Andrew Steer: “Portugal é um verdadeiro líder no oceano”
Andrew Steer acumula uma vasta experiência na área do desenvolvimento sustentável. Foi mesmo o primeiro presidente e CEO do Bezos Earth Fund, uma organização filantrópica para a natureza e o clima, que tinha uma património de 10 mil milhões de dólares. Em 2024 recebeu o título de Cavaleiro [pelo Reino Unido] devido ao contributo que tem dado na área da economia do desenvolvimento sustentável global. Atualmente, copreside o Conselho Global do Futuro sobre o Financiamento Inovador para a Natureza e o Clima do Fórum Económico Mundial.
O especialista britânico na área da sustentabilidade passou recentemente por Portugal, tendo sido recebido pela Fundação Oceano, integrado num grupo de reflexão internacional sobre o capital natural azul. Em entrevista ao Jornal Económico (JE), Andrew Steer, teceu rasgados elogios a Portugal sobre a política que tem seguido na área do oceano.
Andrew Steer considera que a nação portuguesa é um “verdadeiro líder” no oceano e afirma que Portugal influenciou a União Europeia (UE) a ser “mais ambiciosa” na zonas marinhas protegidas, e de ter desempenhado um papel de relevo no Tratado do Alto Mar, assinado em Nova Iorque, em 2023, e teve efeitos jurídicos a partir de 2026.
“Portugal tem um conhecimento científico profundo [na área do oceano]. Foi Portugal que puxou os assuntos marítimos para serem um grande destaque ao nível das Nações Unidas. Portugal tem centenas de anos de exploração no oceano. Portugal é um verdadeiro líder no oceano”, considera Andrew Steer.
Apesar do papel de relevo que Portugal tem assumido no contexto mundial no oceano Andrew Steer deixou alguns alertas à comunidade global no sentido de uma maior proteção do mar.
“Um dos problemas fundamentais é que as pessoas têm a ideia de que a natureza “é grátis”, que tirar água de um rio “é grátis”, que usar ar “é grátis”, que usar o oceano “é grátis”. Achamos que o oceano é tão vasto que podemos usá-lo o quanto quisermos que haverá sempre mais restante. Quer seja aplicado ao shipping, à poluição, ou outra série de problemas. E esse é precisamente o problema. Temos agora muita análise séria a nos mostrar como incrivelmente valioso é o ecossistema que o oceano nos dá”, afirma o especialista na área do desenvolvimento sustentável.
Uma das medidas defendidas por Andrew Steer, para uma melhor proteção do oceano, passaria pela paragem da subsidiação da pesca, embora saliente que “isso não se aplica” a Portugal contudo “aplica-se a muitos países”.
Andrew Steer considera também que é preciso existir regulação sobre o tipo de pesca que é permitido. Além disso afirma que é necessário existir “ambientes regulatórios mais claros” sobre shipping, sobre poluição oceanos, e tudo o que esteja a fazer estragos ao oceano. “Tem um conjunto de políticas que precisam de ser colocadas em ação. E tem uma política mega que é a mudança climática”, acrescenta.
“Talvez a maior causa de declínio no oceano é o nível de mudança climática. Mais de 90% de todo o aquecimento que estamos a causar por poluição de dióxido de carbono (CO2), mais de 90% do calor que estamos a gerar vai para o oceano. E isso leva a temperaturas mais elevadas no oceano. E isso causa problemas para os recifes de coral e todos os tipos de ecossistemas. Outro problema é que 90% do calor que vai para o oceano 25% do CO2 vai para o oceano. E isso leva à acidificação do oceano. E isso causa um maior problema para os recifes de coral. A mudança climática é uma grande ameaça. Se gostamos do oceano temos de levar a mudança climática a sério”, explica.
Andrew Steer refere que existe uma “estranha narrativa” relativamente ao oceano. “Se o oceano fosse uma criatura estaria a sacrificar o seu corpo para nos salvar ao absorver 90% do calor e 25% do CO2. Mas ao mesmo tempo estamos a prejudicar o oceano, a sabotar a sua produção futura e a arruinar a economia”, adianta.
O perito em sustentabilidade diz ainda que a pegada humana “é tão grande” que pode afeta o oceano e a geofísica do planeta, dando como exemplo as correntes oceânicas.
“O Reino Unido beneficia massivamente da Corrente do Golfo (Gulf Stream em inglês) que é uma corrente que vem das Caraíbas e mantém o Reino Unido e toda a Europa do Norte mais quente. Por causa da mudança climática há uma perspetiva que esta corrente inteira vai ficar mais fraca. Não vai acontecer nesta década, nem na próxima década, mas daqui a 100 anos podemos ter correntes diferentes. O que pode tornar o Reino Unido e a Europa do Norte numa região quase semi-artica. Este é só um exemplo do tipo das consequências não intencionais da atividade económica humana”, refere.
Andrew Steer salienta que fora das fronteiras nacionais é preciso ação coletiva. “Países e empresas precisam de trabalhar juntos para um objetivo comum. Infelizmente vivemos num mundo onde não existe tanta cooperação como já existiu. E temos de fazer isso regressar. Estamos a proteger a economia se agirmos de forma diferente”, afirma.
Da sua passagem pela liderança do Bezos Earth Fund destacou a implementação de vários programas de financiamento conservação e restauração na terra e oceano. “No oceano trabalhamos com quatro países da América Latina (Equador, Columbia, Costa Risca e Panamá) que concordaram em criar a maior área protegida transnacional. Eles juntaram-se porque as zonas costeiras estão ligadas. As falhas [na protecção] iria estragar [as zonas costeiras] de todos”, explica.
“Os quatro presidente juntaram-se e concordaram, e nós suportamos e demos financiamento. Uma das coisas interessantes é que os Governos trabalharam muito arduamente com a indústria pesqueira. Normalmente a indústria pesqueira não quer zonas protegidas porque pensam que vai reduzir o seu rendimento. Mas é o contrário. Se tivermos cuidados onde fazemos a proteção a ciência e a economia [mostram] que a proteção marinha pode levar a uma maior e melhor indústria pesquisa”, acrescentou.
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