“Economia continua bastante resiliente aos choques”, sublinha Álvaro Santos Pereira
A economia portuguesa continua resistente aos vários choques negativos que a têm assolado, considera o governador do Banco de Portugal (BdP), que exclui preocupações com possíveis procedimentos por défice excessivo impostos por Bruxelas apesar do regresso previsto aos saldos orçamentais negativos. Ainda assim, a prioridade dada à redução da dívida deve continuar, sob pena de ser invertida nos próximos anos face ao envelhecimento da população.
Na conferência de imprensa de apresentação do Boletim Económico de junho, divulgado esta segunda-feira, o governador Álvaro Santos Pereira sublinhou a resistência que a economia nacional tem mostrado aos sucessivos choques negativos que tem vivido, com destaque para as duas crises energéticas dos últimos quatro anos, projetando que esta se mantenha, mesmo com a incerteza que ainda reina.
“A economia continua bastante resiliente aos choques”, afirmou o governador, embora reconhecendo que “começa a haver mais pressão nos preços”, o que motivou a revisão em alta da inflação.
Recorde-se que o BdP manteve as previsões do crescimento para este ano e o próximo no Boletim divulgado esta segunda-feira, apontando a 1,8% em 2026 e 1,6% em 2027, mas reviu em alta a inflação de 3,1% no final do ano, acima dos 2,8% previstos em março.
Álvaro Santos Pereira destacou o papel da componente energética nesta revisão em alta, mas apontou para outros segmentos, como o dos serviços, onde tipicamente a pressão nos preços “demora um bocadinho mais a descer”. No entanto, o líder do BdP vê na decisão do Banco Central Europeu (BCE) uma forma de “evitar uma espiral da inflação” que teria efeitos mais penalizadores na economia europeia e, por arrasto, na portuguesa.
Por outro lado, o Boletim aponta para um défice este ano, ainda que menos expressivo do que o projetado em dezembro, com uma revisão de 0,4% para 0,2%, mas a possibilidade de novo excedente ou situação de equilíbrio não é excluída. “Há sempre alguma margem”, argumentou o governador, pelo que “tudo vai depender do Governo e da economia”.
Apesar da previsão de défice, Álvaro Santos Pereira não se mostrou preocupado com o risco de o país cair numa situação de procedimento por défice excessivo, mesmo com a despesa líquida a crescer acima dos referenciais dados por Bruxelas.
“Estamos muito perto do equilíbrio orçamental, estamos numa situação orçamental bastante melhor que a maior parte dos países europeus e, ao nível da dívida, tem havido uma redução muito significativa que achamos que vai continuar”, projetou o governador. O Boletim antecipa uma redução do indicador para 85,7% este ano e para 82,5% no próximo.
Ainda assim, o antigo ministro não quer que os portugueses se tornem “complacentes ou relaxem no esforço de desendividamento”, até porque a estrutura demográfica agrava a pressão no futuro, havendo o risco de uma inversão da tendência de queda a na próxima década.
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