Guerra impulsiona lucros de petrolíferas, indústria da Defesa e transporte marítimo
Empresas de transporte marítimo, seguradoras, Defesa e produtores de petróleo e gás estão entre os setores que viram os seus lucros disparar, à medida que a guerra e a incerteza abalaram os mercados mundiais.
Segundo a “Aljazeera”, em termos de dinheiro vivo, nenhum setor beneficiou de forma mais direta da guerra do que o da energia. Antes do conflito, cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) mundial passava pelo Estreito de Ormuz.
A dada altura, o preço do petróleo Brent atingiu brevemente os 126 dólares (110,45 euros) por barril, o valor mais elevado dos últimos quatro anos. Desde então, o preço recuou para níveis anteriores à guerra, situando-se em cerca de 72 dólares (63,12 euros) por barril.
Os preços mais elevados traduziram-se num enorme aumento do fluxo de caixa para alguns produtores de petróleo, que também conseguiram beneficiar das maiores diferenças de preços entre os mercados energéticos regionais.
A Saudi Aramco registou lucros de 32,5 mil milhões de dólares (28,50 mil milhões de euros) no primeiro trimestre, um aumento de 25% em comparação com o mesmo período do ano anterior. A empresa tirou partido do seu oleoduto Este-Oeste, com 1.200 quilómetros de extensão, até ao Mar Vermelho, contornando o Estreito de Ormuz, para manter as exportações numa capacidade de sete milhões de barris por dia, ao mesmo tempo que vendia petróleo a preços mais elevados.
A British Petroleum (BP) anunciou lucros de 3,2 mil milhões de dólares (2,81 mil milhões de euros) no primeiro trimestre — mais do dobro do registado no ano anterior e bastante acima das expectativas dos analistas, que apontavam para 2,67 mil milhões de dólares (2,34 mil milhões de euros).
Apesar de ter visto 15% da sua produção global interrompida no Qatar, no Iraque e nos Emirados Árabes Unidos, a TotalEnergies registou um resultado líquido ajustado de 5,4 mil milhões de dólares (4,73 mil milhões de euros), em comparação com 4,2 mil milhões (3,68 mil milhões) no mesmo trimestre do ano anterior. A empresa conseguiu manter uma produção terrestre de 210 mil barris por dia nos Emirados Árabes Unidos, encaminhando as exportações através do Terminal de Fujairah, contornando o Estreito de Ormuz.
A Rystad Energy, uma empresa independente de investigação no setor da energia, analisou em abril, no auge da volatilidade dos mercados, o fluxo de caixa das principais petrolíferas, comparando os retornos obtidos com um preço inferior a 65 dólares por barril antes da guerra com os obtidos a 100 dólares por barril durante o conflito. A análise concluiu que a Saudi Aramco era a empresa com maior potencial para beneficiar da subida dos preços.
Lucros da Defesa em alta
Poucos dias após os primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, no final de fevereiro, os responsáveis pelas maiores fabricantes de armamento do mundo reuniram-se na Casa Branca e acordaram aumentar a produção de armas, numa altura em que as reservas de munições dos EUA estavam a diminuir.
Participaram nas conversações executivos da RTX, da Lockheed Martin, da Boeing, da Northrop Grumman, da BAE Systems, da L3Harris e da Honeywell. Todas estas empresas têm carteiras de encomendas avaliadas em milhares de milhões de dólares, com atrasos na produção que deverão aumentar à medida que os governos se apressam a reabastecer os seus arsenais.
Apenas algumas semanas antes do conflito, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aprovou um aumento de 500 mil milhões de dólares (438,37 mil milhões de dólares) no financiamento da defesa, solicitado pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth. A 19 de março, Hegseth defendeu perante o Congresso um novo pedido de 200 mil milhões de dólares em financiamento adicional, afirmando aos jornalistas: «É preciso dinheiro para eliminar os maus da fita.»
Os investidores já começaram a apostar num prolongado ciclo de crescimento para o setor da defesa. Os melhores desempenhos registaram-se na Boeing, RTX, L3Harris e Northrop Grumman, que anunciaram um sólido crescimento das receitas e aumentaram ou confirmaram as previsões para o conjunto do ano.
Empresas de transporte marítimo e seguradoras
A perturbação provocada pelo conflito resultou em viagens mais longas e em estrangulamentos nas rotas marítimas que, na prática, retiraram cerca de 7% da frota mundial de navios petroleiros de circulação, segundo a empresa europeia de serviços financeiros Kepler Cheuvreux. Como consequência, as tarifas do custo do transporte de mercadorias atingiram níveis históricos.
Os principais beneficiários foram os operadores especializados no transporte marítimo de petróleo, como a Frontline e a DHT Holdings, cujas receitas aumentam diretamente com a subida das tarifas de frete. A Frontline, a quinta maior empresa mundial de transporte de petróleo por navio, registou receitas superiores a 536 milhões de dólares (469,89 mil milhões de euros) no primeiro trimestre, enquanto a DHT conseguiu assegurar contratos de fretamento com tarifas superiores a 100 mil dólares por dia para alguns dos seus navios.
O conflito também se revelou altamente lucrativo para as seguradoras marítimas.
Poucos dias após o início das hostilidades, os prémios dos seguros de risco de guerra para os navios que atravessavam o Estreito de Ormuz quintuplicaram. Os custos dos seguros, que anteriormente rondavam 0,25% do valor de um navio, aumentaram para 1,5% e, em alguns casos, atingiram mesmo os 10%. As principais seguradoras do setor, incluindo a Gard, a Skuld e a NorthStandard, aumentaram os prémios para as travessias no Golfo de um intervalo base entre 0,15% e 0,25% do valor da embarcação para valores que chegaram aos 1,5%.
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