Euronext lança IPOgo: Redução do free float para 10% ajuda PME a entrarem em Bolsa, diz Mathieu Caron
O mercado de capitais europeu oferece condições substancialmente mais favoráveis para as empresas do continente do que a praça norte-americana, contrariando o mito de um “êxodo” rumo a Wall Street. A garantia foi dada por Mathieu Caron, Head of Primary Markets da Euronext, num encontro com jornalistas na capital portuguesa, a propósito do lançamento do IPOgo, uma via de listagem simplificada e direta para por Pequenas e Médias Empresas a entrarem efetivamente na bolsa.
Apoiado em dados de um estudo anual que a dona da Bolsa de Lisboa se prepara para lançar — este ano batizado estrategicamente com o objetivo de “desmistificar os EUA” —, o executivo revelou que as empresas europeias que optam por cotar-se na Europa superam as suas congéneres listadas nos EUA em termos de valorização no primeiro ano pós-IPO.
“A diferença de desempenho entre a Europa e os EUA após um ano de IPO é de 40% a favor do mercado europeu. As empresas que se listam na Europa ficam, em média, 17% mais caras [valorizadas], enquanto o valor equivalente das que vão para os EUA desce 27%”, detalhou Mathieu Caron, referindo-se ao histórico dos últimos cinco anos.
O responsável sublinhou que a ideia de uma fuga massiva de empresas para o outro lado do Atlântico “não passa de uma distorção da realidade”, já que 98% das empresas europeias optam por cotar-se no Velho Continente. Os escassos 5% que escolhem os EUA concentram-se em setores muito específicos — como a saúde e a biotecnologia, devido à procura de aprovação regulatória junto da FDA — e têm origem essencialmente no Reino Unido e na Alemanha.
Simplificação Regulatória e o “Triliões” de Poupanças
Mathieu Caron manifestou um forte apoio à consolidação da União dos Mercados de Capitais (UMC) e à recente implementação do Listing Act europeu. Estas medidas técnicas visam simplificar o acesso ao mercado, especialmente para Pequenas e Médias Empresas (PME).
Entre as principais melhorias operacionais, Caron destacou a possibilidade de aumentar capital até 12 milhões de euros sem necessidade de prospeto (um teto que era de 5 a 8 milhões em alguns países); a redução do requisito de free float (capital disperso em bolsa) para 10%; e a harmonização de regras para que a experiência de cotar em Amesterdão, Bruxelas, Dublin, Lisboa, Milão ou Paris seja exatamente a mesma.
A fechar, o executivo apelou à canalização das poupanças dos cidadãos europeus para a economia real. “Há mais de um trilião de euros em poupanças investidos em finanças não produtivas. Se conseguirmos redirecionar uma fração disso para os mercados públicos, para empresas que constroem o futuro do espaço, da defesa e da saúde, teremos um investimento massivo”, concluiu.
A alteração ao requisito de free float (capital disperso em bolsa) foi um dos pontos mais importantes da simplificação regulatória promovida pelo novo Listing Act europeu.
Com esta revisão, a fasquia mínima de ações que uma empresa deve disponibilizar ao público para entrar no mercado regulado foi drasticamente reduzida de 25% para apenas 10%.
Esta redução histórica traz vantagens diretas para as empresas que planeiam cotar-se. Desde logo maior controlo para os acionistas fundadores que podem abrir o capital da empresa em bolsa sem terem de abdicar imediatamente de uma grande fatia do controlo e dos direitos de voto. Por outro lado, permite que as empresas façam uma entrada em bolsa mais gradual, testando o apetite do mercado com uma percentagem menor de ações e aumentando a dispersão mais tarde, se e quando considerarem oportuno.
Para empresas de menor dimensão ou de cariz mais familiar, a antiga obrigatoriedade de dispersar um quarto do capital era frequentemente um fator de exclusão. A fasquia dos 10% torna o IPO (Oferta Pública Inicial) uma opção muito mais realista e atrativa.
Esta medida alinha-se com o objetivo da Euronext de tornar o processo de admissão à cotação “o mais rápido, o mais simples e o mais barato”, eliminando barreiras técnicas que antes afastavam os campeões europeus dos mercados públicos, explicou.
Defesa e Aeroespacial em alta no longo prazo
Questionado sobre o impacto do panorama geopolítico e os riscos na fronteira europeia — com a guerra na Ucrânia a entrar no seu quinto ano —, Mathieu Caron rejeitou qualquer perda de fôlego no setor da Defesa.
Segundo o responsável, os investimentos anunciados por governos como o de França e da Alemanha (com injeções de milhares de milhões de euros) estão desenhados para os próximos dez anos.
O gestor destacou o exemplo da KNDS, gigante franco-alemã do setor militar avaliada em mais de 10 mil milhões de euros, cujo CEO manifestou recentemente o desejo de avançar para um IPO o mais rápido possível. Existem outras empresas do ramo aeroespacial e de defesa a contemplar o mesmo caminho, garantiu.
Mathieu Caron considera que as tecnológicas têm de decidir entre ser “Peixe Pequeno ou Campeão Europeu”
Mathieu Caron reconheceu que os EUA registaram recentemente o maior IPO do mundo, o SpaceX, e interpreta a retoma da atividade do mercado em 2026 como um sinal positivo de que a inflação está controlada e os índices recuperaram face aos anos desafiantes de 2022, 2023 e 2024. Mas, deixou um aviso sobre “a ilusão de Wall Street” ao questionar: “a discussão que temos com as empresas é você quer ser um peixe pequeno num aquário muito grande, ou quer ser um campeão europeu, valorizado, destacado e apoiado pela Europa?”.
O responsável da Euronext lembrou ainda os custos pesados de seguros e exigências regulatórias (como a lei Sarbanes-Oxley e as regras da SEC), além do abismo de liquidez que separa as chamadas Magnificent 7 (as gigantes tecnológicas americanas) do resto do mercado.
Embora a maior tecnológica europeia atual seja a ASML (avaliada em 0,6 biliões de euros), o Head of Primary Markets da Euronext apontou que a nova geração de empresas de Inteligência Artificial (IA) apresenta excelentes candidatas para o mercado europeu.
Euronext lança IPOgo para facilitar e acelerar IPOs de PME na Euronext Growth
A Euronext anunciou hoje o lançamento do IPOgo, uma nova solução destinada a simplificar e acelerar o processo de entrada em bolsa das pequenas e médias empresas (PME) na Euronext Growth, com documentação simplificada, execução digital integral e maior abertura aos investidores de retalho.
A iniciativa, apresentada no âmbito do encerramento do campus final do programa IPOready 2026, que decorre em Lisboa, visa reduzir as barreiras de acesso aos mercados de capitais europeus e canalizar mais poupança europeia para a economia real, alinhando-se com os objetivos da União dos Poupanças e Investimentos e com as facilidades introduzidas pelo EU Listing Act.
A Euronext explica que o IPOgo permite uma abordagem simplificada de documentação de admissão, inspirada no EU Growth Prospectus, combinada com um processo de admissão mais ágil e execução integralmente digital através da infraestrutura proprietária da Euronext. O objetivo é encurtar significativamente o tempo necessário para a realização de uma IPO por parte das PME.
“Apesar da profundidade dos mercados de capitais europeus, muitas PME bem-sucedidas e em crescimento ainda não acederam ao financiamento público. Com o IPOgo, a Euronext dá mais um passo para reconectar a poupança europeia com as necessidades de financiamento das PME”, afirmou Mathieu Caron, Head of Primary Markets da Euronext, citado no comunicado.
A Euronext Growth conta atualmente com mais de 550 empresas cotadas em toda a Europa, com uma capitalização bolsista agregada de cerca de 40 mil milhões de euros. Em 2025, os volumes de negociação atingiram o nível mais alto desde 2021, com cerca de um terço do volume transacionado a provir de investidores de retalho.
No âmbito do IPOgo, as empresas que pretendam captar até 12 milhões de euros poderão abrir até 100% da oferta inicial a investidores de retalho, com particular relevo em França, onde a Euronext Growth tem cerca de 250 empresas cotadas.
O anúncio surge no dia em que termina em Lisboa o campus de encerramento da edição 2026 do IPOready, o programa de preparação para a bolsa da Euronext, que este ano contou com mais de 160 empresas de 22 países europeus e além.
A Euronext diz que a edição de 2026 destaca-se pela maturidade das empresas participantes (volume de negócios médio de 191 milhões de euros, contra 38 milhões em 2015), forte presença tecnológica (69% das empresas nos setores TMT, Healthtech e Cleantech) e pela introdução de uma pista dedicada a aeroespacial e defesa (IPOready Defence), com mais de 30 empresas.
Pela primeira vez, o Banco Europeu de Investimento (EIB) é parceiro global do programa, ao lado da INSEAD e de mais de 80 parceiros locais.
Desde 2015, 39 empresas alumni do IPOready realizaram IPO, tendo captado mais de 1,8 mil milhões de euros em conjunto. Entre os casos de sucesso recentes contam-se empresas como Exosens, Younited, Sidetrade ou EnergyVision.
O programa IPOready decorreu ao longo de seis meses, com módulos de formação, workshops, sessões de coaching individual e o campus final em Lisboa, que inclui debates com figuras como Stéphane Rougeot (ex-Deputy CEO/CFO de Technicolor, Deezer e Signify), Jérôme Cerisier e Quynh-Boi Demey (Exosens) e Olivier Novasque (Sidetrade).
A Euronext posiciona o IPOready como uma iniciativa de capacitação a montante (2 a 5 anos antes de uma eventual operação), complementando o trabalho das instituições financeiras e assessores.
O IPO Ready é um programa de formação com a duração de 6 meses. O seu objetivo não é listar a empresa imediatamente, mas sim dar aos executivos as ferramentas necessárias para que a empresa fique “pronta para a bolsa”.
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