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União Europeia: Hungria volta a colocar entraves à adesão da Ucrânia

União Europeia: Hungria volta a colocar entraves à adesão da Ucrânia

Deixando claro que não terá sido por acaso que o novo primeiro-ministro húngaro, Peter Magyar, era originalmente do mesmo partido do homem que derrotou nas eleições de abril passado, Viktor Orbán, a Hungria renovou a sua tradicional resistência à entrada da Ucrânia na União Europeia. O alívio que as cúpulas da União Europeia sentiram quando Orbán foi finalmente removido do topo do governo húngaro parecem assim ter sido extemporâneas, apesar de os analistas insistirem exatamente no facto de Magyar ter iniciado a sua atividade política no Fidesz de antigo primeiro-ministro.
Perante esta renovada resistência da Hungria, a União Europeia foi obrigada a mudar de planos e pretende agora desbloquear dois (em vez de cinco) pacotes de adesão (chamados clusters) com a Ucrânia e a Moldávia antes da pausa de verão. O cronograma revisto em Bruxelas visa desbloquear o Cluster 6 (relações externas) e o Cluster 2 (mercado interno) antes do verão, segundo avança a agência Euronews. A Ucrânia e a Moldávia, que estão informalmente emparelhadas, abriram o Cluster 1 (fundamentos) no início deste mês, após uma espera de dois anos devido ao veto da Hungria (de Orbán).
A mudança de planos ocorre num momento em que o novo governo em Budapeste sinalizou diversas vezes, tanto publicamente como em privado, sua oposição à aceleração do processo de adesão da Ucrânia. A Hungria ainda não assinou as cartas conjuntas necessárias para desbloquear os diferentes grupos. A recusa foi confirmada na terça-feira durante uma reunião do grupo de trabalho dos Estados-membros, o que deixou o processo em suspenso, por enquanto.
Para Budapeste, a abertura dos seis clusters num período curto equivale a uma adesão acelerada, mas a maioria dos Estados-membros acha que isso não é verdade – ou, sendo-o, não importa: a intenção manifesta é exatamente a de acelerar a entrada da Ucrânia e da Moldávia – país que a Rússia também tem no seu radar como zona de influência. De facto, vale a pena recordar que, pouco depois do início da guerra na Ucrânia, a Moldávia foi indicada como o ‘alvo seguinte’, exatamente por causa da região da Transnístria, onde estão concentrados os russos que ainda vivem no país.
“Existem, sem dúvida, problemas, mas esperamos que sejam resolvidos a tempo de pelo menos dois polos de entendimento serem abertos em julho”, disse à Euronews um funcionário da UE com conhecimento do assunto.
A Comissão Europeia tem indicado insistentemente que a Ucrânia está tecnicamente preparada para negociar os seis grupos temáticos, que, no total, abrangem 33 capítulos. No mês passado, Marta Kos, Comissária Europeia para o Alargamento, elevou a fasquia e estabeleceu julho como prazo limite para a reabertura de todos os polos de atividade, um objetivo apoiado por Kiev.
Mas, perante a renovada resistência da Hungria — e possivelmente de outros Estados-membros suspeitos de terem usado o veto anterior para ocultar as suas próprias preocupações, como por exemplo, eventualmente, a Bulgária, República Checa e Eslováquia — Bruxelas foi obrigada a reduzir as suas ambições. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, adotou um tom positivo após a cimeira dos líderes da União na semana passada, mas não mostrou partilhar os objetivos de Marta Kos. Caso haja unanimidade, o próximo cluster poderá ser formalmente inaugurado em 14 de julho, durante uma reunião de ministros de Assuntos Europeus em Bruxelas.
Péter Magyar levantou o veto húngaro de longa data ao início do processo, mas também já tinha sinalizado que não está disposto a apoiar um ritmo mais acelerado de negociações. Em declarações à imprensa após a cimeira da semana passada, Magyar afirmou que a abertura rápida de todos os clusters foi suspensa a seu pedido.  “Retirámos muita coisa do texto para evitar qualquer sugestão explícita de que, agora que o primeiro grupo foi aberto, todos os outros também serão abertos repentinamente. Não achamos que seria uma boa ideia”, disse ele aos repórteres.
Magyar fundamentou a sua posição em parte como uma defesa dos candidatos dos Balcãs Ocidentais — Montenegro, Albânia, Macedónia do Norte e Sérvia — que passaram anos e, em alguns casos, décadas a trabalhar para obter a adesão e ainda não a conseguiram.
Magyar afirmou que a Hungria não foi “a única” a opor-se ao desbloqueio de todos os acordos com a Ucrânia em julho, mas não quis adiantar quais os outros países que resistiram.
 
Reconstruir a Ucrânia sem Zelensky
Esta quinta-feira terá início a Conferência sobre a Reconstrução da Ucrânia (URC 2026), que decorre até sexta-feira na cidade de Gdansk, na Polónia. A ideia é mobilizar o investimento internacional público e privado para setores críticos afetados pela guerra, como as infraestruturas, a energia e a logística, além de introduzir debates focados na segurança e defesa.
Apesar da relevância do encontro, que reúne representantes de mais de 100 países, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky não estará presente. A sua ausência deve-se a um recente atrito diplomático entre Varsóvia e Kiev motivado por divergências de memória histórica da Segunda Guerra Mundial. A delegação oficial da Ucrânia será liderada pela primeira-ministra Yulia Svyrydenko.
O foco do conflito é o chamado Exército Insurgente Ucraniano (UPA). Para a Ucrânia, o UPA é visto como um símbolo histórico de resistência e luta pela independência contra a opressão soviética. Para a Polónia, o grupo é responsável pelo Massacre de Volínia (1943–1945), classificado pelos polacos como genocídio, no qual combatentes do UPA terão assassinado cerca de 100 mil civis polacos.
A crise diplomática eclodiu no final de maio, quando Zelensky assinou um decreto oficial que atribuiu o título honorário de ‘Heróis do UPA’ a uma unidade de forças especiais ucraniana. A medida gerou indignação imediata em Varsóvia e o presidente polaco, Karol Nawrocki, retirou a Zelensky a Ordem da Águia Branca (a mais alta condecoração estatal da Polónia, que lhe tinha sido entregue pelo anterior presidente Andrzej Duda. Zelensky devolveu a medalha por correio e três antigos presidentes da Ucrânia decidiram abdicar das suas próprias distinções polacas. Nawrocki ameaçou que a Polónia poderá bloquear a adesão da Ucrânia à União Europeia se Kiev continuar a promover o culto a organizações ligadas à violência contra cidadãos polacos. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, antigo presidente do Conselho Europeu tentou acalmar os ânimos e manter o foco no apoio económico e militar em debate na Conferência de Gdansk.
O UPA foi criado no final de 1942 e servia como braço armado da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), liderada ideologicamente por Stepan Bandera. Recorde-se que Bandera é, na Ucrânia, considerado um herói nacionalista e anticomunista. Fora da Ucrânia, nomeadamente na Polónia e na Rússia, é condenado como colaborador dos nazis durante a invasão à União Soviética, antissemita e criminoso de guerra. A História parece dar razão a estes últimos.

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