F1, Q&A com Kimi Antonelli: “Se me dissessem há dois anos que estaria a liderar o Mundial de F1, diria que estavam loucos”
A ressaca doce do Grande Prémio do Mónaco ainda se faz sentir no rosto de Kimi Antonelli, mas o jovem prodígio da Mercedes já foca a sua atenção no circuito de Barcelona-Catalunya com a maturidade de um veterano.Atual líder do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, o piloto italiano — que há apenas dois anos vencia corridas no escalão de acesso — assume-se hoje como a grande revelação da grelha, lidando com uma fasquia de expectativas que cresce de forma avassaladora no seu país natal.Entre mergulhos de celebração no porto de Monte Carlo, as inevitáveis (e por ele rejeitadas) comparações com Ayrton Senna e o peso de comandar os destinos de uma escuderia histórica, Antonelli mantém os pés firmes no chão. Em vésperas de testar a real eficácia do novo pacote técnico da equipa num traçado convencional, o jovem de dezoito anos revela nesta entrevista o segredo por trás da sua consistência: uma blindagem psicológica construída à custa dos erros do passado e o desígnio inabalável de guiar pelo puro prazer da velocidade.
P: Kimi, comecemos por recordar rapidamente o Mónaco. Já encontrou a sua toalha de banho?Kimi Antonelli: Não, continuo à procura dela.
P: E quanto às celebrações? Como foi a experiência de saltar para a água no porto de Monte Carlo e como correu a gala no palácio?Kimi Antonelli: Bem, para começar, prefiro nem saber o que estava naquela água do porto. Mas foi muito agradável, bastante refrescante depois de uma corrida tão quente, e correu bem. Foi um excelente momento com toda a equipa, algo fantástico para partilhar e testemunhar. Creio que é uma daquelas recordações que guardarei para sempre. Além disso, ver a equipa tão feliz e envolvida deixou-me genuinamente contente. Foi, sem dúvida, muito enriquecedor. Claro que o Mónaco faz agora parte do passado e este fim de semana temos Barcelona pela frente. Vamos tentar repetir o resultado, embora saibamos que não será fácil. Quanto à gala no palácio, foi fantástica. Não estou habituado a este tipo de eventos, mas foi uma experiência memorável e não seria nada mau regressar lá no próximo ano.
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P: Falemos um pouco mais sobre Barcelona e as perspetivas para este fim de semana. Considera que a Mercedes chega aqui com o melhor pacote técnico para este circuito?Kimi Antonelli: Penso que, antes de mais, será um fim de semana muito interessante para nós, porque nos permitirá perceber o real funcionamento do pacote de atualizações que introduzimos no Canadá. Creio que aí ainda não conseguimos ver todo o seu potencial, nem o ganho efetivo que nos traz, devido às condições muito específicas de Montreal, com temperaturas extremamente baixas. Depois, o Mónaco voltou a ser outra pista singular. Barcelona, por ser um traçado mais convencional, vai mostrar muito melhor como funciona o conjunto e o quanto nos oferece em termos de tempo por volta. Contudo, os nossos concorrentes continuam muito próximos.A Red Bull esteve fortíssima no Mónaco, a Ferrari trouxe novidades para este fim de semana, pelo que estarão certamente na discussão, e temos ainda a McLaren. Julgo que a McLaren estará muito forte aqui, dado tratar-se de uma pista de elevada degradação de pneus e com temperaturas bastante altas — um cenário semelhante ao de Miami, onde eles demonstraram um excelente rendimento. Não será um caminho linear, mas estamos preparados para dar o nosso melhor.
P: Fernando Alonso falava há pouco sobre o impacto de chegar à Fórmula 1 muito jovem e começar a vencer e a lutar por campeonatos logo após uma ou duas épocas na categoria rainha. Como lida com essa pressão, com a expectativa e com o salto competitivo face ao seu ano de estreia? O que mudou em si?Kimi Antonelli: Mudou muita coisa. Considero que o próprio ano de experiência acumulada tem desempenhado um papel fundamental, permitindo-me fazer o meu próprio percurso e compreender o que é benéfico ou prejudicial para mim, tanto durante os fins de semana de corrida como fora deles. É uma diferença maciça regressar a um circuito onde já corremos no ano anterior, pois conhecemos melhor a evolução da pista ao longo das sessões e compreendemos melhor a estrutura do fim de semana. Isso permite-nos gerir a energia de uma forma muito mais eficaz. Consequentemente, ao entrar no carro, sentimo-nos melhor do ponto de vista físico e mental, e passamos a ter maior consciência do nosso potencial. Além disso, passamos a conhecer a equipa ainda melhor e os laços tornam-se cada vez mais fortes. São todos esses pequenos detalhes que, no final do dia, fazem uma diferença enorme. No que respeita ao campeonato, não estamos propriamente preocupados com isso. Obviamente que tenho perfeita noção da oportunidade que tenho em mãos e quero aproveitá-la ao máximo, procurando maximizar os resultados. No entanto, ao mesmo tempo, não quero pilotar ou correr a pensar nisso. Quero focar-me exclusivamente no processo, no que tenho de fazer em pista, e tentar desfrutar ao máximo da condução e do fim de semana, pilotando o mais rápido possível. No final do ano veremos onde terminamos.
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P: No ano passado, quando questionado se alguma vez duvidava de si próprio, o Kimi foi bastante duro na resposta, admitindo que chegou a questionar as suas capacidades. Ainda mantém essas dúvidas sobre o seu potencial?Kimi Antonelli: Para ser sincero, já não. O ano passado foi decididamente marcado por esse fator. Duvidava imenso de mim, especialmente durante aquele período difícil na fase europeia da temporada. Mas este ano a história tem sido completamente diferente. Amadurecemos muito após um ano na Fórmula 1, não apenas como pilotos, mas também enquanto indivíduos.Creio que esse período conturbado do ano passado me permitiu conhecer-me melhor. Por pior que tenha sido o momento na altura, hoje estou muito grato por ter acontecido, porque me fez crescer substancialmente e ensinou-me muito sobre mim mesmo. Este ano, até ao momento, não tenho questionado o meu valor ou duvidado das minhas capacidades. Contudo, ainda restam perguntas que precisam de resposta do meu lado: até onde posso chegar num curto espaço de tempo? O quanto mais consigo exigir de mim próprio? O quanto mais posso evoluir e quão grande é o meu potencial? São questões que ainda carecem de resposta e que exigem algum tempo.
P: Há dois anos o Kimi somava vitórias na Fórmula 2. Conseguia sequer sonhar que, num curto espaço de tempo, estaria a liderar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1 e a lutar ativamente pelo título mundial?Kimi Antonelli: Claro que não. Acho que teria assinado por baixo se me tivessem proposto este cenário no início do ano. Mas, evidentemente, naquela altura o objetivo na F2 era simplesmente alcançar a Fórmula 1. À medida que as corridas se desenrolam e o desempenho surge, as expectativas e as metas que traçamos para nós próprios vão mudando. Se me tivessem dito há dois anos que estaria nesta posição, teria respondido que estavam loucos. Estou extremamente feliz por me encontrar nesta situação e muito grato pela oportunidade que me foi concedida, bem como pelo trabalho inacreditável que a equipa está a desenvolver. O carro que nos deram este ano tem sido fantástico e permite-nos lutar por vitórias e, para já, pelo campeonato. É um excelente momento, mas é fundamental não nos deixarmos deslumbrar. Devemos manter o foco, os pés bem assentes na terra e concentrarmo-nos no objetivo final, procurando corresponder em cada corrida.
P: Face aos seus excelentes resultados e ao momento do desporto transalpino, sente que se está a transformar num herói nacional em Itália, à semelhança do que acontece com Jannik Sinner no ténis?Kimi Antonelli: Bem, não sei precisar, até porque não regresso a Itália há algum tempo. Mas sei, pelo que me vai chegando, que as expectativas estão a ficar bastante elevadas. Conhecendo os italianos como conheço, sei perfeitamente como nos entusiasmamos facilmente com estas coisas. De qualquer forma, é magnífico ver tanto apoio a crescer consecutivamente. Se formos capazes de canalizar esse carinho de forma positiva, funciona como um elemento extra a nosso favor. Tem sido fantástico e espero que continue a crescer.
P: Têm surgido várias publicações e vídeos que o rotulam como o “novo Senna”. Sente que receber este tipo de distinções coloca uma pressão adicional sobre os seus ombros?Kimi Antonelli: Uau, essa é uma pergunta forte. Não tinha lido nada sobre isso e, para ser honesto, não aprecio particularmente a comparação. Não me parece correto ser comparado a alguém que escreveu a história deste desporto, quando eu ainda não alcancei uma fração mínima do que ele conquistou. Não acho justo. Eu próprio não me sinto confortável com isso, por todas as razões que referi. Ayrton Senna é o meu ídolo, é alguém em quem me inspiro, mas considero que não faz sentido estabelecer esse paralelo nesta fase da minha carreira. Estou apenas no início, há ainda tanto por alcançar, tanto por fazer e tanto por evoluir. Sinto que continuo muito longe do nível dele. Essa é a minha resposta.
P: O Kimi tem recebido alguns conselhos de pilotos como o Lewis Hamilton e o Max Verstappen. Eles também lhe dão indicações sobre como superar o seu colega de equipa, George Russell?Kimi Antonelli: Não, não falamos especificamente sobre esse tema. Bem, o último conselho do Max foi para eu esperar que as luzes vermelhas se apagassem e aguardar um segundo. Logo a seguir, infelizmente, ele teve aquele problema na unidade motriz, pelo que se tratava obviamente de uma piada. Mas não, não abordamos esse assunto em concreto. Falamos sobre imensas coisas, mas não sobre isso. Ele limitou-se a dizer-me para continuar a fazer o que tenho feito, a desfrutar, a ser eu próprio e que os resultados surgiriam naturalmente. Tem sido fantástico ver a postura de vários pilotos, mas muito em particular do Max e do Lewis, que têm sido extremamente gentis e prestáveis desde que entrei para a categoria. É muito positivo testemunhar isso do meu lado. Mas convém não esquecer que, no final do dia, continuamos a ser concorrentes em pista, pelo que também não convém partilhar conselhos em demasia. Ainda assim, a relação com eles tem sido muito divertida.
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