou seja, marginalmente abaixo dos 2,1% inscritos nas previsões de março.
Também o crescimento foi revisto, mas em baixa. A autoridade monetária europeia aponta agora a um avanço de 0,8% no PIB este ano, antes de o bloco da moeda única crescer 1,2% e 1,5% em 2027 e 2028, respetivamente. Antes, nas projeções de março, a expectativa passava por um crescimento de 0,9% este ano, 1,3% no próximo e 1,4% em 2028.
A análise da Gavekal opta por destacar o mandato único do BCE focado no controlo da inflação, por oposição, por exemplo, ao da Reserva Federal dos EUA, que inclui também o crescimento. Assim sendo, “há um caso claro para manterem [o BCE] um viés hawkish depois desta subida”, dado que o risco de fragmentação financeira no seio da UE é o mais baixo da última década.
Primeiros a subir
A subida do BCE ocorre na semana anterior a uma série de reuniões dos seus homólogos ocidentais, nomeadamente a Fed, o Banco de Inglaterra (BoE) e o Banco do Japão (BoJ), todos eles também à beira de voltarem às subidas de juros.
Nos EUA, Kevin Warsh estreia-se como presidente do banco central num mês em que a leitura mais recente da inflação fez soar os alarmes, com 4,2% em maio – o valor mais alto desde abril de 2023. É o terceiro mês de aceleração para o indicador, que contou com um salto de 23,5% na energia, isto após 17,9% em abril. A taxa implícita também subiu para 2,9%, estando a subir há três meses.
Perante isto, o mercado atribui 98,3% de probabilidade a uma subida de 25 pb, de acordo com a FedWatch Tool, do CME Group. Os juros de referência na maior economia do mundo estão atualmente entre 3,5% e 3,75% há três reuniões seguidas.
Já no Reino Unido, a dúvida prende-se exclusivamente com o timing da subida. O banco ING considera que “uma subida em junho parece improvável, mas […] é cada vez mais difícil ao BoE evitar uma subida este verão”, sobretudo dado o choque energético. A fatura energética das famílias britânicas deve subir 13% em julho, sublinha a análise.
O Japão é a economia deste grupo onde o indicador de preços se mantém mais contido, com 1,4% de inflação em maio, mas com os juros diretores em 1%, a taxa real permanece negativa. Como tal, a expectativa do mercado é de uma subida única de 25 pb já em junho, marcando uma inversão global da tendência monetária.
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