A ‘revolta’ da nova geração e o tabuleiro estratégico do CPR
O Campeonato de Portugal de Ralis (CPR) de 2026 arrancou a todo o gás, e até aqui tem desenhado um panorama fortemente competitivo marcado pela transição de poder e por uma incerteza matemática que se está a revelar fascinante.
Apesar de Rúben Rodrigues (Toyota) ter vencido duas provas (Aboboreira e Portugal) e Pedro Almeida (Toyota), outra, o Rali de Lisboa, as provas têm sido muito equilibradas como se comprovam pelas margens entre primeiro e segundo: 5.6s na Aboboreira, 9.6s no Rali de Portugal, e 1.0s no Rali de Lisboa, sendo que neste caso, o segundo classificado, Rúben Rodrigues, não escolheu a prova para pontuar, mas sim a que se realiza no próximo fim de semana, o Rali de Castelo Branco.
Portanto, ao cabo das três primeiras rondas da temporada, a estabilidade do topo dá lugar a uma intensa batalha de gerações, onde os crónicos candidatos ao título enfrentam o assalto audaz de jovens talentos. Para já, Pedro Almeida, pautando-se por uma regularidade exemplar (três pódios, uma vitória) e em constante crescendo de forma, assumiu o comando do campeonato com 63 pontos, a seguir ao Rali de Lisboa, destronando o vencedor dos dois primeiros ralis, Rúben Rodrigues (duas vitórias, um 2º lugar), que, como já referimos, não pontuou na prova de Lisboa. Neste contexto, o açoriano, que se impôs como a grande figura da fase inicial da época, somando 52 pontos, tem agora em Castelo Branco uma bela oportunidade para regressar ao comando do campeonato. José Pedro Fontes, em ano de estreia com o Lancia, fecha o trio de candidatos mais sérios – para já – à liderança, com 48 pontos, e um pódio, um segundo posto no Rali de Lisboa.
A tónica deste momento da temporada reside no equilíbrio absoluto e no surgimento de novos protagonistas nas lutas da frente, como Gonçalo Henriques (45 pontos), que partilha o papel de perseguidor com a experiente dupla Armindo Araújo e Ricardo Teodósio, ambos empatados com 39 pontos.O padrão mais óbvio destas três primeiras provas foi o confronto direto entre a irreverência dos jovens, a força da maturidade e a lenda dos veteranos, numa época em que o regulamento obriga os pilotos a escolher entre o Rally de Lisboa e o Rali de Castelo Branco para pontuar — um xadrez tático que promete baralhar as contas e redefinir o escalonamento real do campeonato muito em breve.
1- Rali Terras d’Aboboreira: batismo de vitórias de Rúben Rodrigues no CPRA abertura do campeonato em pisos de terra ficou marcada pela estreia absoluta de Rúben Rodrigues no degrau mais alto do pódio numa prova do escalão principal do CPR.Aos comandos do Toyota GR Yaris Rally2 da Auto Açoreana Racing, e navegado por Rui Raimundo, o tricampeão açoriano colheu os frutos da sua aprendizagem no ano transato e ascendeu ao comando logo na fase inicial da primeira etapa. Rodrigues controlou o andamento na fase de sábado e carimbou o triunfo com uma vantagem estreita de 5,6 segundos.Atrás do vencedor, viveu-se um duelo empolgante e decidido ao décimo de segundo pela segunda posição.Armindo Araújo (Skoda Fabia RS Rally2) viu-se fortemente acossado por Pedro Almeida, também em Toyota GR Yaris Rally2.Almeida, que iniciou o rali de forma cautelosa, lançou um ataque impressionante no segundo dia, chegando empatado com o veterano de Santo Tirso à decisiva Power Stage.Na hora das decisões, a experiência do heptacampeão nacional acabou por prevalecer, com Araújo a superiorizar-se por uns escassos 2,1 segundos na classificativa final.A prova de abertura registou ainda o abandono prematuro de Hugo Lopes, que não evitou uma saída de estrada com o seu Hyundai i20 N Rally2 no segundo troço, precisamente quando tentava pressionar Armindo Araújo pelo segundo posto.Gonçalo Henriques, também em Hyundai, rubricou o melhor tempo na segunda passagem por Amarante, mas um pião e problemas técnicos atiraram-no para um modesto sétimo lugar.O rali assistiu ainda à estreia promissora do Lancia Ypsilon Rally2 HF Integrale pelas mãos de José Pedro Fontes, que garantiu o quarto lugar à frente de Pedro Meireles (Skoda), enquanto Ricardo Teodósio terminou em sexto, ainda em fase de adaptação ao Citroën C3 Rally2.
Nas duas rodas motrizes (CPR 2RM), Pedro Câmara (Peugeot 208 Rally4) dominou os acontecimentos da primeira à última classificativa. O jovem açoriano geriu a margem sobre Hélder Miranda para vencer por 4,4 segundos, beneficiando também da desistência do ucraniano Anton Korzun com queixas mecânicas no seu Peugeot quando discutia o pódio.
2 – Rally de Portugal: invencibilidade açorianaIntegrada na mítica etapa portuguesa do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), a segunda ronda do CPR voltou a sorrir a Rúben Rodrigues. Mesmo estreante nos duros troços do Vodafone Rally de Portugal, o piloto da Auto Açoreana Racing exibiu uma maturidade invulgar, liderando e controlando a concorrência desde os primeiros quilómetros para assegurar a segunda vitória consecutiva da época.O rali começou a decidir-se de forma dramática logo na ligação entre a Figueira da Foz e a primeira especial do dia (Mortágua). Um inesperado problema elétrico no Skoda Fabia RS Rally2 de Armindo Araújo — provocado por um cabo que se desligou — causou um atraso crónico na ligação.A consequente penalização de 2 minutos e 16 segundos deitou por terra as aspirações do piloto de Santo Tirso, afundando-o na classificação geral.Com o caminho livre na frente, Rodrigues manteve o sangue-frio, enquanto Gonçalo Henriques superava as contrariedades na suspensão do seu Hyundai i20 N Rally2 para segurar um excelente segundo lugar, terminando a 9,6 segundos do vencedor, lamentando-se no final de não ter podido disputar a segunda passagem por Arganil, pois aí poderia ter tentado recuperar segundos ao vencedor. Em virtude do que sucedeu no troço (entraa de um reboque e anulação da especial), os tempos foram iguais para todos no CPR.Pedro Almeida confirmou o seu bom momento de forma ao fechar o pódio em terceiro, batendo Pedro Meireles, que herdou a quarta posição após José Pedro Fontes (Lancia) ter sido penalizado em um minuto devido a uma entrada antecipada num controlo de tempo.Ricardo Teodósio levou o Citroën ao quinto posto, numa prova em que Hugo Lopes e Diogo Salvi completaram as posições seguintes após intensas trocas de posições na última especial
3 – Rally de Lisboa: triunfo épico de Pedro Almeida por 1.0sA transição para os pisos de asfalto proporcionou uma das provas mais espetaculares e equilibradas dos últimos anos no CPR. O Rally de Lisboa foi uma autêntica maratona de nervos decidida ao décimo de segundo e cujo desfecho ficou guardado para a décima e última especial do itinerário.Pedro Almeida e António Costa, integrados na estrutura oficial da Toyota Gazoo Racing Caetano Portugal, conquistaram a primeira vitória da carreira do piloto no escalão principal pela margem mínima e milimétrica de 1,0 segundo sobre Rúben Rodrigues.As caraterísticas técnicas das classificativas lisboetas nivelaram os andamentos e promoveram uma constante dança de posições na etapa de sábado.O trio da frente, composto por Almeida, Rodrigues e Gonçalo Henriques, rodou colado até à penúltima especial, em Alenquer. Foi aí que o jovem piloto do Team Hyundai Portugal deitou a perder as suas hipóteses de vitória ao fazer um pião, cedendo 23 segundos e caindo para o quinto lugar final.Com os seis primeiros separados por distâncias mínimas, as decisões foram levadas ao limite na mítica Power Stage de Sintra-Almargem do Bispo (11,14 km).Pedro Almeida não tremeu perante a pressão do líder do campeonato e segurou a liderança pela diferença mínima de um segundo.José Pedro Fontes rubricou uma ponta final categórica com o Lancia Ypsilon Rally2, ultrapassando Ricardo Teodósio “no cair do pano” para agarrar o terceiro lugar por escassos 3,4 segundos de diferença face ao homem do Citroën.Armindo Araújo voltou a assinar uma exibição cinzenta, terminando num modesto sexto lugar e sem ritmo para acompanhar a velocidade dos homens da frente.Nas duas rodas motrizes (2RM), João Rodrigues (Peugeot 208 Rally4) dominou por completo em estradas que conhece bem, construindo uma vantagem confortável de 58,6 segundos sobre Danny Carreira.
Classificação Atual do CPR (Após 3 Provas)Posição/Piloto/Carro/Pontos1º Pedro Almeida (Toyota GR Yaris Rally2), 63 pontos2º Rúben Rodrigues (Toyota GR Yaris Rally2) 52 pontos3ºJosé Pedro Fontes (Lancia Ypsilon HF Rally2) 48 pontos4ºGonçalo Henriques (Hyundai i20 N Rally2) 45 pontos5ºArmindo Araújo (Škoda Fabia RS Rally2) 39 pontos6ºRicardo Teodósio (Citroën C3 Rally2) 39 pontos7ºPedro Meireles (Škoda Fabia RS Rally2) 26 pontos
Rúben Rodrigues optou por não pontuar na ronda de Lisboa, o que significa que a próxima prova, o Rali de Castelo Branco, poderá catapultá-lo diretamente de volta ao comando. Isto deve-se ao facto de nenhum dos seus rivais diretos pelo título (Almeida, Fontes, Henriques, Araújo, Teodósio e Lopes) marcar presença em Castelo Branco, fruto da regra de descarte e escolha obrigatória de calendário.
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