A China e as operações de paz
Apesar das operações de paz da ONU terem diminuído em cerca de 40% na última década, vítimas das fortes tensões entre as grandes potências, e terem de viver com orçamentos cada vez mais reduzidos, em grande parte responsabilidade da Administração Donald Trump, a China continua a dedicar-lhes uma grande atenção mantendo a política iniciada nos anos 1990, cujos fundamentos políticos e estratégicos importa perceber.
De um papel marginal, Pequim passou a ser o principal contribuinte para as operações de paz da ONU, combinando a presença militar com o apoio financeiro e logístico. Ao contrário dos EUA, que se limitam a financiar as operações da Organização, a China financia-as e contribui com tropas e polícias. Esta diferente abordagem reflete doutrinas e objetivos estratégicos que não podem ser dissociados das iniciativas políticas de Pequim para consolidar o seu estatuto de grande potência, projetar uma imagem de “responsabilidade internacional” e promover os seus interesses estratégicos, no quadro multilateral, matéria relativamente à qual os EUA têm mostrado ceticismo e afastamento.
A política externa chinesa combina o multilateralismo com a ação bilateral, especialmente em África, onde se concentra uma parte significativa dos seus interesses económicos e de segurança. A cooperação multilateral no quadro da ONU através das operações de paz proporciona e potencia a cooperação bilateral fora do quadro da Organização, em que Pequim também participa, mas de forma diferente, focando-se principalmente no apoio financeiro, diplomático e na capacitação de forças, mas não com tropas. Vão longe os tempos em que a política externa chinesa se resumia a apoiar os movimentos de libertação nacional em África.
No quadro da ONU
A participação chinesa em operações de paz teve início em 1990, quando Pequim enviou observadores militares para a UNTSO (Israel). Em 1992, essa participação aumentou com o envio de uma unidade de engenharia militar, com cerca de 400 militares, para a UNTAC (Camboja). Desde então, a China tem vindo a expandir a sua contribuição, passando de contingentes de 100 militares, em 2000, para mais de 1.600 capacetes azuis, em 2026 (MNE da RPC, março), destacados em oito missões (Líbano, Sudão do Sul, Abiei (região rica em petróleo de 10.546 km² na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul) e República Democrática do Congo), além de um pequeno número de oficiais de estado-maior em funções no quartel-general da ONU, em Nova Iorque, e observadores militares contribuindo para estas operações com mais tropas do que os restantes membros permanentes do Conselho de Segurança juntos.
A China mantém ainda em permanente estado de prontidão uma força para operações de paz com oito mil efetivos, composta por 28 unidades profissionais de 10 tipos, incluindo infantaria, equipas médicas, unidades de reação rápida, helicópteros e engenheiros, prontas para serem rapidamente enviadas para zonas de operações de paz, no estrangeiro.
No total, mais de 50 mil capacetes azuis chineses já participaram em 29 operações de paz da ONU. A China encontra-se no 8.º lugar (30ABR2026) entre os países contribuintes com tropas (e pessoal uniformizado) para as operações de paz da ONU, e é o seu segundo maior financiador. Em 2026, Os EUA contribuíram com cerca de duas dúzias de pessoas, ficando fora do top 80 dos países contribuintes com forças.
Tradicionalmente, os países em desenvolvimento fornecem a maioria das boots on the ground, enquanto os países desenvolvidos preferem pagar os custos das operações. A China faz as duas coisas, aumentando o seu soft power combinando envio de tropas com financiamento.
No ciclo 2024–2025, Pequim contribuiu com 18,7% (cerca de $1,04 mil milhões) do orçamento da ONU dedicado às operações de paz, apenas atrás dos EUA, com cerca de 27%, longe dos 6-10%, do ciclo 2016-2018. No ciclo 2025–2026, essa contribuição dilatou para 23,7% (cerca de 1,5 mil milhões), sendo em ambos os ciclos a segunda maior contribuição. Pequim tem honrado integralmente as suas contribuições para as operações de paz, sem dívidas de longo prazo pendentes, o que contrasta com os EUA que têm uma contribuição mais elevada, mas mantêm uma dívida de cerca de 2,4 mil milhões de dólares há vários anos.
Pequim tem participado nestas operações com unidades de infantaria, engenharia, desminagem, equipas médicas, unidades de helicópteros, unidades de reação rápida, observadores militares e oficiais de estado-maior, principalmente em África, onde nalguns períodos chegou a concentrar mais de 80% dos seus capacetes azuis: na UNMISS (Sudão do Sul) com um batalhão de infantaria (cerca de mil soldados); na MONUSCO (República Democrática do Congo), na MINUSMA (Mali), e no Darfur (Sudão), entre outras. Além da segurança, as tropas chinesas têm estado envolvidas na criação de infraestruturas, na assistência médica, no apoio humanitário e na ajuda ao desenvolvimento local.
Fora do quadro da ONU
Pequim tem evitado participar em operações de paz fora do quadro da ONU, mas quando o faz a sua ação centra-se no treino e na capacitação de forças africanas focando-se principalmente em missões de estabilização alinhadas com os seus interesses económicos em África e com a sua iniciativa “Uma Faixa uma Rota”; usando essas operações de paz para ganhar legitimidade internacional e influência no Sul Global.
Pequim tem desenvolvido uma cooperação significativa e multifacetada com a União Africana (UA) e com as organizações africanas sub-regionais, especialmente desde o início dos anos 2000, com ênfase no apoio institucional, económico, infraestrutural e, em menor grau, de segurança. Por exemplo, apoiou financeiramente a missão da UA, no Darfur, a missão na Somália e apoiou a designada Arquitetura Africana de Paz e Segurança (APSA), envolvendo-se no treino e na capacitação de forças de paz africanas, assim como no seu apoio logístico/equipamento, atividades alinhadas com a iniciativa “Cooperação China-África em Segurança”.
Para a UA, a China é um parceiro chave que preenche lacunas de financiamento e de infraestruturas, alinhada com a visão de uma “África integrada, próspera e pacífica”. Pequim financiou integralmente (com cerca de $200 milhões) a construção da sede da UA, em Adis Abeba (2012), abriu uma missão permanente junto da UA (2005) e esta reciprocou com uma missão permanente na China, mantendo assim um diálogo estratégico constante. Para a China, a UA serve como multiplicador de influência continental, complementando as abordagens bilaterais.
Pequim alinhou explicitamente os seus projetos com os objetivos da “Agenda 2063” e com o “Programa para o Desenvolvimento de Infraestruturas em África” (PIDA – transportes, energia, tecnologias da informação e comunicação e água transfronteiriça) da UA. Muitos planos de ação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), uma plataforma de cooperação crucial nas relações entre a China e os países africanos, como o de 2025-2027, enfatizam esta sinergia. A China é o maior parceiro comercial e investidor de África. Esta cooperação alarga-se a bolsas de estudo, centros de pesquisa conjuntos, cooperação em ciência e tecnologia. Em janeiro de 2026, teve lugar o 9.º Diálogo Estratégico China-UA, em Adis Abeba, reforçado através do FOCAC.
Ainda no âmbito da paz e segurança foi lançada, em 2012, a Iniciativa “China-África Parceria para a Paz e Segurança”, um quadro de cooperação lançado pela China com os países africanos e a UA para fortalecer a colaboração nos domínios da paz, segurança, estabilização e prevenção de conflitos, a qual inclui quatro componentes principais: o “Fundo China-África para Paz e Segurança”, que financia operações de manutenção da paz, formação e apoio a operações; o “Fórum China-África de Paz e Segurança”, que envolve a participação de ministros da defesa, militares e especialistas para discutir assuntos de segurança; o apoio à APSA, que inclui o apoio à força africana de resposta rápida, às operações de paz da UA e às designadas soluções “africanas para problemas africanos”; e a “Assistência militar e formação” com o treino de militares e polícias africanos, doação de equipamentos, realização de exercícios conjuntos e apoio logístico.
Enquanto os EUA, céticos em relação à eficácia de algumas operações de paz da ONU, têm preferido intervenções multilaterais ad hoc ou bilaterais, como no Afeganistão ou no Iraque, a atuação da China fora do quadro da ONU, como no caso da UA, tem sido predominantemente de apoio material e alinhamento estratégico, concentrada no desenvolvimento, com uma presença crescente nos domínios da governação e da segurança, reforçando as suas posições no Sul Global e alimentando uma relação que tem vindo a evoluir para uma coordenação institucional cada vez mais intensa.
O entendimento dos fundamentos estratégicos da importância atribuída por Pequim às operações de paz, na sua maioria em África, insere-se numa ação política de maior envergadura e abrangência, inserida na “Parceria Estratégica e Cooperativa Abrangente” (Joanesburgo, 2015), que marcou uma nova fase na interação com África: maior coordenação política, apoio mútuo em fóruns internacionais, criar sinergias entre a “Agenda 2063” africana e as iniciativas chinesas (como a “uma faixa, uma rota”), e a cooperação em paz e segurança.
Esse envolvimento reflete um pensamento radicalmente diferente do norte-americano. A China e os EUA têm desempenhado papéis muito distintos no que respeita às operações de paz, tanto no quadro como fora do quadro da ONU. O projeto chinês aposta numa parceria estratégica com África assumindo um compromisso com o multilateralismo africano e a integração continental. As operações de paz, independentemente do quadro em que se realizem, são utilizadas por Pequim para abrir as portas para uma cooperação mais intensa e abrangente em múltiplos domínios, servindo a segurança apenas como o catalisador específico dessas relações.
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