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A reforma que falta fazer no ensino superior

A reforma que falta fazer no ensino superior

Recentemente, Maria Kelo, dirigente da Associação Europeia de Universidades, colocou o dedo na ferida ao afirmar, em entrevista a um órgão de comunicação social, que a universidade está a preparar os alunos para um mundo que já não existe. A frase é forte, talvez incómoda, mas tem o mérito de nos obrigar a recentrar o debate onde ele deve estar: não apenas na organização do sistema, mas na sua missão, na sua capacidade para inovar e responder ao tempo em que vivemos.
Em Portugal, a discussão sobre o ensino superior tem sido frequentemente dominada por temas institucionais: autonomia, financiamento, distinção entre universidades e politécnicos, ou a chamada binariedade do sistema. Todos estes temas são relevantes. Nenhum deve ser desvalorizado. Mas seria um erro pensar que a necessária reforma do ensino superior se esgota na arquitetura jurídica ou na arrumação institucional do sistema.
A questão é muito mais profunda.
O verdadeiro desafio é perceber que não podemos continuar a ensinar do mesmo modo, com os mesmos programas, métodos e modelos de avaliação, quando a sociedade, a economia e o mercado de trabalho mudaram radicalmente. A Inteligência Artificial, a transição digital, a sustentabilidade e a transformação das profissões colocam exigências novas às instituições de ensino superior. Não basta formar diplomados. É preciso formar pessoas capazes de pensar criticamente, aprender ao longo da vida, integrar a tecnologia, resolver problemas complexos e agir com criatividade e responsabilidade ética, no fundo enquadrar e integrar estes novos desafios.
Por isso, discutir apenas se uma instituição deve ser universidade ou politécnico é ficar aquém do essencial. A própria binariedade perde sentido quando a oferta formativa se torna, em muitos casos, indistinta entre subsistemas. A pergunta essencial é saber o que cada instituição entrega aos seus estudantes e ao país.
É aqui que o debate sobre o acesso se torna inseparável da reforma do ensino superior. Defender que o ensino superior deve estar aberto a todos não é defender facilitismo. É defender que o talento não pode ser desperdiçado por razões económicas, geográficas ou sociais. Um país com problemas de produtividade, baixos salários e desafios de qualificação não se pode permitir excluir estudantes por falta de alojamento, transportes, apoio social ou condições de permanência.
O acesso ao ensino superior deve ser para todos os que tenham vontade, capacidade e mérito para o frequentar. Mas esse princípio só tem valor se for acompanhado por políticas públicas eficazes de ação social, por instituições atentas ao sucesso dos seus estudantes e por modelos pedagógicos que reconheçam a diversidade dos percursos.
A autonomia das instituições é importante, mas autonomia para quê? Para gerir melhor, certamente. Para decidir com mais responsabilidade, também. Mas, acima de tudo, para mudar: rever currículos, aproximar ensino e investigação, integrar novas tecnologias, valorizar a inovação, reforçar a formação ao longo da vida e responder às necessidades concretas da economia e da sociedade.
Maria Kelo tem razão: não podemos continuar a preparar estudantes para um mundo que já não existe. Mas talvez o problema seja ainda mais exigente. O ensino superior tem de preparar os estudantes para um mundo que ainda não conhecemos inteiramente.
Assim, a reforma de que precisamos não é, nem poderá nunca ser apenas administrativa. Terá de ser uma reforma de ambição, de propósito e de responsabilidade sobre o que ensinamos, como ensinamos, quem incluímos e que país queremos ajudar a projetar e a construir.
O futuro do ensino superior nunca se decidirá apenas na lei, nem na forma como classificamos as instituições. Decidir-se-á na resposta que formos capazes de dar a uma pergunta simples: estamos a preparar os estudantes para repetir o mundo que conhecemos ou para construir o mundo que aí vem?

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