Mundo caminha para excesso de oferta de petróleo, mas produtores não acreditam
As duas instituições mundiais mais respeitadas em termos de análise do mercado petrolífero voltam a chocar nas suas previsões, isto numa altura em que o (aparente) fim da guerra EUA/Israel-Irão promete normalizar o abastecimento global de energia.
A Agência Internacional de Energia (IEA) cortou a sua previsão de consumo para este ano, esperando que atinja mais de 102 milhões de barris diários, menos quatro milhões face a 2025. Para 2027, a expetativa é que a oferta suba para 110 milhões de barris. O problema? Mais oferta significa preços mais baixos. Mau para os produtores, mas positivo para os consumidores.
A quebra na procura deve-se à combinação entre preços elevados e escassez, ou ameaça de escassez, de produtos refinados, notou a agência sediada em Paris.
“A procura final pelos consumidores diminuiu com intensidade”, escreveu a AIE sobre a quebra na procura verificada devido à guerra no Médio Oriente e o subsequente bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irão.
A resolução do conflito ameaça provocar uma subida na oferta, segundo a AIE, o que se reflete na sua previsão para 2027.
“O nosso primeiro olhar para 2027 mostra um excesso de oferta a emergir no próximo ano”, segundo a AIE.
“Se o acordo se se mantiver, as exportações e a produção do Golfo Pérsico devem ver uma recuperação gradual” com a ajuda das exportações de petróleo do Irão, se o embargo americano for levantado.
Por sua vez, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que reúne vários dos maiores produtores mundiais, considera um exagero a previsão da AIE de que haverá um excesso de oferta nos mercados internacionais.
Já a OPEP prevê que a procura global suba de 105 milhões de barris diários em 2025 para 113 milhões de barris em 2030.
“É melhor não fazer previsões quando não são baseadas em factos. O que sabe a AIE que a OPEP e o resto não sabem?”, questionou o secretário-geral da OPEP Haitham al-Ghais em entrevista à “CNBC”. “Focamo-nos em números atuais. Não estamos a fazer uma manchete em grande para chamar a atenção. Estas manchetes criam apenas mais volatilidade”.
Sobre o acordo de paz, a OPEP congratulou-se com o resultado, mas avisa que existem “muitas peças a ter em conta”, considerando que ainda é “prematuro” para cantar vitória.
“Penso que os últimos quatro meses provaram que é crítico que o estreito esteja aberto, não apenas para os produtores da OPEP, mas para os produtores do Médio Oriente e os mercados globais de energia”, defendeu.
O petróleo subia ligeiramente na sexta-feira para mais de 80 dólares, um recuo de quase 8% no espaço de uma semana.
Em Portugal, a expetativa é que o gasóleo recue 12 cêntimos por litro na próxima semana, com a gasolina a cair 6 cêntimos.
O transporte marítimo de petróleo continua no estreito de Ormuz, após a assinatura do acordo.
Na sexta-feira, quatro petroleiros entraram no estreito rumo a portos do Iraque para se abastecerem.
“Apesar de os preços ainda não estarem no ponto pré-guerra, parece que vamos na direção certa”, disse Phil Flynn do Price Futures Group à “Reuters”. “Os navios conseguem mover-se mais rapidamente do que alguns pensam e se houver cooperação entre o Irão e os EUA, então será mais rápido”.
Na sexta-feira, foi anunciado que Israel e o Hezbollah tinham chegado a acordo para um cessar-fogo no Líbano.
O encontro entre responsáveis do Irão dos EUA na Suíça acabou por ser adiado para os próximos dias, mas o memorando já assinado mantém-se, disseram responsáveis do Irão.
Mais de 85 milhões de barris encontram-se retidos no Médio Oriente e vão a caminho dos mercados mundiais.
Pelo estreito de Ormuz passava 20% do petróleo e gás mundial, isto antes do início da guerra.
A normalização está a caminho, com os analistas do Citi a preverem um excesso de oferta, com os preços a ficarem deprimidos na casa dos 60 a 65 dólares por barril no primeiro trimestre de 2027.
Já o Commerzbank prevê que o fornecimento recupere gradualmente, pressionado o barril de Brent para os 80 dólares até ao final do ano, com os preços a ficarem abaixo dos níveis pré-guerra em 2027, segundo a “Reuters”.
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