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Depósitos de empresas superam créditos em quase 3 mil milhões

Depósitos de empresas superam créditos em quase 3 mil milhões

É uma realidade pouco habitual no país e que teve os primeiros contornos em outubro do ano passado: as empresas, como um todo, tinham em abril mais 2,8 mil milhões de euros em depósitos do que empréstimos. No início do ano, Gonçalo Regalado, presidente do Banco Português de Fomento (BPF), chegou a apelar às empresas para que investissem mais. Só que, desde então, o diferencial entre estas duas dimensões não parou de aumentar.
No final de 2025, o stock de empréstimos às empresas subia 2,65% face ao mesmo mês do ano anterior, enquanto os depósitos cresciam 9%. Agora, acrescentando apenas quatro meses, a diferença acentuou-se: em abril, os créditos subiram 5,4% face a dezembro de 2024, para um total de 76 mil milhões de euros, mas nos depósitos o acréscimo já era de 13,7%, atingindo 78,9 mil milhões, segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal.
“Se as empresas continuam a ter muito bons resultados, como têm sido os últimos anos, e como espero que seja em 2026, as empresas usam a rentabilidade para depósitos ou dividendos. Como a maioria das empresas tem uma política de dividendos conservadora, fica com os depósitos”, explicou Gonçalo Regalado em janeiro, sublinhando que “as empresas não investem, ou investem pouco”.
O presidente do Banco de Fomento dizia ao Jornal Económico que compreendia que houvesse “uma boa base de depósitos quando as taxas de remuneração estavam entre 3% e 4%”, mas, tendo em conta “a remuneração abaixo de 1% no depósito a prazo”, Gonçalo Regalado não acreditava que os depósitos continuassem a crescer de forma contínua. O contrário significaria que os empresários estavam com dificuldade em encontrar investimentos com retorno superior a 1%, “o que é pouco comum”.
Oresponsável antevia, por isso, que a base de depósitos pudesse “ser mantida, ou até um pouco reduzida”, para “a casa dos 70 mil milhões de euros” e que o crédito recuperasse “de forma moderada e equilibrada”.
Para já, no entanto, a tendência é inversa nos depósitos: só desde dezembro passado, subiram 3,2 mil milhões de euros, um aumento de 4,3% em quatro meses, contra os 1,9 mil milhões dos empréstimos no mesmo período.
Em menos de oito anos, desde janeiro de 2019, o valor praticamente duplicou.
Guerra e problemas estruturais
Se antes a tendência já era de subida, a nova guerra no Irão não veio ajudar, gerando nova instabilidade à escala global e ensombrando a atividade económica. Armindo Monteiro, presidente da CIP(Confederação Empresarial de Portugal), entende que “a situação de guerra, o custo da energia e das matérias-primas e a imprevisibilidade no mundo” ajudam a explicar a evolução dos depósitos. As empresas aguardam melhores oportunidades para investir.
A estes fatores conjunturais Armindo Monteiro acrescenta, no entanto, “as dificuldades estruturais de Portugal”, que, para o presidente da CIP, explicam a tendência mais longa. “São todos os custos de contexto” que impedem um ambiente mais favorável ao investimento, sublinha o representante dos patrões. “Tem a ver com a fiscalidade, com a justiça e com as regras laborais”.
O presidente da CIP refere que, ao tomarem a decisão de não fazerem investimentos nesta fase, os empresários entendem “que o investimento gera menos oportunidade do que ter o dinheiro a render pouco” em depósitos bancários. “Sabendo nós que os valores que rendem no banco são baixos, imagine-se o nível de desconfiança em relação ao mercado”, sublinha. “O que está em causa é o retorno do investimento e a imprevisibilidade”.
No que depende de Portugal, Armindo Monteiro apela a que o país faça as reformas necessárias: “Isto deveria elucidar todos os que acham que não são precisas reformas — a laboral ou outras”, atira o presidente da CIP.
“Portugal tem de permitir um nível de remuneração maior se quer ter investimento. É preciso criar condições para que os projetos sejam mais bem remunerados”, conclui.

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