Vamos mesmo fazer o que ainda não foi feito?
“Vamos fazer o que ainda não foi feito”, canta Pedro Abrunhosa e os portugueses repetem o refrão com esperança de golos e de vitórias. A frase ecoa ainda como promessa e desafio num país onde, demasiadas vezes, a intenção substitui a ação. Portugal é fértil em diagnósticos, relatórios e consensos mornos. Falta-nos, porém, a coragem de executar com consequência e rapidez. Queremos continuar com passes laterais no meio-campo, num jogo lento e sonolento, ou temos fome de golo para rematar à baliza?
Vamos então fazer o que ainda não foi feito, além do futebol. Por exemplo, vamos mesmo ser capazes de reter os nossos jovens? Continuamos a formar talento de excelência para o exportar sem retorno. Segundo dados recorrentes do INE e de organismos europeus, a emigração qualificada mantém-se como válvula de escape de um mercado que não garante salários competitivos. Sem um alinhamento entre produtividade, remuneração, elevador social e progressão de carreira, o discurso da retenção será apenas isso: discurso.
E a habitação? Entre preços que crescem acima do rendimento das famílias e uma oferta insuficiente, a promessa de acesso digno para jovens e famílias vulneráveis tarda em materializar-se. As soluções estão identificadas (simplificação de licenciamentos, incentivo ao arrendamento acessível, parcerias público-privadas), mas esbarram na execução lenta e na fragmentação de políticas.
Na fiscalidade, repetimos o mantra da competitividade. Queremos atrair investimento, mas mantemos complexidade, instabilidade e custos de contexto elevados. Reformar não é apenas ajustar taxas: é dar previsibilidade, reduzir exceções e combater, de vez, a burocracia que trava as empresas e os cidadãos.
Burocracia que, de resto, resiste à digitalização plena. Fala‑se de um Estado cada vez mais moderno, mas persistem papéis, filas e serviços públicos que funcionam por agendamento, como se o acesso fosse um luxo para o contribuinte e ainda vivêssemos em pandemia. O trabalho remoto nos serviços públicos deve servir o cidadão ao balcão, olhos nos olhos, e não afastá‑lo.
A imagem de um meio‑campo que segura a bola sem progressão, vista no jogo de Portugal com o Congo, neste Mundial de Futebol, é metáfora involuntária do país. Circulamos entre intenções, adiamos decisões, consumimos tempo, contamos os segundos até o árbitro apitar… e depois encolhemos os ombros. Também na justiça: processos morosos fragilizam o combate à corrupção e delapidam a confiança dos agentes económicos.
Há um Portugal confortável no empate, do meio‑campo, do meio‑tempo, da não decisão e dos ‘rodriguinhos’. Mas o custo dessa inércia é alto: menos crescimento, menos coesão, menos futuro. Fazer o que ainda não foi feito, como canta e provoca Abrunhosa, exige escolhas claras, execução disciplinada e responsabilização. Marcar golos, em vez de gerir minutos.
A pergunta mantém-se, direta e inevitável: vamos mesmo fazer o que ainda não foi feito?
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