“Armazenamento de energia pode valer até 1.170 milhões”, diz João Conceição, administrador da REN
“O armazenamento de energia pode tornar-se uma peça estrutural do sistema elétrico português, num contexto de crescente penetração de renováveis e maior volatilidade dos preços da eletricidade”, disse hoje João Conceição, administrador da Rede Elétrica Nacional (REN), numa intervenção sobre o futuro dos mercados elétricos e dos serviços de sistema no evento de apresentação da Estratégia Nacional para o Armazenamento de Eletricidade, na Rua do Século, em Lisboa.
Portugal, sublinhou o responsável da REN, tem vindo a reforçar a aposta nas energias renováveis, o que traz desafios acrescidos à gestão da rede. “Portugal tem evoluído no sistema elétrico nacional numa clara aposta de incorporação de renováveis”, afirmou João Conceição, destacando que a natureza intermitente destas fontes obriga a maior capacidade instalada e sobretudo a mais flexibilidade operacional.
Segundo o responsável da REN, a complexidade do sistema elétrico tem vindo a aumentar, com mais agentes, maior participação dos consumidores e novas formas de produção descentralizada. Esse cenário, defende, torna inevitável o reforço de soluções de flexibilidade, com o armazenamento a assumir um papel central.
“E a palavra flexibilidade é uma palavra que vai ser cada vez mais usada no sistema elétrico”, sublinhou.
Volatilidade de preços abre oportunidade de mercado
João Conceição destacou ainda a crescente diferença entre os preços da eletricidade ao longo do dia, com quedas acentuadas nas horas de maior produção solar e picos significativos no período noturno.
Essa volatilidade cria, segundo o administrador da REN, oportunidades claras de arbitragem para tecnologias de armazenamento, permitindo comprar energia quando é mais barata e vendê-la em períodos de maior valor.
Este contexto acaba por posicionar o armazenamento não apenas como uma solução técnica, mas como um ativo com capacidade de gerar valor económico relevante no próprio funcionamento do mercado elétrico.
Em certos momentos recentes, referiu, os preços nas horas de ponta têm atingido valores entre 100 e 120 euros por MWh, evidenciando o potencial económico destas soluções.
Bombagem hidroelétrica já tem papel relevante
Portugal, recordou João Conceição, já dispõe de uma base relevante de armazenamento através de sistemas de bombagem hidroelétrica.
“Quase dois terços da produção das centrais hidroelétricas com bombagem resultaram de bombagens prévias”, referiu, ilustrando a maturidade desta tecnologia no sistema elétrico nacional.
Este mecanismo permite armazenar energia em períodos de menor preço e libertá-la quando o sistema mais necessita, funcionando como um dos principais instrumentos de equilíbrio da rede.
Um ponto crítico
Outro dos pontos críticos apontados prende-se com o aumento do chamado curtailment — a redução forçada de produção renovável por falta de capacidade de escoamento na rede, desperdiçando energia.
Segundo os dados apresentados por João Conceição, nos primeiros semestres de 2026 este fenómeno terá sido cerca de 7,4 vezes superior ao registado em 2025, evidenciando o crescente desajuste entre produção renovável e capacidade de absorção do sistema.
Serviços de sistema valem 1.350 milhões
Além do mercado grossista, o administrador da REN destacou a importância dos serviços de sistema — mecanismos essenciais para garantir a estabilidade da rede, como reservas de energia, controlo de tensão ou resposta a desequilíbrios em tempo real.
Em 2025, estes serviços terão representado cerca de 1.350 milhões de euros, o que corresponde a aproximadamente 40% do valor total do mercado elétrico.
Até 1.170 milhões acessíveis ao armazenamento
Na visão da REN, uma parte muito significativa deste mercado pode ser capturada por sistemas de armazenamento.
“Entre 1.000 e 1.170 milhões de euros correspondem a áreas ou componentes dos serviços de sistema em que os sistemas de armazenamento podem participar”, afirmou João Conceição, sublinhando o potencial de crescimento desta tecnologia no mercado português.
Este potencial, estimado em até 1.170 milhões de euros (mil cento e setenta milhões de euros), evidencia o peso económico crescente destas soluções e a sua integração progressiva na lógica de funcionamento do setor elétrico.
A entrada destas soluções permitiria, segundo o responsável, aumentar a liquidez, a concorrência e a transparência do mercado de serviços de sistema.
Armazenamento como peça estrutural da transição
João Conceição deixou uma mensagem clara sobre o papel estratégico do armazenamento no sistema elétrico do futuro.
Os sistemas de armazenamento, defendeu, são essenciais tanto para garantir a segurança de abastecimento como para permitir a integração eficiente de energias renováveis. Ao mesmo tempo, constituem uma nova fonte relevante de receita nos mercados elétricos.
Num sistema cada vez mais dependente de renováveis e sujeito a maior volatilidade, a flexibilidade deixará de ser um atributo técnico para passar a ser um ativo económico central — e o armazenamento, segundo o responsável da REN, será o principal instrumento dessa transformação.
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