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F1, Q&A, Fernando Alonso: “a motivação continua cá, acredito em mim e tenho total confiança naquilo que sou capaz de fazer”

F1, Q&A, Fernando Alonso: “a motivação continua cá, acredito em mim e tenho total confiança naquilo que sou capaz de fazer”

À beira de cumprir o seu 23.º Grande Prémio de Espanha, Fernando Alonso subiu ao palco da conferência de imprensa em Barcelona com a aura de quem já não precisa de provar nada, mas carrega o peso de uma despedida iminente e de uma temporada de sacrifício.Ao volante de um Aston Martin que teima em não responder às ambições do projeto, o veterano asturiano de 44 anos não usou panos quentes para analisar a atual falta de competitividade da equipa, preferindo o realismo cru à ilusão corporativa.Entre reflexões sobre a maturidade precoce de novos talentos como Kimi Antonelli, memórias insólitas que envolvem a realeza espanhola e a revelação bombástica de que este fim de semana marcará, muito provavelmente, a sua última dança no traçado da Catalunha, o bicampeão mundial exibiu a lucidez cortante e a motivação intacta que o definem há mais de duas décadas no pináculo do desporto automóvel.
P: Não sendo propriamente o herói local, é o herói nacional. A Aston Martin teve um início de época difícil. Até que ponto o fim de semana no Mónaco e aquele ponto conquistado lhe trouxeram alguma satisfação?Fernando Alonso: Basicamente, não creio que tenha feito uma grande diferença no nosso fim de semana. Somámos um ponto porque aconteceram várias situações na corrida, entre penalizações e abandonos, mas não podemos esconder a verdade: fomos pouco competitivos também no Mónaco e, em termos de ritmo puro, provavelmente não merecíamos aquele ponto. Ainda assim, penso que este ano será difícil somar pontos para qualquer equipa, uma vez que as quatro principais escuderias ocupam sempre, em condições normais, as primeiras oito posições. Restam apenas o nono e o décimo lugar. A Alpine poderia facilmente ser o quinto carro mais rápido e, como referi, para agarrar qualquer ponto é necessária alguma ajuda dos carros da frente. No Mónaco, tivemos uma ajuda extra.
P: Fernando, para um piloto com o seu historial de sucesso, de que forma os atuais problemas afetaram a sua motivação e a sua crença no projeto da Aston Martin?
Fernando Alonso: Bem, no que toca à motivação, não houve uma grande alteração, pois compreendo perfeitamente como funciona este desporto e como tudo se processa na Fórmula 1. É preciso ter o conjunto técnico correto para render e é necessário trabalhar em torno da equipa para colocar esse conjunto no melhor plano possível, o mais rapidamente que se consiga, quando não estamos na liderança do pelotão. Vemos imensos exemplos de pilotos que estão fora do top 10 e, no ano seguinte, estão a ganhar corridas, e vice-versa: estão a vencer e depois ficam de fora na Q1.Por isso, a motivação continua cá, porque acredito em mim próprio e tenho total confiança naquilo que sou capaz de fazer. Sinto que, quando tenho a mesma máquina que qualquer outro piloto no mundo, nunca me senti pouco competitivo, seja na Fórmula 1 ou fora deste paddock. Já guiei muitos carros diferentes e senti-me da mesma forma toda a minha vida; continuo a sentir-me assim agora. E quanto à confiança na equipa? Obviamente que não é o cenário ideal quando se inicia um ciclo de regulamentos em desvantagem, porque tudo exige tempo. Especialmente no nosso caso, descobrimos muito rapidamente que a unidade motriz não estava ao nível desejado e, sim, o projeto em si era um pouco imaturo. Percebemos cedo que precisaríamos de tempo para recuperar o atraso e para corrigir alguns dos problemas. Mas, na Fórmula 1, corre-se de duas em duas semanas e é preciso apresentar resultados a cada quinzena. Compreendemos rapidamente que não éramos capazes de o fazer e que seria um início de temporada difícil. No entanto, estamos a navegar através desse período complicado e temos expectativas mais elevadas para a segunda metade do ano. Até lá, cada fim de semana será, mais ou menos, a mesma história.
P: O Campeonato do Mundo de Futebol começa hoje. Até onde pensa que a Espanha conseguirá chegar e quem considera ser a vossa maior ameaça?Fernando Alonso: Bem, espero que cheguemos à final. Penso que somos campeões europeus e que estamos muito fortes, por isso oxalá consigamos atingir a final. Quanto à maior ameaça, não sei. Diria a França, uma vez que também têm uma equipa muito boa e excelentes jogadores. Mas nos Mundiais há sempre surpresas.
P: Fernando, quando apareceu no grande circo, foi imediatamente rotulado como um dos futuros grandes nomes da modalidade, e bastaram-lhe um par de anos para lutar por campeonatos do mundo e selar esses títulos. Atualmente, vemos Kimi Antonelli, que chegou a esta fase da temporada com uma sequência impressionante de vitórias. Como avalia o que ele está a alcançar e que perspetiva nos pode dar sobre a pressão que os jovens pilotos enfrentam ao vencer tão cedo na Fórmula 1?Fernando Alonso: Bem, creio que, antes de mais, estamos numa era diferente da Fórmula 1. Graças à tecnologia, estamos muito mais cientes dos aspetos técnicos do carro. Temos os simuladores e diferentes ferramentas que ajudam um pouco a nossa chegada à categoria rainha. Considero que ele tem um talento incrível. Provavelmente, o seu período mais notável foi no karting.Pode-se argumentar que, nas fórmulas de promoção, os resultados tiveram altos e baixos, e alguns dos pilotos da sua geração conseguiram manter-se à frente dele com os mesmos carros, inclusivamente o que está aqui ao meu lado [Oliver Bearman]. Agora, ele dispõe de um carro que está a dominar, está a adaptar-se a esse monolugar e a vencer corridas sem cometer qualquer erro, lidando com a pressão de liderar o campeonato e comandar as corridas, o que é, obviamente, um excelente feito.Mas isto é a Fórmula 1 e exige-se sempre um rendimento ao mais alto nível. Se ele tem a oportunidade, como tem este ano com um carro vencedor, e é capaz de lidar com a pressão e conquistar o título, isso é algo incrível para ele e fico feliz por ele.
P: Esta época do Mundial de Futebol costuma ser ideal para os pilotos espicaçarem e provocarem os colegas de grelha sobre as respetivas seleções. Quem era a melhor pessoa para provocar no seu tempo e quem é que realmente percebe de futebol no paddock?Fernando Alonso: De futebol, não há muita gente que perceba realmente neste paddock. Um piloto que costumava perceber era o Giancarlo Fisichella e alguns dos italianos, mas agora a Itália está fora do Mundial há três décadas… Por isso, diria o Antonelli, mas talvez o Antonelli já seja mais velho quando a Itália regressar a um Campeonato do Mundo.
P: O Fernando falou sobre um pacote de atualizações que irá mudar o carro drasticamente. Isso significa que vos veremos a lutar no meio do pelotão ou mais acima na grelha ainda esta temporada, ou trata-se de um pacote focado já em 2027?Fernando Alonso: Bem, as duas coisas. Funciona a pensar em 2027 porque necessitamos, definitivamente, de melhorar a nossa situação atual. Mas não, a nossa esperança é que a segunda metade do ano seja mais competitiva e que possamos começar a lutar no meio do pelotão. Sim, esse é o objetivo.
P: Independentemente de as coisas correrem bem ou mal, há sempre imensos adeptos em Barcelona a apoiá-lo. Que mensagem gostaria de deixar a todas as pessoas que o têm aplaudido ao longo destes anos todos?Fernando Alonso: Com certeza. Vai ser um fim de semana especial, provavelmente a minha última corrida em Barcelona na Fórmula 1. Por isso, quero deixar um agradecimento a todos. Vou tentar desfrutar ao máximo deste fim de semana. Sei que não serei competitivo e não estarei muito tempo no carro na qualificação — na corrida, espero que sim, mas não ao ritmo que todos desejamos. Ainda assim, quero que toda a gente desfrute do fim de semana. Tem sido sempre uma celebração quando vêm a Barcelona. Penso que é o meu 23.º Grande Prémio de Espanha e todos eles foram mágicos. E este último também terá de o ser.
P: O Fernando referiu que cumpre aqui o seu 23º Grande Prémio, mas frequenta esta pista há 27 anos. Qual é a sua melhor recordação neste circuito e qual foi a vitória ou corrida mais especial?Fernando Alonso: Bem, essas coisas estão normalmente interligadas. Quando vencemos, essa corrida torna-se automaticamente a mais especial. Mas eu destacaria a de 2006, porque havia uma expectativa gigantesca sobre nós após termos ganho o campeonato em 2005 e por termos conquistado a pole position. Toda a gente esperava que vencêssemos no domingo. Creio que recordarei essa corrida como a minha memória número um.Mas aconteceram muitas outras coisas neste circuito. O meu primeiro teste em monolugares foi aqui, penso que em 1994. O meu primeiro teste com a Renault e o meu primeiro teste com a Benetton também foram aqui. E depois há pequenos momentos aqui e ali que recordarei sempre, como uma volta com o Rei Juan Carlos num Renault Megane, na qual me lembro de que ele talvez não estivesse muito confortável no carro na Curva 3, e eu nem me tinha dado conta de que era o Rei que estava no banco do passageiro. Aconteceram imensas histórias neste circuito, pelo que é um local muito especial.
FOTO MPSA Agency
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