Edições marcantes Séc. XXI, 24h Le Mans 2017: O renascer das cinzas e o quase milagre dos LMP2
2017 ficou marcado por mais uma vitória da Porsche e o fabuloso registo de Filipe Albuquerque perante a debacle dos carros de fábrica
O filme desta corrida teve um autêntico guião de cinema em La Sarthe, onde a fiabilidade da classe secundária quase impôs um resultado inédito à geral.Há edições que desafiam toda e qualquer lógica desportiva e se convertem em lendas que o tempo não apaga. Recuando até junho de 2017, deparámo-nos com a crónica da 85ª edição das 24 Horas de Le Mans.Um enredo repleto de melodrama em que se sintetizava perfeitamente no título de então: “Renascer das cinzas”. Ao relermos o que escrevemos naquela altura, revivemos a perplexidade de um paddock que viu os supertecnológicos mas frágeis LMP1 falharem em série, abrindo caminho para uma quase vitória absoluta de um carro da categoria secundária LMP2.
Porsche LMP Team: Brendon Hartley, Earl Bamber, Timo Bernhard (l-r)
Os Porsche 919 Hybrid e os Toyota TS050 Hybrid chegaram ao vale do Loire como máquinas profundamente modificadas e validadas por meses de testes. Contudo, as temperaturas elevadas e o ritmo demolidor do solstício de verão francês expuseram uma confrangedora debilidade mecânica. O Toyota número 7 de Kamui Kobayashi, Mike Conway e Stéphane Sarrazin liderou sem oposição durante dez horas, mas não resistiu ao esforço. O carro número 9 foi forçado a abandonar após colidir com um retardatário, restando à marca nipónica ver os seus objetivos ruírem um a um.
O conto de fadas da Porsche após o pânico nas boxesA reinterpretação da nossa reportagem da época devolve-nos o foco sobre a extraordinária ressurreição do Porsche número 2. À quarta hora de corrida, Earl Bamber sentiu uma quebra no eixo dianteiro e foi forçado a arrastar-se para as boxes com o sistema híbrido desligado. “Nessa altura o meu pensamento foi de que talvez a nossa corrida tivesse acabado”, confessava-nos Bamber nas citações que preservamos no nosso arquivo. Contudo, os mecânicos operaram um verdadeiro prodígio técnico: em escassos 45 minutos substituíram todo o eixo dianteiro e componentes do cockpit.
Quando regressou à pista, a tripla constituída por Earl Bamber, Timo Bernhard e Brendon Hartley encontrava-se num monumental atraso de 18 voltas. Com a posterior desistência do Porsche número 1, a equipa adotou uma estratégia de ataque absoluto para somar pontos. À medida que os adversários capitulavam, os pilotos foram informados de que a vitória à geral contra os LMP2 era matematicamente possível.Hartley recordava, nas nossas páginas, o esforço hercúleo dos mecânicos, cujos fatos estavam “completamente ensopados” de suor. A recuperação furiosa culminou na ultrapassagem ao Oreca da Jackie Chan DC Racing já na fase final da prova, carimbando a 19ª e última vitória da Porsche à geral em Le Mans. Um desfecho que Hartley descreveu à nossa publicação como “um dos contos de fadas de Le Mans”.
A surpreendente armada LMP2 e o sabor a vitória de AlbuquerqueNas páginas do AutoSport, não poupámos elogios à impressionante fiabilidade da classe LMP2, que quase operou um feito inédito no automobilismo moderno. Os protótipos Oreca, Dallara e Ligier demonstraram uma robustez que, até então, pareceria ficção.
Neste cenário de sobrevivência, a prestação do português Filipe Albuquerque assumiu contornos heroicos. Alinhando com o Ligier JSP217 da United Autosports, ao lado dos estreantes William Owen e Hugo de Sadeleer, o piloto de Coimbra contornou a nítida falta de andamento do seu carro face aos dominantes Oreca através de uma condução cerebral e livre de erros.
Partindo do 15.º posto da classe, o trio escalou com exímia consistência até alcançar um fabuloso quinto lugar na LMP2 e o sexto posto da classificação geral absoluta. “Este quinto lugar, dadas as circunstâncias, tem um sabor a vitória para todos”, declarava-nos Albuquerque com compreensível orgulho. Ironicamente, o piloto alcançava o seu melhor resultado de sempre na clássica francesa aos comandos de um LMP2, superando os anos em que defendeu as cores da equipa oficial da Audi na categoria principal.
Olhar hoje quando se cumprem precisamente nove anos sobre esta prova de 2017, recorda-nos a atmosfera de incredulidade que dominou as boxes e o suor dos mecânicos da Porsche. É um daqueles episódios imperdíveis que guardamos na nossa memória, ilustrando na perfeição como a mítica maratona de La Sarthe consegue erguer heróis a partir das cinzas do aparente fracasso.
FOTOS JB Photo
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